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Dois velhinhos
Dalton Trevisan
Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.
Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.
Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
- Um cachorro ergue a perninha no poste.
Mais tarde:
- Uma menina de vestido branco pulando corda.
Ou ainda:
- Agora é um enterro de luxo.
Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.
Cochilou um instante - era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.
TREVISAN, Dalton. Mistérios de Curitiba. 5ªed. Rio de Janeiro: Record, 1996.
Assinale a opção em que a mudança de posição do adjetivo em relação ao substantivo destacado resulta em alteração do sentido da expressão.
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Dois velhinhos
Dalton Trevisan
Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.
Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.
Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
- Um cachorro ergue a perninha no poste.
Mais tarde:
- Uma menina de vestido branco pulando corda.
Ou ainda:
- Agora é um enterro de luxo.
Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.
Cochilou um instante - era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.
TREVISAN, Dalton. Mistérios de Curitiba. 5ªed. Rio de Janeiro: Record, 1996.
Assinale a opção em que o sujeito está materialmente expresso na oração.
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Dois velhinhos
Dalton Trevisan
Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.
Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.
Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
- Um cachorro ergue a perninha no poste.
Mais tarde:
- Uma menina de vestido branco pulando corda.
Ou ainda:
- Agora é um enterro de luxo.
Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.
Cochilou um instante - era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.
TREVISAN, Dalton. Mistérios de Curitiba. 5ªed. Rio de Janeiro: Record, 1996.
Com relação à tipologia textual, é correto afirmar que o texto é predominantemente:
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Dois velhinhos
Dalton Trevisan
Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.
Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.
Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
- Um cachorro ergue a perninha no poste.
Mais tarde:
- Uma menina de vestido branco pulando corda.
Ou ainda:
- Agora é um enterro de luxo.
Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.
Cochilou um instante - era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.
TREVISAN, Dalton. Mistérios de Curitiba. 5ªed. Rio de Janeiro: Record, 1996.
Com base no Texto, analise a sentença abaixo.
“Com inveja, perguntava o que acontecia”.
Tendo em vista as regras de emprego das vírgulas, assinale a opção em que o emprego desse sinal de pontuação se justifica pela mesma regra aplicada no trecho anteriormente citado.
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Os meninos de Porto Mosquito
José Eduardo Agualusa
O Benfica, clube português de que sou (vagamente) torcedor, divulgou neste Natal um breve vídeo sobre uma intervenção da Fundação Benfica numa pequena localidade do arquipélago de Cabo Verde, chamada Porto Mosquito. O futebolista Nuno Gomes foi a Porto Mosquito entregar uma dúzia de pares de chuteiras a meninos da comunidade. Numa primeira cena vemos os meninos a jogarem futebol, descalços, num campo pelado.
Numa segunda cena assistimos à alegria deles enquanto recebem as chuteiras, as calçam, e começam a jogar. Eis que chega, entretanto, um novo grupo de meninos, de pés nus sobre a poeira. Cada um dos primeiros descalça então uma das chuteiras, oferecendo-a aos segundos. Jogam todos eles com um pé calçado e outro descalço. Na cena final, Nuno Gomes pergunta a um dos meninos:
“Por que vocês jogam com um pé descalço?”
O menino olha-o, divertido:
“Não, amigo, nós jogamos com um pé calçado”,
O vídeo recordou-me um episódio antigo. Há muitos anos, durante a guerra civil em Angola, visitei uma fábrica de próteses situada numa pequena cidade, Viana, a poucos quilômetros de Luanda. Encontrei numa das salas um objeto estranho, que não faria má figura numa qualquer mostra de arte moderna. Era uma perna, ou algo com a forma de uma perna, agregando materiais diversos presos por arames e cintas de ferro, numa espécie de assemblage1 cruel e desvairada. "Isto foi uma prótese” - elucidou-me um médico. Meses antes um camponês entrara na fábrica, pelo seu pé, mas mancando um pouco. Perdera Uma perna no tempo colonial. Recebera uma prótese e regressara à aldeia remota onde vivia. Entretanto, vieram a independência e a guerra civil. Passaram-se décadas. O homem quebrara a prótese várias vezes, e, sem ninguém a quem recorrer, consertara-a ele mesmo com aquilo que tinha à mão. A prótese crescera em peso e em deformidades, até se transformar no que ali estava. "Ele vinha à procura de uma prótese nova” - contou-me o médico. - “Explicou-me que com aquela já não conseguia dançar.”
