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4053786 Ano: 2026
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESGRANRIO
Orgão: Fundação Osório
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Texto II

Kehinde


A borboleta que esbarra em espinhos rasga as próprias asas.

Provérbio africano


Eu nasci em Savalu, reino de Daomé, África, no ano de um mil oitocentos e dez. Portanto, tinha seis anos, quase sete, quando esta história começou. O que aconteceu antes disso não tem importância, pois a vida corria paralela ao destino. O meu nome é Kehinde porque sou uma ibêji e nasci por último. Minha irmã nasceu primeiro e por isso se chamava Taiwo. Antes tinha nascido o meu irmão Kokumo, e o nome dele significava “não morrerás mais, os deuses te segurarão”. O Kokumo era um abiku, como minha mãe. O nome dela, Dúróoríìke, era o mesmo que “fica, tu serás mimada”. A minha avó Dúrójaiyé tinha esse nome porque também era uma abiku, e o nome dela pedia “fica para gozar a vida, nós imploramos”. Assim são os abikus, espíritos amigos há mais tempo do que qualquer um de nós pode contar, e que, antes de nascer, combinam entre si que logo voltarão a morrer para se encontrarem novamente no mundo dos espíritos. Alguns abikus tentam nascer na mesma família para permanecerem juntos, embora não se lembrem disto quando estão aqui, no ayê, na terra, a não ser quando sabem que são abikus. Eles têm nomes especiais que tentam segurá-los vivos por mais tempo, o que às vezes funciona. Mas ninguém foge ao destino, a não ser que Ele queira, porque, quando Ele quer, até água fria é remédio.

GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2020. p. 19.



Vocabulário

Ibêji: os gêmeos entre os povos iorubá.

Abiku: “criança nascida para morrer”.

No texto literário, nenhuma escolha linguística ocorre impunemente, já que uma obra não se esgota em sua temática, carecendo também da forma como categoria fundante da literariedade.

Nesse sentido, num ensino de literatura consequente, mostra-se relevante, no Texto II, a reflexão sobre o uso do pronome pessoal Ele com maiúscula, a fim de levar o estudante-leitor a

 

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4053785 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: Fundação Osório
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Texto II

Kehinde


A borboleta que esbarra em espinhos rasga as próprias asas.

Provérbio africano


Eu nasci em Savalu, reino de Daomé, África, no ano de um mil oitocentos e dez. Portanto, tinha seis anos, quase sete, quando esta história começou. O que aconteceu antes disso não tem importância, pois a vida corria paralela ao destino. O meu nome é Kehinde porque sou uma ibêji e nasci por último. Minha irmã nasceu primeiro e por isso se chamava Taiwo. Antes tinha nascido o meu irmão Kokumo, e o nome dele significava “não morrerás mais, os deuses te segurarão”. O Kokumo era um abiku, como minha mãe. O nome dela, Dúróoríìke, era o mesmo que “fica, tu serás mimada”. A minha avó Dúrójaiyé tinha esse nome porque também era uma abiku, e o nome dela pedia “fica para gozar a vida, nós imploramos”. Assim são os abikus, espíritos amigos há mais tempo do que qualquer um de nós pode contar, e que, antes de nascer, combinam entre si que logo voltarão a morrer para se encontrarem novamente no mundo dos espíritos. Alguns abikus tentam nascer na mesma família para permanecerem juntos, embora não se lembrem disto quando estão aqui, no ayê, na terra, a não ser quando sabem que são abikus. Eles têm nomes especiais que tentam segurá-los vivos por mais tempo, o que às vezes funciona. Mas ninguém foge ao destino, a não ser que Ele queira, porque, quando Ele quer, até água fria é remédio.

GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2020. p. 19.



Vocabulário

Ibêji: os gêmeos entre os povos iorubá.

Abiku: “criança nascida para morrer”.

O Texto II é o parágrafo de abertura do romance histórico Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves.

Considerando-se a leitura literária como um processo dialógico e a sala de aula como uma comunidade de leitores, o professor poderia, nessa passagem, salientar, na mediação da obra em uma turma de 1a série do ensino médio, o seguinte aspecto:

 

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4053784 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: Fundação Osório
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Texto I

Ensinando a transgredir

Durante algumas semanas, antes de o Departamento de Inglês do Oberlin College decidir me efetivar como professora, fui assombrada pelo sonho de fugir — de desaparecer —, até mesmo de morrer. O sonho não era uma reação ao medo de eu não conseguir a estabilidade no cargo. Era uma reação à realidade de que eu ia conseguir a estabilidade. Eu tinha medo de ficar presa na academia para sempre.

