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TEXTO – HISTÓRICO DA REVISÃO TEXTUAL
Houve tempo em que os revisores eram pessoas de grande preparo intelectual. Segundo Arezio (1925:10), “as constantes divergências de crenças religiosas e a falsa interpretação dos textos sacros deram lugar a discussões e controvérsias. Daí a necessidade de formarem um corpo de revisão, entre os homens de maior fama intelectual e erudição comprovada, para fazerem a correção ou a revisão dos manuscritos antigos, dando-lhes nova forma, alterando-lhes os períodos, de modo que as subsequentes edições saíssem isentas daqueles senões”.
A instituição da revisão de provas tipográficas provocou à época, na França, a revolta dos copistas, que se insurgiram contra a inovação da reprodução por meio da tipografia. Muito bem relacionados com a nobreza reinante, conseguiram o apoio do parlamento francês, para condenar os impressores (proprietários de tipografias ou editores) e colaboradores à perda dos seus bens. Era mais um momento da história em que a ignorância prevalecia, já que novos métodos eram considerados, com base na religião, obra do demônio. Os impressores, perseguidos, obviamente continuaram a trabalhar, embora na clandestinidade. E os copistas continuaram a copiar os breves e as orações, por seu método primitivo. Mas os erros passaram a frequentes. Os copistas já não atendiam à demanda. Em consequência, a clientela, gradativamente, acabou por procurar outros recursos. Se os copistas, que se julgavam de extrema competência, deixavam passar erros, os impressores também – estes últimos acusados pelos primeiros de adulterar os livros. Assim, dos impressores, quem mais se preocupasse com a revisão adquiria fama pelas edições corretas. Ao se referir aos impressores Ulrich Gering, Martin Krantz e Michel Friburger, que se instalaram na Sorbonne, Arezio (1925: 10) dá conta de que “liam as primeiras provas antes de começar a impressão, para que elas saíssem escoimadas dos erros da caixa ou dos cometidos pelos tipógrafos”.
O desenvolvimento da indústria da impressão tipográfica e a prática de emendar (corrigir), a partir de provas de prelo – de prensa ou rolo –, abriram campo para profissionais encarregados de acompanhar os autores na leitura das provas. Precursores dos atuais revisores de texto, eram eles comumente “os tipógrafos mais inteligentes e mais eruditos”.
Antigamente, os erros das primeiras edições eram corrigidos a pena. Citando o Manual de tipografia, de R. Ogier, de 1832, Arezio (1925: 12-3) informa que, nas obras de Gering, não se usava a errata. “Esta apareceu, pela primeira vez, na edição do Juvenal, impresso em Veneza, por Gabriel Pierres, 1478, e constava de duas páginas.” Duas páginas de errata deixam qualquer revisor em maus lençóis – o escritor Nélson Rodrigues dizia que “o único erro que merece a pena de fuzilamento é o erro de revisão”.
A despeito de os revisores se desdobrarem na correção geralmente difícil e custosa, muitas vezes a atenção é comprometida pelo cansaço, e sempre acaba havendo lugar para a abominável errata ao final.
O escritor cubano Antón Arrufat (De la pequeñas cosas, 1935) faz uma reflexão sobre a “insidiosa errata” e fala da preocupação quase doentia do poeta Baudelaire com os erros tipográficos. Outros mais eram cuidadosos, pois tinham na errata um atestado de incompetência. O impressor Estienne Dolet exaltava tanto a revisão, que pregava suas provas tipográficas na porta da oficina, “dando um prêmio àqueles que nelas descobrissem um pastel”. (AREZIO, 1925:13)
Dolet era poeta, escritor, orador, revisor. Viveu no séc. XVI e foi contemporâneo de Marot e de Rabelais (considerados dois dos maiores escritores franceses na década de 1530). Antes de se projetar, era revisor em Lyon, quando compôs o Pantagruel e o Gargantua. A máxima “andar com bons, para se tornar um deles” funcionou para Dolet. “Do convívio com os homens ilustrados daquela época, Dolet se propôs a revedor de provas da imprensa: dedicou-se à literatura e ganhou nome entre os principais autores franceses”, afirma Arezio.