Nunca soube o nome daquele camponês, nunca o vi; mas penso sempre nele, em todas as festas de passagem de ano, enquanto cumpro a tradição de comer as doze uvas, uma por cada mês que virá, formulando doze desejos.
Embora nunca tenha compreendido muito bem qual a relação entre uvas e desejos, esforço-me por levar o desafio a sério. Supondo que os tais doze desejos me fossem realmente concedidos, o que poderia eu pedir? Num primeiro e fugaz instante a minha lista parece um inventário de compras de alguém que acabou de ganhar a loteria; logo a seguir, porém, penso naquele camponês que só queria uma prótese nova para poder voltar a dançar e a tal lista torna-se inquietantemente idêntica ao discurso de uma Miss Universo após receber a coroa: saúde para todos, justiça e a paz universal.
Talvez devêssemos prestar mais atenção à sabedoria das misses. Na obra filosófica de referência desta classe profissional (vamos chamar-lhe assim), obra que todas as misses citam quando lhes perguntam o que estão a ler, ou seja, O Pequeno Príncipe2, de Antoine de Saint-Exupéry, está tudo dito: “o essencial é invisível aos olhos”. Um amigo, mais entendido em misses do que eu, assegurou-me que Saint-Exupéry já era. Agora as misses leem Paulo Coelho e Dan Brown. Mais recentemente, E. L.- James. [...].
Já a minha avó, que nunca foi miss nem leu Saint-Exupéry, dizia que as melhores lições são as mais simples. Numa ocasião, após um debate em Estocolmo, com estudantes de literatura, achei-me no centro de uma outra discussão, muito mais viva e interessante, sobre as virtudes e defeitos da social-democracia nórdica. Irritado com a revolta (justíssima) de um dos estudantes, que visitara vários países de língua portuguesa e se mostrava chocado com a injustiça social em Angola e no Brasil, ironizei com os impostos altíssimos a que todo o mundo está sujeito na Suécia. Pensei, estupidamente, que, criticando os impostos, teria os estudantes do meu lado. Foi o contrário. Olharam-me, escandalizados, como eu olharia um skinhead3. Um deles explicou-me que o novo governo, de centro-direita, propusera, semanas antes, baixar os impostos, e que isso suscitara um vasto movimento de repulsa. “Prefiro ficar sem metade do meu salário”, assegurou-me um dos estudantes, "desde que isso signifique que, na Suécia, toda a gente tenha direito a bons sistemas de saúde e de educação.”
Então, para 2016, vou repetir em conjunto com as misses: saúde para todos, justiça e a paz universal.
(O GLOBO. 4 de janeiro de 2016- Texto adaptado)
1. assemblage: junção; acoplamento
2. Livro infantil, clássico da Literatura Francesa, publicado em 1943. Enunciado completo: "Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.”
3. skinhead: traduzido do inglês, “cabeça raspada”, é uma subcultura originária dos jovens da classe operária no Reino Unido no final dos anos 1960 que, mais tarde, espalhou-se para o mundo.
Leia atentamente os fragmentos abaixo.
“[...] idêntica ao discurso de uma Miss Universo [...]"
“Talvez devêssemos prestar mais atenção à sabedoria das misses”.
A flexão de número dos substantivos a seguir também estão de acordo com as regras gramaticais, EXCETO em:
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Os meninos de Porto Mosquito
José Eduardo Agualusa
O Benfica, clube português de que sou (vagamente) torcedor, divulgou neste Natal um breve vídeo sobre uma intervenção da Fundação Benfica numa pequena localidade do arquipélago de Cabo Verde, chamada Porto Mosquito. O futebolista Nuno Gomes foi a Porto Mosquito entregar uma dúzia de pares de chuteiras a meninos da comunidade. Numa primeira cena vemos os meninos a jogarem futebol, descalços, num campo pelado.
Numa segunda cena assistimos à alegria deles enquanto recebem as chuteiras, as calçam, e começam a jogar. Eis que chega, entretanto, um novo grupo de meninos, de pés nus sobre a poeira. Cada um dos primeiros descalça então uma das chuteiras, oferecendo-a aos segundos. Jogam todos eles com um pé calçado e outro descalço. Na cena final, Nuno Gomes pergunta a um dos meninos:
“Por que vocês jogam com um pé descalço?”