Em vez de ficar eufórica quando fui efetivada, caí numa depressão profunda que me pôs a vida em risco. Visto que todos ao meu redor achavam que eu devia me sentir aliviada, contente, orgulhosa, senti- -me “culpada” por meus “verdadeiros” sentimentos e não consegui partilhá-los com ninguém. O ciclo de aulas me levou à ensolarada Califórnia e ao mundo new age da casa da minha irmã, em Laguna Beach, onde pude esfriar a cabeça por um mês. Quando partilhei meus sentimentos com minha irmã (ela é terapeuta), ela me garantiu que eles não eram nem um pouco impróprios. Disse: “Você nunca quis ser professora. Desde quando éramos pequenas, tudo o que você sempre quis foi escrever.” Ela tinha razão. Todos sempre partiram do pressuposto de que eu seria professora.

[...]

Mas o sonho de me tornar escritora sempre esteve presente dentro de mim. Desde a infância, eu acreditava que iria lecionar e escrever. O escrever seria o trabalho sério e o lecionar, o “emprego” não tão sério de que eu precisava para ganhar a vida. O escrever, conforme pensava então, era uma questão de anseio particular e glória pessoal, enquanto o lecionar era um serviço, uma forma de retribuir à comunidade. Para os negros, o lecionar — o educar — era fundamentalmente político, pois tinha raízes na luta antirracista. Com efeito, foi nas escolas de ensino fundamental, frequentadas somente por negros, que eu tive a experiência do aprendizado como revolução.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017. p. 9-10. Adaptado.

Os gêneros textuais devem ser avaliados mais por suas funções sociodiscursivas do que por seus traços linguísticos estruturantes.

O Texto I, introdução do livro da escritora bell hooks (pseudônimo estilizado com iniciais minúsculas), define- -se também como um relato pessoal, apresentando uma hibridização entre gêneros textuais, uma vez que

 

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4053783 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: Fundação Osório
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Texto I

Ensinando a transgredir

Durante algumas semanas, antes de o Departamento de Inglês do Oberlin College decidir me efetivar como professora, fui assombrada pelo sonho de fugir — de desaparecer —, até mesmo de morrer. O sonho não era uma reação ao medo de eu não conseguir a estabilidade no cargo. Era uma reação à realidade de que eu ia conseguir a estabilidade. Eu tinha medo de ficar presa na academia para sempre.

Em vez de ficar eufórica quando fui efetivada, caí numa depressão profunda que me pôs a vida em risco. Visto que todos ao meu redor achavam que eu devia me sentir aliviada, contente, orgulhosa, senti- -me “culpada” por meus “verdadeiros” sentimentos e não consegui partilhá-los com ninguém. O ciclo de aulas me levou à ensolarada Califórnia e ao mundo new age da casa da minha irmã, em Laguna Beach, onde pude esfriar a cabeça por um mês. Quando partilhei meus sentimentos com minha irmã (ela é terapeuta), ela me garantiu que eles não eram nem um pouco impróprios. Disse: “Você nunca quis ser professora. Desde quando éramos pequenas, tudo o que você sempre quis foi escrever.” Ela tinha razão. Todos sempre partiram do pressuposto de que eu seria professora.

[...]

Mas o sonho de me tornar escritora sempre esteve presente dentro de mim. Desde a infância, eu acreditava que iria lecionar e escrever. O escrever seria o trabalho sério e o lecionar, o “emprego” não tão sério de que eu precisava para ganhar a vida. O escrever, conforme pensava então, era uma questão de anseio particular e glória pessoal, enquanto o lecionar era um serviço, uma forma de retribuir à comunidade. Para os negros, o lecionar — o educar — era fundamentalmente político, pois tinha raízes na luta antirracista. Com efeito, foi nas escolas de ensino fundamental, frequentadas somente por negros, que eu tive a experiência do aprendizado como revolução.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017. p. 9-10. Adaptado.

Os sinais de pontuação são expedientes gráficos que auxiliam não só na composição do tecido coesivo do texto, mas também na construção da intencionalidade do sujeito discursivo.

No Texto I, em “Quando partilhei meus sentimentos com minha irmã (ela é terapeuta), ela me garantiu que eles não eram nem um pouco impróprios.” (parágrafo 2), a opção pelos parênteses isolando a oração aponta para um(a)

 

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4053782 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: Fundação Osório
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Texto I

Ensinando a transgredir

Durante algumas semanas, antes de o Departamento de Inglês do Oberlin College decidir me efetivar como professora, fui assombrada pelo sonho de fugir — de desaparecer —, até mesmo de morrer. O sonho não era uma reação ao medo de eu não conseguir a estabilidade no cargo. Era uma reação à realidade de que eu ia conseguir a estabilidade. Eu tinha medo de ficar presa na academia para sempre.

Em vez de ficar eufórica quando fui efetivada, caí numa depressão profunda que me pôs a vida em risco. Visto que todos ao meu redor achavam que eu devia me sentir aliviada, contente, orgulhosa, senti- -me “culpada” por meus “verdadeiros” sentimentos e não consegui partilhá-los com ninguém. O ciclo de aulas me levou à ensolarada Califórnia e ao mundo new age da casa da minha irmã, em Laguna Beach, onde pude esfriar a cabeça por um mês. Quando partilhei meus sentimentos com minha irmã (ela é terapeuta), ela me garantiu que eles não eram nem um pouco impróprios. Disse: “Você nunca quis ser professora. Desde quando éramos pequenas, tudo o que você sempre quis foi escrever.” Ela tinha razão. Todos sempre partiram do pressuposto de que eu seria professora.