Apesar de sistemático e exigente, e de oferecer prêmios a quem apontasse falhas em suas obras, Dolet não conseguiu se livrar da abominável errata. Em 1925, Arezio comenta que a obra-prima da arte tipográfica, os Comentários da língua latina (2 v., 1536-1538), de Dolet, com 854 páginas, contou com apenas oito erros de revisão compondo a errata ao fim do segundo volume.
ARISTIDES, Coelho Neto. Além da revisão: critérios para revisão textual. Brasília: Editora SENAC – DF, 2013.
Como em “obra-prima”, o hífen está empregado corretamente em
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TEXTO – HISTÓRICO DA REVISÃO TEXTUAL
Houve tempo em que os revisores eram pessoas de grande preparo intelectual. Segundo Arezio (1925:10), “as constantes divergências de crenças religiosas e a falsa interpretação dos textos sacros deram lugar a discussões e controvérsias. Daí a necessidade de formarem um corpo de revisão, entre os homens de maior fama intelectual e erudição comprovada, para fazerem a correção ou a revisão dos manuscritos antigos, dando-lhes nova forma, alterando-lhes os períodos, de modo que as subsequentes edições saíssem isentas daqueles senões”.
A instituição da revisão de provas tipográficas provocou à época, na França, a revolta dos copistas, que se insurgiram contra a inovação da reprodução por meio da tipografia. Muito bem relacionados com a nobreza reinante, conseguiram o apoio do parlamento francês, para condenar os impressores (proprietários de tipografias ou editores) e colaboradores à perda dos seus bens. Era mais um momento da história em que a ignorância prevalecia, já que novos métodos eram considerados, com base na religião, obra do demônio. Os impressores, perseguidos, obviamente continuaram a trabalhar, embora na clandestinidade. E os copistas continuaram a copiar os breves e as orações, por seu método primitivo. Mas os erros passaram a frequentes. Os copistas já não atendiam à demanda. Em consequência, a clientela, gradativamente, acabou por procurar outros recursos. Se os copistas, que se julgavam de extrema competência, deixavam passar erros, os impressores também – estes últimos acusados pelos primeiros de adulterar os livros. Assim, dos impressores, quem mais se preocupasse com a revisão adquiria fama pelas edições corretas. Ao se referir aos impressores Ulrich Gering, Martin Krantz e Michel Friburger, que se instalaram na Sorbonne, Arezio (1925: 10) dá conta de que “liam as primeiras provas antes de começar a impressão, para que elas saíssem escoimadas dos erros da caixa ou dos cometidos pelos tipógrafos”.
O desenvolvimento da indústria da impressão tipográfica e a prática de emendar (corrigir), a partir de provas de prelo – de prensa ou rolo –, abriram campo para profissionais encarregados de acompanhar os autores na leitura das provas. Precursores dos atuais revisores de texto, eram eles comumente “os tipógrafos mais inteligentes e mais eruditos”.
Antigamente, os erros das primeiras edições eram corrigidos a pena. Citando o Manual de tipografia, de R. Ogier, de 1832, Arezio (1925: 12-3) informa que, nas obras de Gering, não se usava a errata. “Esta apareceu, pela primeira vez, na edição do Juvenal, impresso em Veneza, por Gabriel Pierres, 1478, e constava de duas páginas.” Duas páginas de errata deixam qualquer revisor em maus lençóis – o escritor Nélson Rodrigues dizia que “o único erro que merece a pena de fuzilamento é o erro de revisão”.
A despeito de os revisores se desdobrarem na correção geralmente difícil e custosa, muitas vezes a atenção é comprometida pelo cansaço, e sempre acaba havendo lugar para a abominável errata ao final.