O menino olha-o, divertido:
“Não, amigo, nós jogamos com um pé calçado”,
O vídeo recordou-me um episódio antigo. Há muitos anos, durante a guerra civil em Angola, visitei uma fábrica de próteses situada numa pequena cidade, Viana, a poucos quilômetros de Luanda. Encontrei numa das salas um objeto estranho, que não faria má figura numa qualquer mostra de arte moderna. Era uma perna, ou algo com a forma de uma perna, agregando materiais diversos presos por arames e cintas de ferro, numa espécie de assemblage1 cruel e desvairada. "Isto foi uma prótese” - elucidou-me um médico. Meses antes um camponês entrara na fábrica, pelo seu pé, mas mancando um pouco. Perdera Uma perna no tempo colonial. Recebera uma prótese e regressara à aldeia remota onde vivia. Entretanto, vieram a independência e a guerra civil. Passaram-se décadas. O homem quebrara a prótese várias vezes, e, sem ninguém a quem recorrer, consertara-a ele mesmo com aquilo que tinha à mão. A prótese crescera em peso e em deformidades, até se transformar no que ali estava. "Ele vinha à procura de uma prótese nova” - contou-me o médico. - “Explicou-me que com aquela já não conseguia dançar.”
Nunca soube o nome daquele camponês, nunca o vi; mas penso sempre nele, em todas as festas de passagem de ano, enquanto cumpro a tradição de comer as doze uvas, uma por cada mês que virá, formulando doze desejos.
Embora nunca tenha compreendido muito bem qual a relação entre uvas e desejos, esforço-me por levar o desafio a sério. Supondo que os tais doze desejos me fossem realmente concedidos, o que poderia eu pedir? Num primeiro e fugaz instante a minha lista parece um inventário de compras de alguém que acabou de ganhar a loteria; logo a seguir, porém, penso naquele camponês que só queria uma prótese nova para poder voltar a dançar e a tal lista torna-se inquietantemente idêntica ao discurso de uma Miss Universo após receber a coroa: saúde para todos, justiça e a paz universal.
Talvez devêssemos prestar mais atenção à sabedoria das misses. Na obra filosófica de referência desta classe profissional (vamos chamar-lhe assim), obra que todas as misses citam quando lhes perguntam o que estão a ler, ou seja, O Pequeno Príncipe2, de Antoine de Saint-Exupéry, está tudo dito: “o essencial é invisível aos olhos”. Um amigo, mais entendido em misses do que eu, assegurou-me que Saint-Exupéry já era. Agora as misses leem Paulo Coelho e Dan Brown. Mais recentemente, E. L.- James. [...].
Já a minha avó, que nunca foi miss nem leu Saint-Exupéry, dizia que as melhores lições são as mais simples. Numa ocasião, após um debate em Estocolmo, com estudantes de literatura, achei-me no centro de uma outra discussão, muito mais viva e interessante, sobre as virtudes e defeitos da social-democracia nórdica. Irritado com a revolta (justíssima) de um dos estudantes, que visitara vários países de língua portuguesa e se mostrava chocado com a injustiça social em Angola e no Brasil, ironizei com os impostos altíssimos a que todo o mundo está sujeito na Suécia. Pensei, estupidamente, que, criticando os impostos, teria os estudantes do meu lado. Foi o contrário. Olharam-me, escandalizados, como eu olharia um skinhead3. Um deles explicou-me que o novo governo, de centro-direita, propusera, semanas antes, baixar os impostos, e que isso suscitara um vasto movimento de repulsa. “Prefiro ficar sem metade do meu salário”, assegurou-me um dos estudantes, "desde que isso signifique que, na Suécia, toda a gente tenha direito a bons sistemas de saúde e de educação.”
Então, para 2016, vou repetir em conjunto com as misses: saúde para todos, justiça e a paz universal.
(O GLOBO. 4 de janeiro de 2016- Texto adaptado)
1. assemblage: junção; acoplamento
2. Livro infantil, clássico da Literatura Francesa, publicado em 1943. Enunciado completo: "Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.”
3. skinhead: traduzido do inglês, “cabeça raspada”, é uma subcultura originária dos jovens da classe operária no Reino Unido no final dos anos 1960 que, mais tarde, espalhou-se para o mundo.