[...]

Mas o sonho de me tornar escritora sempre esteve presente dentro de mim. Desde a infância, eu acreditava que iria lecionar e escrever. O escrever seria o trabalho sério e o lecionar, o “emprego” não tão sério de que eu precisava para ganhar a vida. O escrever, conforme pensava então, era uma questão de anseio particular e glória pessoal, enquanto o lecionar era um serviço, uma forma de retribuir à comunidade. Para os negros, o lecionar — o educar — era fundamentalmente político, pois tinha raízes na luta antirracista. Com efeito, foi nas escolas de ensino fundamental, frequentadas somente por negros, que eu tive a experiência do aprendizado como revolução.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017. p. 9-10. Adaptado.

No Texto I, o uso das palavras culpada e verdadeiros, em oposição às palavras aliviada, contente, orgulhosa (parágrafo 2), materializa a ideia de que a autora
 

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A Base Nacional Comum Curricular afirma, de maneira explícita, o seu compromisso com a educação integral.

[...] a Educação Básica deve visar à formação e ao desenvolvimento humano global, o que implica compreender a complexidade e a não linearidade desse desenvolvimento, rompendo com visões reducionistas que privilegiam ou a dimensão intelectual (cognitiva) ou a dimensão afetiva. Significa, ainda, assumir uma visão plural, singular e integral da criança, do adolescente, do jovem e do adulto – considerando-os como sujeitos de aprendizagem – e promover uma educação voltada ao seu acolhimento, reconhecimento e desenvolvimento pleno, nas suas singularidades e diversidades. Além disso, a escola, como espaço de aprendizagem e de democracia inclusiva, deve se fortalecer na prática coercitiva de não discriminação, não preconceito e respeito às diferenças e diversidades.”

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a base. Brasília, DF: MEC, 2018. Disponível em: https://www.gov.br/ mcti/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes-mcti/plano- -nacional-de-tecnologia-assistiva/pnta_-documento_web. pdf. Acesso em: 19 jan. 2026. Adaptado.

Nesse contexto, na Educação Básica, na perspectiva de uma prática pedagógica comprometida com a Educação Inclusiva, o processo avaliativo do estudante com necessidades educacionais específicas precisa sempre garantir a

 

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Em seu artigo 27, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Lei nº 13.146/2015, considera que a educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo da vida.

Nesse contexto, essa lei visa garantir que os estudantes com deficiência

 

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Considere o trecho a seguir.

[...] a educação continua como um dos mais graves dilemas brasileiros. O Estado, corriqueiramente não age a contento para corrigir as distorções no acesso à educação, bem como permite a existência de uma estrutura de ensino muito desigual. Com isso, as dificuldades de acesso e permanência dos estudantes na rede de ensino se perpetuam historicamente.

MOURA, Alessandro de. Educação, Estado e classes sociais no Brasil: a sociologia da educação de Florestan Fernandes. In: Revista Fim do Mundo, nº 12, jul/dez, 2024.

Na perspectiva do autor, para a educação pública brasileira ser verdadeiramente um sistema inclusivo e democrático, é urgente garantir condições de

 

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A educação profissional e tecnológica é a modalidade educacional que se integra aos diferentes níveis de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia.

Quanto à educação profissional técnica de nível médio, oferecida na forma articulada, ela poderá ser desenvolvida de modo concomitante para quem

 

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Na Lei nº 8.069/1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana. Todavia, os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) 2022 explicitam que

A taxa de analfabetismo para as pessoas com deficiência foi de 19,5%, enquanto para as pessoas sem deficiência foi de 4,1%. A taxa de analfabetismo deste grupo também reflete as desigualdades regionais, sendo a mais alta no Nordeste (31,2%) e a mais baixa no Sul (12,7%). [...] Enquanto apenas 25,6% das pessoas com deficiência tinham concluído pelo menos o Ensino Médio, mais da metade das pessoas sem deficiência (57,3%) tinham esse nível de instrução. Já a proporção de pessoas com nível superior foi de 7,0% para as pessoas com deficiência e 20,9% para os sem deficiência.

Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/ trabalho/17270-pnad-continua.html. Acesso em: 10 jan. 2026. Adaptado.

Os dados da PNAD Contínua 2022 demonstram a desigualdade social e educacional em todos os níveis da educação no Brasil. No entanto, o ECA é uma das referências legais na luta pela inclusão como direito humano, especialmente no que diz respeito ao direito à educação e às diretrizes de inclusão.

Nesse contexto, de modo a atender à obrigação de efetivar o direito à inclusão dos alunos com deficiência, é dever do Estado

 

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