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A arte de ser avó
Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu.
É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio,
sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o
sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe
nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha
da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de
ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o
amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo
aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice.
São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
No entanto – no entanto! – nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande
rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do garoto. Não importa que ela,
hipocritamente, ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha”, e lhe conte que de noite, às vezes, ele
de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas
posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da
amante dos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com
ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar
e o ônus de castigar.
Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz
presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a
menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão,
a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os
encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão
da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café – café! –, mexer no armário da
louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil
vezes se quiser. Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos
e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó, e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação
moderna...
E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você,
sabendo que se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade...
Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se
quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas
enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e
depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó? Era um
simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague...
(QUEIROZ, Rachel. – Elenco de cronistas modernos – 25ª ed. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 – Texto adaptado.)
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Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu.
É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio,
sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o
sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe
nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha
da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de
ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o
amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo
aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice.
São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
No entanto – no entanto! – nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande
rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do garoto. Não importa que ela,
hipocritamente, ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha”, e lhe conte que de noite, às vezes, ele
de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas
posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da
amante dos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com
ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar
e o ônus de castigar.
Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz
presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a
menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão,
a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os
encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão
da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café – café! –, mexer no armário da
louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil
vezes se quiser. Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos
e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó, e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação
moderna...
E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você,
sabendo que se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade...
Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se
quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas
enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e
depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó? Era um
simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague...
(QUEIROZ, Rachel. – Elenco de cronistas modernos – 25ª ed. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 – Texto adaptado.)
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Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu.
É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio,
sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o
sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe
nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha
da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de
ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o
amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo
aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice.
São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
No entanto – no entanto! – nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande
rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do garoto. Não importa que ela,
hipocritamente, ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha”, e lhe conte que de noite, às vezes, ele
de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas
posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da
amante dos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com
ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar
e o ônus de castigar.
Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz
presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a
menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão,
a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os
encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão
da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café – café! –, mexer no armário da
louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil
vezes se quiser. Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos
e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó, e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação
moderna...
E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você,
sabendo que se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade...
Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se
quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas
enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e
depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó? Era um
simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague...
(QUEIROZ, Rachel. – Elenco de cronistas modernos – 25ª ed. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 – Texto adaptado.)
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Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu.
É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio,
sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o
sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe
nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha
da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de
ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o
amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo
aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice.
São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
No entanto – no entanto! – nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande
rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do garoto. Não importa que ela,
hipocritamente, ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha”, e lhe conte que de noite, às vezes, ele
de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas
posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da
amante dos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com
ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar
e o ônus de castigar.
Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz
presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a
menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão,
a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os
encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão
da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café – café! –, mexer no armário da
louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil
vezes se quiser. Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos
e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó, e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação
moderna...
E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você,
sabendo que se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade...
Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se
quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas
enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e
depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó? Era um
simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague...
(QUEIROZ, Rachel. – Elenco de cronistas modernos – 25ª ed. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 – Texto adaptado.)
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A arte de ser avó
Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu.
É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio,
sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o
sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe
nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha
da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de
ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o
amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo
aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice.
São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
No entanto – no entanto! – nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande
rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do garoto. Não importa que ela,
hipocritamente, ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha”, e lhe conte que de noite, às vezes, ele
de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas
posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da
amante dos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com
ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar
e o ônus de castigar.
Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz
presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a
menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão,
a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os
encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão
da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café – café! –, mexer no armário da
louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil
vezes se quiser. Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos
e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó, e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação
moderna...
E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você,
sabendo que se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade...
Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se
quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas
enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e
depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó? Era um
simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague...
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A vida como imperativo cósmico; sem ela, universo seria incompleto
Durante séculos, os cientistas tentaram explicar o universo por meio de leis físicas, expressas por equações
matemáticas. O universo era representado como uma imensa máquina que funcionava sempre de forma estável. A vida
e a consciência não tinham lugar nesse paradigma. Era assunto das religiões. Mas tudo mudou quando, a partir dos anos
20, o astrônomo Hubble provou que o estado natural do universo não é a estabilidade, mas a mudança.
Expansão, auto-organização, complexificação e emergência de ordens cada vez mais sofisticadas são características
do universo. E a vida? Não sabemos como surgiu. O que podemos dizer é que a Terra e o inteiro universo trabalharam
bilhões de anos para criar as condições do nascimento dessa belíssima criança que é a vida. É frágil porque pode
facilmente adoecer e morrer. Mas também é forte porque nada até hoje, nem os vulcões, nem os terremotos, nem os
meteoros, nem as dizimações em massa em eras passadas conseguiram extingui-la totalmente.