No trecho "Não, amigo, nós jogamos com um pé calçado”, observa-se, particularmente, a função emotiva na mensagem do menino, tendo em vista que ele emite uma opinião subjetiva, pessoal, da própria realidade em que vive. Assinale a opção cujo trecho também se destaca pela função emotiva na linguagem do locutor.
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Os meninos de Porto Mosquito
José Eduardo Agualusa
O Benfica, clube português de que sou (vagamente) torcedor, divulgou neste Natal um breve vídeo sobre uma intervenção da Fundação Benfica numa pequena localidade do arquipélago de Cabo Verde, chamada Porto Mosquito. O futebolista Nuno Gomes foi a Porto Mosquito entregar uma dúzia de pares de chuteiras a meninos da comunidade. Numa primeira cena vemos os meninos a jogarem futebol, descalços, num campo pelado.
Numa segunda cena assistimos à alegria deles enquanto recebem as chuteiras, as calçam, e começam a jogar. Eis que chega, entretanto, um novo grupo de meninos, de pés nus sobre a poeira. Cada um dos primeiros descalça então uma das chuteiras, oferecendo-a aos segundos. Jogam todos eles com um pé calçado e outro descalço. Na cena final, Nuno Gomes pergunta a um dos meninos:
“Por que vocês jogam com um pé descalço?”
O menino olha-o, divertido:
“Não, amigo, nós jogamos com um pé calçado”,
O vídeo recordou-me um episódio antigo. Há muitos anos, durante a guerra civil em Angola, visitei uma fábrica de próteses situada numa pequena cidade, Viana, a poucos quilômetros de Luanda. Encontrei numa das salas um objeto estranho, que não faria má figura numa qualquer mostra de arte moderna. Era uma perna, ou algo com a forma de uma perna, agregando materiais diversos presos por arames e cintas de ferro, numa espécie de assemblage1 cruel e desvairada. "Isto foi uma prótese” - elucidou-me um médico. Meses antes um camponês entrara na fábrica, pelo seu pé, mas mancando um pouco. Perdera Uma perna no tempo colonial. Recebera uma prótese e regressara à aldeia remota onde vivia. Entretanto, vieram a independência e a guerra civil. Passaram-se décadas. O homem quebrara a prótese várias vezes, e, sem ninguém a quem recorrer, consertara-a ele mesmo com aquilo que tinha à mão. A prótese crescera em peso e em deformidades, até se transformar no que ali estava. "Ele vinha à procura de uma prótese nova” - contou-me o médico. - “Explicou-me que com aquela já não conseguia dançar.”
Nunca soube o nome daquele camponês, nunca o vi; mas penso sempre nele, em todas as festas de passagem de ano, enquanto cumpro a tradição de comer as doze uvas, uma por cada mês que virá, formulando doze desejos.
Embora nunca tenha compreendido muito bem qual a relação entre uvas e desejos, esforço-me por levar o desafio a sério. Supondo que os tais doze desejos me fossem realmente concedidos, o que poderia eu pedir? Num primeiro e fugaz instante a minha lista parece um inventário de compras de alguém que acabou de ganhar a loteria; logo a seguir, porém, penso naquele camponês que só queria uma prótese nova para poder voltar a dançar e a tal lista torna-se inquietantemente idêntica ao discurso de uma Miss Universo após receber a coroa: saúde para todos, justiça e a paz universal.
Talvez devêssemos prestar mais atenção à sabedoria das misses. Na obra filosófica de referência desta classe profissional (vamos chamar-lhe assim), obra que todas as misses citam quando lhes perguntam o que estão a ler, ou seja, O Pequeno Príncipe2, de Antoine de Saint-Exupéry, está tudo dito: “o essencial é invisível aos olhos”. Um amigo, mais entendido em misses do que eu, assegurou-me que Saint-Exupéry já era. Agora as misses leem Paulo Coelho e Dan Brown. Mais recentemente, E. L.- James. [...].