O escritor cubano Antón Arrufat (De la pequeñas cosas, 1935) faz uma reflexão sobre a “insidiosa errata” e fala da preocupação quase doentia do poeta Baudelaire com os erros tipográficos. Outros mais eram cuidadosos, pois tinham na errata um atestado de incompetência. O impressor Estienne Dolet exaltava tanto a revisão, que pregava suas provas tipográficas na porta da oficina, “dando um prêmio àqueles que nelas descobrissem um pastel”. (AREZIO, 1925:13)
Dolet era poeta, escritor, orador, revisor. Viveu no séc. XVI e foi contemporâneo de Marot e de Rabelais (considerados dois dos maiores escritores franceses na década de 1530). Antes de se projetar, era revisor em Lyon, quando compôs o Pantagruel e o Gargantua. A máxima “andar com bons, para se tornar um deles” funcionou para Dolet. “Do convívio com os homens ilustrados daquela época, Dolet se propôs a revedor de provas da imprensa: dedicou-se à literatura e ganhou nome entre os principais autores franceses”, afirma Arezio.
Apesar de sistemático e exigente, e de oferecer prêmios a quem apontasse falhas em suas obras, Dolet não conseguiu se livrar da abominável errata. Em 1925, Arezio comenta que a obra-prima da arte tipográfica, os Comentários da língua latina (2 v., 1536-1538), de Dolet, com 854 páginas, contou com apenas oito erros de revisão compondo a errata ao fim do segundo volume.
ARISTIDES, Coelho Neto. Além da revisão: critérios para revisão textual. Brasília: Editora SENAC – DF, 2013.
O verbo destacado está empregado no mesmo tempo e modo que o verbo sublinhado em “Outros mais eram cuidadosos”, na oração
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TEXTO – O GAJO, O ÓCIO E A REDE (Adriana Calcanhoto)
Na Flip 2015, duas das questões mais caras ao homenageado do ano, Mário de Andrade, foram bem iluminadas por dois dos escritores portugueses presentes. Uma delas, o escrever “brasileiro”. O abrasileiramento da nossa língua escrita. Mário trocou muitas e intensas cartas com o poeta Manuel Bandeira, que concordava e gostava da ideia em essência, criticando apenas a sistematização utilizada pelo amigo. Em Portugal, diz-se normalmente que nós, brasileiros, falamos brasileiro e eles, portugueses, português. Nas linguagens catalogadas do mundo, assim como há um inglês britânico e um inglês americano, há o português de Portugal e o português do Brasil. Não exatamente aquele brasileiro com que Mário de Andrade acusava seus pares de não terem coragem de escrever; mas o brasileiro em que a poeta portuguesa Matilde Campilho respondeu às perguntas na tenda dos autores. Na hora de ler os seus poemas, Matilde pediu licença para ler em português, de Portugal, sua língua materna, ou para ela pareceria “mentira”. A poeta é bilíngue, viveu no Brasil.
Na Flip 2015, duas das questões mais caras ao homenageado do ano, Mário de Andrade, foram bem iluminadas por dois dos escritores portugueses presentes. Uma delas, o escrever “brasileiro”. O abrasileiramento da nossa língua escrita. Mário trocou muitas e intensas cartas com o poeta Manuel Bandeira, que concordava e gostava da ideia em essência, criticando apenas a sistematização utilizada pelo amigo. Em Portugal, diz-se normalmente que nós, brasileiros, falamos brasileiro e eles, portugueses, português. Nas linguagens catalogadas do mundo, assim como há um inglês britânico e um inglês americano, há o português de Portugal e o português do Brasil. Não exatamente aquele brasileiro com que Mário de Andrade acusava seus pares de não terem coragem de escrever; mas o brasileiro em que a poeta portuguesa Matilde Campilho respondeu às perguntas na tenda dos autores. Na hora de ler os seus poemas, Matilde pediu licença para ler em português, de Portugal, sua língua materna, ou para ela pareceria “mentira”. A poeta é bilíngue, viveu no Brasil.