Para que surgisse a vida, foi preciso que o universo fosse dotado de três qualidades: ordem (vinda do caos),
complexidade (oriunda de seres simples) e informação (originada pelas conexões de todos com todos). Mas faltava
ainda um dado: a criação dos tijolinhos com os quais se constrói a casa da vida.
São os ácidos e demais elementos que permitem todas as combinações e todas as transformações. Assim, não há
vida sem que haja a presença do carbono, do hidrogênio, do oxigênio... Enfim, dos 118 elementos da tabela periódica.
Temos, portanto, o mesmo código genético de base criando a unidade sagrada da vida, dos micro-organismos até os
seres humanos. Todos somos, de fato, irmãos e irmãs, como afirma o papa Francisco em sua encíclica sobre a ecologia
integral, porque somos formados pelos mesmos 20 aminoácidos e quatro bases nitrogenadas (adenina, timina, guanina
e citosina).
Mas faltava um berço que acolhesse a vida: a atmosfera e a biosfera, com todas as substâncias essenciais para a
vida – o carbono, o oxigênio, o metano, o ácido sulfúrico, o nitrogênio e outros.
Dadas essas pré-condições, eis que, há 3,8 bilhões de anos, aconteceu algo portentoso. Possivelmente do mar ou
de um brejo primitivo onde borbulhavam todos os elementos como uma espécie de sopa, de repente, sob a ação de um
grande raio lampejante vindo do céu, irrompeu a vida.
Misteriosamente, ela está aí já há 3,8 bilhões de anos: no minúsculo planeta Terra, num sistema solar de quinta
grandeza, num canto de nossa galáxia, a 29 mil anos-luz do centro dela, aconteceu o fato mais singular da evolução: a
irrupção da vida. Ela é a mãe originária de todos os viventes, a Eva verdadeira. Dela descendem todos os demais seres
vivos, também nós, humanos, de um subcapítulo do capítulo da vida: nossa vida consciente.
Por fim, ouso dizer com o biólogo, também Prêmio Nobel, Christian de Duve e com o cosmólogo Brian Swimme,
que o universo seria incompleto sem a vida. Sempre que se atinge certo nível de complexidade, a vida surge como um
imperativo cósmico, em qualquer parte do universo.
Devemos superar a ideia comum de que o universo é uma coisa meramente física e morta, com pitadinhas de vida
para completar o quadro. Essa é uma compreensão pobre e falsa. O universo parece estar cheio de vida, e é para isso
que ele existe, como o berço acolhedor da vida, especialmente da nossa.
(BOFF, Leonardo. Disponível em: http://www.otempo.com.br/opini%C3%A3o/leonardo-boff/a-vida-como-imperativo-c%C3%B3smico-sem-elauniverso-seria-incompleto-1.1394751. Acesso em: 11/11/2016.)
I. “Assim, não há vida sem que haja a presença do carbono, do hidrogênio, do oxigênio...” (4º§) II. “Temos, portanto, o mesmo código genético de base criando a unidade sagrada da vida, dos micro-organismos até os seres humanos.” (4º§) III. “Mas também é forte porque nada até hoje, nem os vulcões, nem os terremotos, nem os meteoros, nem as dizimações em massa em eras passadas conseguiram extingui-la totalmente.” (2º§)
Os termos e a expressão sublinhados anteriormente exprimem respectivamente a ideia de:
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Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu.
É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio,
sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o
sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe
nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha
da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de
ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o
amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo
aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice.
São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
No entanto – no entanto! – nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande
rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do garoto. Não importa que ela,
hipocritamente, ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha”, e lhe conte que de noite, às vezes, ele
de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas
posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da
amante dos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com
ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar
e o ônus de castigar.
Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz
presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a
menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão,
a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os
encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão
da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café – café! –, mexer no armário da
louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil
vezes se quiser. Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos
e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó, e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação
moderna...
E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você,
sabendo que se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade...
Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se
quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas
enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e
depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó? Era um
simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague...
(QUEIROZ, Rachel. – Elenco de cronistas modernos – 25ª ed. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 – Texto adaptado.)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
A arte de ser avó
Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu.
É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio,
sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o
sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe
nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha
da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de
ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o
amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo
aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice.
São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
No entanto – no entanto! – nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande
rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do garoto. Não importa que ela,
hipocritamente, ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha”, e lhe conte que de noite, às vezes, ele
de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas
posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da
amante dos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com
ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar
e o ônus de castigar.
Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz
presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a
menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão,
a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os
encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão
da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café – café! –, mexer no armário da
louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil
vezes se quiser. Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos
e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó, e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação
moderna...
E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você,
sabendo que se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade...
Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se
quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas
enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e
depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó? Era um
simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague...