Já a minha avó, que nunca foi miss nem leu Saint-Exupéry, dizia que as melhores lições são as mais simples. Numa ocasião, após um debate em Estocolmo, com estudantes de literatura, achei-me no centro de uma outra discussão, muito mais viva e interessante, sobre as virtudes e defeitos da social-democracia nórdica. Irritado com a revolta (justíssima) de um dos estudantes, que visitara vários países de língua portuguesa e se mostrava chocado com a injustiça social em Angola e no Brasil, ironizei com os impostos altíssimos a que todo o mundo está sujeito na Suécia. Pensei, estupidamente, que, criticando os impostos, teria os estudantes do meu lado. Foi o contrário. Olharam-me, escandalizados, como eu olharia um skinhead3. Um deles explicou-me que o novo governo, de centro-direita, propusera, semanas antes, baixar os impostos, e que isso suscitara um vasto movimento de repulsa. “Prefiro ficar sem metade do meu salário”, assegurou-me um dos estudantes, "desde que isso signifique que, na Suécia, toda a gente tenha direito a bons sistemas de saúde e de educação.”
Então, para 2016, vou repetir em conjunto com as misses: saúde para todos, justiça e a paz universal.
(O GLOBO. 4 de janeiro de 2016- Texto adaptado)
1. assemblage: junção; acoplamento
2. Livro infantil, clássico da Literatura Francesa, publicado em 1943. Enunciado completo: "Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.”
3. skinhead: traduzido do inglês, “cabeça raspada”, é uma subcultura originária dos jovens da classe operária no Reino Unido no final dos anos 1960 que, mais tarde, espalhou-se para o mundo.
“Agora as misses leem Paulo Coelho”. Assim como no trecho citado, em qual opção está destacada uma palavra que perdeu o acento gráfico devido às novas regras de acentuação do Acordo Ortográfico vigente?
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Os meninos de Porto Mosquito
José Eduardo Agualusa
O Benfica, clube português de que sou (vagamente) torcedor, divulgou neste Natal um breve vídeo sobre uma intervenção da Fundação Benfica numa pequena localidade do arquipélago de Cabo Verde, chamada Porto Mosquito. O futebolista Nuno Gomes foi a Porto Mosquito entregar uma dúzia de pares de chuteiras a meninos da comunidade. Numa primeira cena vemos os meninos a jogarem futebol, descalços, num campo pelado.
Numa segunda cena assistimos à alegria deles enquanto recebem as chuteiras, as calçam, e começam a jogar. Eis que chega, entretanto, um novo grupo de meninos, de pés nus sobre a poeira. Cada um dos primeiros descalça então uma das chuteiras, oferecendo-a aos segundos. Jogam todos eles com um pé calçado e outro descalço. Na cena final, Nuno Gomes pergunta a um dos meninos:
“Por que vocês jogam com um pé descalço?”
O menino olha-o, divertido:
“Não, amigo, nós jogamos com um pé calçado”,
O vídeo recordou-me um episódio antigo. Há muitos anos, durante a guerra civil em Angola, visitei uma fábrica de próteses situada numa pequena cidade, Viana, a poucos quilômetros de Luanda. Encontrei numa das salas um objeto estranho, que não faria má figura numa qualquer mostra de arte moderna. Era uma perna, ou algo com a forma de uma perna, agregando materiais diversos presos por arames e cintas de ferro, numa espécie de assemblage1 cruel e desvairada. "Isto foi uma prótese” - elucidou-me um médico. Meses antes um camponês entrara na fábrica, pelo seu pé, mas mancando um pouco. Perdera Uma perna no tempo colonial. Recebera uma prótese e regressara à aldeia remota onde vivia. Entretanto, vieram a independência e a guerra civil. Passaram-se décadas. O homem quebrara a prótese várias vezes, e, sem ninguém a quem recorrer, consertara-a ele mesmo com aquilo que tinha à mão. A prótese crescera em peso e em deformidades, até se transformar no que ali estava. "Ele vinha à procura de uma prótese nova” - contou-me o médico. - “Explicou-me que com aquela já não conseguia dançar.”
Nunca soube o nome daquele camponês, nunca o vi; mas penso sempre nele, em todas as festas de passagem de ano, enquanto cumpro a tradição de comer as doze uvas, uma por cada mês que virá, formulando doze desejos.
Embora nunca tenha compreendido muito bem qual a relação entre uvas e desejos, esforço-me por levar o desafio a sério. Supondo que os tais doze desejos me fossem realmente concedidos, o que poderia eu pedir? Num primeiro e fugaz instante a minha lista parece um inventário de compras de alguém que acabou de ganhar a loteria; logo a seguir, porém, penso naquele camponês que só queria uma prótese nova para poder voltar a dançar e a tal lista torna-se inquietantemente idêntica ao discurso de uma Miss Universo após receber a coroa: saúde para todos, justiça e a paz universal.