De vossa mercê para vosmicê, de vosmicê para você, de você para cê, este é o caminho que mantém uma língua viva, o do menor esforço. Somos duas línguas, e não é questão de sotaque, melodia ou pronúncia, apenas. “Jóquei”, o primeiro livro de Matilde Campilho, foi lançado no Brasil na versão original, em brasileiro; já em Portugal, foi traduzido para o português por conta da série de palavras em brasileiro, incompreensíveis lá. Gonçalo M. Tavares, em sua fala, mais de uma vez certificou-se com o público se era do conhecimento geral o significado de uma ou outra palavra, “também usam, não é?”. Em brasileiro, usamos ainda palavras que, no português de hoje, são arcaicas, palavras que ficaram por aqui desde o tempo da Corte e que, em Portugal, caíram em desuso, sendo, portanto, incompreensíveis para os portugueses nossos contemporâneos. Telemóvel é telefone celular; guião é roteiro de cinema; ecran é tela, de cinema, TV ou computador; rato é mouse; peão é pedestre; pequeno-almoço é café da manhã; aquele gajo é aquele cara. Em brasileiro, temos três nomes para uma mesma raiz: aipim, macaxeira e mandioca. Três nomes diferentes para a mesma fruta: bergamota, tangerina e mexerica, e algum dia ainda teremos o dicionário brasileiro-brasileiro. Evidente que o escrever brasileiro que Mário almejava é muito mais do que isso, muito mais profundo, mas é sempre excelente provocação, e, quando aparece na Flip, a alguns meses de antecedência da assinatura do Novo Acordo Ortográfico, que Portugal poderá não assinar e com isso nos obrigar a pensar melhor (as duas línguas), achei excelente.
De uma das coisas mais profundas do Brasil profundo de Mário de Andrade, teceu-se a fala de Gonçalo M. Tavares. O tempo lento. Interiorano, interior, o tempo de só ser. A desaceleração. Gonçalo afirma que a maioria de nós vive como imortais, quando não somos. Desperdiçamos nosso tempo, precioso e finito, ou precioso porque finito, saindo com alguém que sabemos que é chato, indo assistir a um filme que já sabemos médio. Comenta ele que, em Portugal, há agora, nas escolas, uma atividade chamada “ocupação do tempo livre”, o que em si é uma insanidade e da qual as crianças fogem e vão se esconder no banheiro (que em Portugal é casa-de-banho), muito compreensivelmente. Não há como viver sem espaços livres, não há criação sem ócio. Sem ócio não há negócio. Schopenhauer sustentava que a vida dos eruditos é, na grande maioria, intelectualmente muito pobre, porque só leem, da manhã à noite, e não dão-se a si mesmos espaços para livre pensar. Apenas acumulam informação. O oposto do erudito Mário, que descobriu que não era na eruditice livresca que morava o que realmente lhe interessava. Como disse em uma das primeiras cartas da correspondência com um então jovem Carlos Drummond: … “Eu acho, Drummond, pensando bem, que o que falta pra certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida. Como não atinaram com o verdadeiro jeito de gostar da vida, cansam-se, ficam tristes ou então fingem alegria, o que ainda é mais idiota do que ser sinceramente triste. Eu não posso compreender um homem de gabinete, e vocês todos, do Rio, de Minas, do Norte me parecem um pouco de gabinete demais.” …
No tempo de Mário, não havia internet. O poeta não viveu essa nossa angústia da velocidade de que Gonçalo falou tão andradinamente. Velocidade não é bom para tudo. Não serve para tudo. Saber agora que algo é lento gera impaciência, mas ser lento não é necessariamente defeito. Na escrita, para que ela seja lapidada, polida, enxugada, essencializada, que melhore enquanto escrita, leva tempo. Dura enquanto dura. Só o tempo opera a condensação de 24 laudas iniciais em duas finais, para dizer rigorosamente a mesma coisa. Já entendemos que não temos como assimilar tanta informação disponível e essa frustração é do tamanho de um luto: sabemos que não poderemos ler todos os clássicos ou todos os contemporâneos no tempo de uma vida. No tempo de Mário, tinha-se uma única certeza nesta vida. Agora temos duas. Então não adianta correr, ter mais e mais velocidade por muito menos, jamais conseguiremos; não adianta não viver o presente em velocidade máxima, daremos no mesmo lugar. Vamos com calma, devagar com o andor. Range rege. Ai! que preguiça!…
Disponível em: http://oglobo.globo.com/cultura/o-gajo-ocio-a-rede-16738272/. Acesso em 2 nov. 2016.