(QUEIROZ, Rachel. – Elenco de cronistas modernos – 25ª ed. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 – Texto adaptado.)
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A vida como imperativo cósmico; sem ela, universo seria incompleto
Durante séculos, os cientistas tentaram explicar o universo por meio de leis físicas, expressas por equações
matemáticas. O universo era representado como uma imensa máquina que funcionava sempre de forma estável. A vida
e a consciência não tinham lugar nesse paradigma. Era assunto das religiões. Mas tudo mudou quando, a partir dos anos
20, o astrônomo Hubble provou que o estado natural do universo não é a estabilidade, mas a mudança.
Expansão, auto-organização, complexificação e emergência de ordens cada vez mais sofisticadas são características
do universo. E a vida? Não sabemos como surgiu. O que podemos dizer é que a Terra e o inteiro universo trabalharam
bilhões de anos para criar as condições do nascimento dessa belíssima criança que é a vida. É frágil porque pode
facilmente adoecer e morrer. Mas também é forte porque nada até hoje, nem os vulcões, nem os terremotos, nem os
meteoros, nem as dizimações em massa em eras passadas conseguiram extingui-la totalmente.
Para que surgisse a vida, foi preciso que o universo fosse dotado de três qualidades: ordem (vinda do caos),
complexidade (oriunda de seres simples) e informação (originada pelas conexões de todos com todos). Mas faltava
ainda um dado: a criação dos tijolinhos com os quais se constrói a casa da vida.
São os ácidos e demais elementos que permitem todas as combinações e todas as transformações. Assim, não há
vida sem que haja a presença do carbono, do hidrogênio, do oxigênio... Enfim, dos 118 elementos da tabela periódica.
Temos, portanto, o mesmo código genético de base criando a unidade sagrada da vida, dos micro-organismos até os
seres humanos. Todos somos, de fato, irmãos e irmãs, como afirma o papa Francisco em sua encíclica sobre a ecologia
integral, porque somos formados pelos mesmos 20 aminoácidos e quatro bases nitrogenadas (adenina, timina, guanina
e citosina).
Mas faltava um berço que acolhesse a vida: a atmosfera e a biosfera, com todas as substâncias essenciais para a
vida – o carbono, o oxigênio, o metano, o ácido sulfúrico, o nitrogênio e outros.
Dadas essas pré-condições, eis que, há 3,8 bilhões de anos, aconteceu algo portentoso. Possivelmente do mar ou
de um brejo primitivo onde borbulhavam todos os elementos como uma espécie de sopa, de repente, sob a ação de um
grande raio lampejante vindo do céu, irrompeu a vida.
Misteriosamente, ela está aí já há 3,8 bilhões de anos: no minúsculo planeta Terra, num sistema solar de quinta
grandeza, num canto de nossa galáxia, a 29 mil anos-luz do centro dela, aconteceu o fato mais singular da evolução: a
irrupção da vida. Ela é a mãe originária de todos os viventes, a Eva verdadeira. Dela descendem todos os demais seres
vivos, também nós, humanos, de um subcapítulo do capítulo da vida: nossa vida consciente.
Por fim, ouso dizer com o biólogo, também Prêmio Nobel, Christian de Duve e com o cosmólogo Brian Swimme,
que o universo seria incompleto sem a vida. Sempre que se atinge certo nível de complexidade, a vida surge como um
imperativo cósmico, em qualquer parte do universo.
Devemos superar a ideia comum de que o universo é uma coisa meramente física e morta, com pitadinhas de vida
para completar o quadro. Essa é uma compreensão pobre e falsa. O universo parece estar cheio de vida, e é para isso
que ele existe, como o berço acolhedor da vida, especialmente da nossa.
(BOFF, Leonardo. Disponível em: http://www.otempo.com.br/opini%C3%A3o/leonardo-boff/a-vida-como-imperativo-c%C3%B3smico-sem-elauniverso-seria-incompleto-1.1394751. Acesso em: 11/11/2016.)
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A arte de ser avó
Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu.
É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio,
sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o
sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe
nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha
da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de
ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o
amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo
aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice.
São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
No entanto – no entanto! – nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande
rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do garoto. Não importa que ela,
hipocritamente, ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha”, e lhe conte que de noite, às vezes, ele
de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas
posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da
amante dos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com
ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar
e o ônus de castigar.
Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz
presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a
menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão,
a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os
encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão
da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café – café! –, mexer no armário da
louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil
vezes se quiser. Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos
e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó, e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação
moderna...
E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você,
sabendo que se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade...
Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se
quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas
enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e
depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó? Era um
simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague...
(QUEIROZ, Rachel. – Elenco de cronistas modernos – 25ª ed. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 – Texto adaptado.)
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