Talvez devêssemos prestar mais atenção à sabedoria das misses. Na obra filosófica de referência desta classe profissional (vamos chamar-lhe assim), obra que todas as misses citam quando lhes perguntam o que estão a ler, ou seja, O Pequeno Príncipe2, de Antoine de Saint-Exupéry, está tudo dito: “o essencial é invisível aos olhos”. Um amigo, mais entendido em misses do que eu, assegurou-me que Saint-Exupéry já era. Agora as misses leem Paulo Coelho e Dan Brown. Mais recentemente, E. L.- James. [...].
Já a minha avó, que nunca foi miss nem leu Saint-Exupéry, dizia que as melhores lições são as mais simples. Numa ocasião, após um debate em Estocolmo, com estudantes de literatura, achei-me no centro de uma outra discussão, muito mais viva e interessante, sobre as virtudes e defeitos da social-democracia nórdica. Irritado com a revolta (justíssima) de um dos estudantes, que visitara vários países de língua portuguesa e se mostrava chocado com a injustiça social em Angola e no Brasil, ironizei com os impostos altíssimos a que todo o mundo está sujeito na Suécia. Pensei, estupidamente, que, criticando os impostos, teria os estudantes do meu lado. Foi o contrário. Olharam-me, escandalizados, como eu olharia um skinhead3. Um deles explicou-me que o novo governo, de centro-direita, propusera, semanas antes, baixar os impostos, e que isso suscitara um vasto movimento de repulsa. “Prefiro ficar sem metade do meu salário”, assegurou-me um dos estudantes, "desde que isso signifique que, na Suécia, toda a gente tenha direito a bons sistemas de saúde e de educação.”
Então, para 2016, vou repetir em conjunto com as misses: saúde para todos, justiça e a paz universal.
(O GLOBO. 4 de janeiro de 2016- Texto adaptado)
1. assemblage: junção; acoplamento
2. Livro infantil, clássico da Literatura Francesa, publicado em 1943. Enunciado completo: "Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.”
3. skinhead: traduzido do inglês, “cabeça raspada”, é uma subcultura originária dos jovens da classe operária no Reino Unido no final dos anos 1960 que, mais tarde, espalhou-se para o mundo.
Assinale a opção que substitui o termo destacado em “O Benfica, clube português de que sou (vagamente) torcedor", sem lhe alterar o sentido.
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Os meninos de Porto Mosquito
José Eduardo Agualusa
O Benfica, clube português de que sou (vagamente) torcedor, divulgou neste Natal um breve vídeo sobre uma intervenção da Fundação Benfica numa pequena localidade do arquipélago de Cabo Verde, chamada Porto Mosquito. O futebolista Nuno Gomes foi a Porto Mosquito entregar uma dúzia de pares de chuteiras a meninos da comunidade. Numa primeira cena vemos os meninos a jogarem futebol, descalços, num campo pelado.
Numa segunda cena assistimos à alegria deles enquanto recebem as chuteiras, as calçam, e começam a jogar. Eis que chega, entretanto, um novo grupo de meninos, de pés nus sobre a poeira. Cada um dos primeiros descalça então uma das chuteiras, oferecendo-a aos segundos. Jogam todos eles com um pé calçado e outro descalço. Na cena final, Nuno Gomes pergunta a um dos meninos:
“Por que vocês jogam com um pé descalço?”
O menino olha-o, divertido:
“Não, amigo, nós jogamos com um pé calçado”,
O vídeo recordou-me um episódio antigo. Há muitos anos, durante a guerra civil em Angola, visitei uma fábrica de próteses situada numa pequena cidade, Viana, a poucos quilômetros de Luanda. Encontrei numa das salas um objeto estranho, que não faria má figura numa qualquer mostra de arte moderna. Era uma perna, ou algo com a forma de uma perna, agregando materiais diversos presos por arames e cintas de ferro, numa espécie de assemblage1 cruel e desvairada. "Isto foi uma prótese” - elucidou-me um médico. Meses antes um camponês entrara na fábrica, pelo seu pé, mas mancando um pouco. Perdera Uma perna no tempo colonial. Recebera uma prótese e regressara à aldeia remota onde vivia. Entretanto, vieram a independência e a guerra civil. Passaram-se décadas. O homem quebrara a prótese várias vezes, e, sem ninguém a quem recorrer, consertara-a ele mesmo com aquilo que tinha à mão. A prótese crescera em peso e em deformidades, até se transformar no que ali estava. "Ele vinha à procura de uma prótese nova” - contou-me o médico. - “Explicou-me que com aquela já não conseguia dançar.”