No período “Gonçalo afirma que a maioria de nós vive como imortais”, admite-se, quanto à concordância verbal, que o verbo destacado seja empregado tanto no singular quanto no plural. O verbo destacado, assim como nesse caso, também pode ser empregado tanto no singular quanto no plural, em
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TEXTO – HISTÓRICO DA REVISÃO TEXTUAL
Houve tempo em que os revisores eram pessoas de grande preparo intelectual. Segundo Arezio (1925:10), “as constantes divergências de crenças religiosas e a falsa interpretação dos textos sacros deram lugar a discussões e controvérsias. Daí a necessidade de formarem um corpo de revisão, entre os homens de maior fama intelectual e erudição comprovada, para fazerem a correção ou a revisão dos manuscritos antigos, dando-lhes nova forma, alterando-lhes os períodos, de modo que as subsequentes edições saíssem isentas daqueles senões”.
A instituição da revisão de provas tipográficas provocou à época, na França, a revolta dos copistas, que se insurgiram contra a inovação da reprodução por meio da tipografia. Muito bem relacionados com a nobreza reinante, conseguiram o apoio do parlamento francês, para condenar os impressores (proprietários de tipografias ou editores) e colaboradores à perda dos seus bens. Era mais um momento da história em que a ignorância prevalecia, já que novos métodos eram considerados, com base na religião, obra do demônio. Os impressores, perseguidos, obviamente continuaram a trabalhar, embora na clandestinidade. E os copistas continuaram a copiar os breves e as orações, por seu método primitivo. Mas os erros passaram a frequentes. Os copistas já não atendiam à demanda. Em consequência, a clientela, gradativamente, acabou por procurar outros recursos. Se os copistas, que se julgavam de extrema competência, deixavam passar erros, os impressores também – estes últimos acusados pelos primeiros de adulterar os livros. Assim, dos impressores, quem mais se preocupasse com a revisão adquiria fama pelas edições corretas. Ao se referir aos impressores Ulrich Gering, Martin Krantz e Michel Friburger, que se instalaram na Sorbonne, Arezio (1925: 10) dá conta de que “liam as primeiras provas antes de começar a impressão, para que elas saíssem escoimadas dos erros da caixa ou dos cometidos pelos tipógrafos”.
O desenvolvimento da indústria da impressão tipográfica e a prática de emendar (corrigir), a partir de provas de prelo – de prensa ou rolo –, abriram campo para profissionais encarregados de acompanhar os autores na leitura das provas. Precursores dos atuais revisores de texto, eram eles comumente “os tipógrafos mais inteligentes e mais eruditos”.
Antigamente, os erros das primeiras edições eram corrigidos a pena. Citando o Manual de tipografia, de R. Ogier, de 1832, Arezio (1925: 12-3) informa que, nas obras de Gering, não se usava a errata. “Esta apareceu, pela primeira vez, na edição do Juvenal, impresso em Veneza, por Gabriel Pierres, 1478, e constava de duas páginas.” Duas páginas de errata deixam qualquer revisor em maus lençóis – o escritor Nélson Rodrigues dizia que “o único erro que merece a pena de fuzilamento é o erro de revisão”.