Nunca soube o nome daquele camponês, nunca o vi; mas penso sempre nele, em todas as festas de passagem de ano, enquanto cumpro a tradição de comer as doze uvas, uma por cada mês que virá, formulando doze desejos.
Embora nunca tenha compreendido muito bem qual a relação entre uvas e desejos, esforço-me por levar o desafio a sério. Supondo que os tais doze desejos me fossem realmente concedidos, o que poderia eu pedir? Num primeiro e fugaz instante a minha lista parece um inventário de compras de alguém que acabou de ganhar a loteria; logo a seguir, porém, penso naquele camponês que só queria uma prótese nova para poder voltar a dançar e a tal lista torna-se inquietantemente idêntica ao discurso de uma Miss Universo após receber a coroa: saúde para todos, justiça e a paz universal.
Talvez devêssemos prestar mais atenção à sabedoria das misses. Na obra filosófica de referência desta classe profissional (vamos chamar-lhe assim), obra que todas as misses citam quando lhes perguntam o que estão a ler, ou seja, O Pequeno Príncipe2, de Antoine de Saint-Exupéry, está tudo dito: “o essencial é invisível aos olhos”. Um amigo, mais entendido em misses do que eu, assegurou-me que Saint-Exupéry já era. Agora as misses leem Paulo Coelho e Dan Brown. Mais recentemente, E. L.- James. [...].
Já a minha avó, que nunca foi miss nem leu Saint-Exupéry, dizia que as melhores lições são as mais simples. Numa ocasião, após um debate em Estocolmo, com estudantes de literatura, achei-me no centro de uma outra discussão, muito mais viva e interessante, sobre as virtudes e defeitos da social-democracia nórdica. Irritado com a revolta (justíssima) de um dos estudantes, que visitara vários países de língua portuguesa e se mostrava chocado com a injustiça social em Angola e no Brasil, ironizei com os impostos altíssimos a que todo o mundo está sujeito na Suécia. Pensei, estupidamente, que, criticando os impostos, teria os estudantes do meu lado. Foi o contrário. Olharam-me, escandalizados, como eu olharia um skinhead3. Um deles explicou-me que o novo governo, de centro-direita, propusera, semanas antes, baixar os impostos, e que isso suscitara um vasto movimento de repulsa. “Prefiro ficar sem metade do meu salário”, assegurou-me um dos estudantes, "desde que isso signifique que, na Suécia, toda a gente tenha direito a bons sistemas de saúde e de educação.”
Então, para 2016, vou repetir em conjunto com as misses: saúde para todos, justiça e a paz universal.
(O GLOBO. 4 de janeiro de 2016- Texto adaptado)
1. assemblage: junção; acoplamento
2. Livro infantil, clássico da Literatura Francesa, publicado em 1943. Enunciado completo: "Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.”
3. skinhead: traduzido do inglês, “cabeça raspada”, é uma subcultura originária dos jovens da classe operária no Reino Unido no final dos anos 1960 que, mais tarde, espalhou-se para o mundo.
Assinale a opção em que o autor do texto fez uso da metonimia.
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Os meninos de Porto Mosquito
José Eduardo Agualusa
O Benfica, clube português de que sou (vagamente) torcedor, divulgou neste Natal um breve vídeo sobre uma intervenção da Fundação Benfica numa pequena localidade do arquipélago de Cabo Verde, chamada Porto Mosquito. O futebolista Nuno Gomes foi a Porto Mosquito entregar uma dúzia de pares de chuteiras a meninos da comunidade. Numa primeira cena vemos os meninos a jogarem futebol, descalços, num campo pelado.
Numa segunda cena assistimos à alegria deles enquanto recebem as chuteiras, as calçam, e começam a jogar. Eis que chega, entretanto, um novo grupo de meninos, de pés nus sobre a poeira. Cada um dos primeiros descalça então uma das chuteiras, oferecendo-a aos segundos. Jogam todos eles com um pé calçado e outro descalço. Na cena final, Nuno Gomes pergunta a um dos meninos:
“Por que vocês jogam com um pé descalço?”
O menino olha-o, divertido:
“Não, amigo, nós jogamos com um pé calçado”,
O vídeo recordou-me um episódio antigo. Há muitos anos, durante a guerra civil em Angola, visitei uma fábrica de próteses situada numa pequena cidade, Viana, a poucos quilômetros de Luanda. Encontrei numa das salas um objeto estranho, que não faria má figura numa qualquer mostra de arte moderna. Era uma perna, ou algo com a forma de uma perna, agregando materiais diversos presos por arames e cintas de ferro, numa espécie de assemblage1 cruel e desvairada. "Isto foi uma prótese” - elucidou-me um médico. Meses antes um camponês entrara na fábrica, pelo seu pé, mas mancando um pouco. Perdera Uma perna no tempo colonial. Recebera uma prótese e regressara à aldeia remota onde vivia. Entretanto, vieram a independência e a guerra civil. Passaram-se décadas. O homem quebrara a prótese várias vezes, e, sem ninguém a quem recorrer, consertara-a ele mesmo com aquilo que tinha à mão. A prótese crescera em peso e em deformidades, até se transformar no que ali estava. "Ele vinha à procura de uma prótese nova” - contou-me o médico. - “Explicou-me que com aquela já não conseguia dançar.”
Nunca soube o nome daquele camponês, nunca o vi; mas penso sempre nele, em todas as festas de passagem de ano, enquanto cumpro a tradição de comer as doze uvas, uma por cada mês que virá, formulando doze desejos.
Embora nunca tenha compreendido muito bem qual a relação entre uvas e desejos, esforço-me por levar o desafio a sério. Supondo que os tais doze desejos me fossem realmente concedidos, o que poderia eu pedir? Num primeiro e fugaz instante a minha lista parece um inventário de compras de alguém que acabou de ganhar a loteria; logo a seguir, porém, penso naquele camponês que só queria uma prótese nova para poder voltar a dançar e a tal lista torna-se inquietantemente idêntica ao discurso de uma Miss Universo após receber a coroa: saúde para todos, justiça e a paz universal.
Talvez devêssemos prestar mais atenção à sabedoria das misses. Na obra filosófica de referência desta classe profissional (vamos chamar-lhe assim), obra que todas as misses citam quando lhes perguntam o que estão a ler, ou seja, O Pequeno Príncipe2, de Antoine de Saint-Exupéry, está tudo dito: “o essencial é invisível aos olhos”. Um amigo, mais entendido em misses do que eu, assegurou-me que Saint-Exupéry já era. Agora as misses leem Paulo Coelho e Dan Brown. Mais recentemente, E. L.- James. [...].
Já a minha avó, que nunca foi miss nem leu Saint-Exupéry, dizia que as melhores lições são as mais simples. Numa ocasião, após um debate em Estocolmo, com estudantes de literatura, achei-me no centro de uma outra discussão, muito mais viva e interessante, sobre as virtudes e defeitos da social-democracia nórdica. Irritado com a revolta (justíssima) de um dos estudantes, que visitara vários países de língua portuguesa e se mostrava chocado com a injustiça social em Angola e no Brasil, ironizei com os impostos altíssimos a que todo o mundo está sujeito na Suécia. Pensei, estupidamente, que, criticando os impostos, teria os estudantes do meu lado. Foi o contrário. Olharam-me, escandalizados, como eu olharia um skinhead3. Um deles explicou-me que o novo governo, de centro-direita, propusera, semanas antes, baixar os impostos, e que isso suscitara um vasto movimento de repulsa. “Prefiro ficar sem metade do meu salário”, assegurou-me um dos estudantes, "desde que isso signifique que, na Suécia, toda a gente tenha direito a bons sistemas de saúde e de educação.”
Então, para 2016, vou repetir em conjunto com as misses: saúde para todos, justiça e a paz universal.
(O GLOBO. 4 de janeiro de 2016- Texto adaptado)
1. assemblage: junção; acoplamento
2. Livro infantil, clássico da Literatura Francesa, publicado em 1943. Enunciado completo: "Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.”
3. skinhead: traduzido do inglês, “cabeça raspada”, é uma subcultura originária dos jovens da classe operária no Reino Unido no final dos anos 1960 que, mais tarde, espalhou-se para o mundo.
Assinale a opção em que os termos destacados apresentam-se no sentido figurado.
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