A despeito de os revisores se desdobrarem na correção geralmente difícil e custosa, muitas vezes a atenção é comprometida pelo cansaço, e sempre acaba havendo lugar para a abominável errata ao final.
O escritor cubano Antón Arrufat (De la pequeñas cosas, 1935) faz uma reflexão sobre a “insidiosa errata” e fala da preocupação quase doentia do poeta Baudelaire com os erros tipográficos. Outros mais eram cuidadosos, pois tinham na errata um atestado de incompetência. O impressor Estienne Dolet exaltava tanto a revisão, que pregava suas provas tipográficas na porta da oficina, “dando um prêmio àqueles que nelas descobrissem um pastel”. (AREZIO, 1925:13)
Dolet era poeta, escritor, orador, revisor. Viveu no séc. XVI e foi contemporâneo de Marot e de Rabelais (considerados dois dos maiores escritores franceses na década de 1530). Antes de se projetar, era revisor em Lyon, quando compôs o Pantagruel e o Gargantua. A máxima “andar com bons, para se tornar um deles” funcionou para Dolet. “Do convívio com os homens ilustrados daquela época, Dolet se propôs a revedor de provas da imprensa: dedicou-se à literatura e ganhou nome entre os principais autores franceses”, afirma Arezio.
Apesar de sistemático e exigente, e de oferecer prêmios a quem apontasse falhas em suas obras, Dolet não conseguiu se livrar da abominável errata. Em 1925, Arezio comenta que a obra-prima da arte tipográfica, os Comentários da língua latina (2 v., 1536-1538), de Dolet, com 854 páginas, contou com apenas oito erros de revisão compondo a errata ao fim do segundo volume.
ARISTIDES, Coelho Neto. Além da revisão: critérios para revisão textual. Brasília: Editora SENAC – DF, 2013.
Estão acentuadas, respectivamente, pelos mesmos motivos de daí, períodos, tipográficas, já, lençóis e prêmios, as palavras
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O emprego da vírgula é gramaticalmente facultativo em
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TEXTO – O GIGOLÔ DAS PALAVRAS
Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável, para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com as suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa (“Culpa da revisão! Culpa da revisão!”). Mas os alunos desfizeram o equívoco, antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.
Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável, para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com as suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa (“Culpa da revisão! Culpa da revisão!”). Mas os alunos desfizeram o equívoco, antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.
Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E, quando possível, surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra, para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua, mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.
Claro que eu não disse tudo isso para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática, na certa, se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas – isso eu disse – vejam, vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável, que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis, para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenha também o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.
Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou com a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção de lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda.
VERÍSSIMO, Luís Fernando. O gigolô das palavras. In: ______. Para gostar de ler; Luis Fernando
Veríssimo: o nariz e outras crônicas. 10 ed. v. 14. São Paulo: Ática, 2002. p. 77-8.
Sobre a linguagem utilizada pelo autor, associe (V) para as afirmativas verdadeiras ou (F) para as falsas.
I. ( ) O autor, famoso por produzir crônicas para os jornais, propositadamente, não segue à risca o que determina a gramática.
II. ( ) Distante de uma tradição da norma culta, por muitas vezes, o coloquialismo é presente em seus textos, chegando a fazer parte do seu estilo.
III. ( ) Mesmo defendendo que seguir a Gramática seja imprescindível, o autor opta por uma clareza vocabular, a fim de tornar-se acessível a todos os leitores.
IV. ( ) Como exímio usuário da língua e com notório saber gramatical, o autor faz de seus textos fonte de conhecimento vernacular da língua.
V. ( ) O autor defende o bom senso no uso da língua, em vez de um purismo gramatical, muitas vezes incompreensível a muitos.
A sequencia correta é
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TEXTO – HISTÓRICO DA REVISÃO TEXTUAL
Houve tempo em que os revisores eram pessoas de grande preparo intelectual. Segundo Arezio (1925:10), “as constantes divergências de crenças religiosas e a falsa interpretação dos textos sacros deram lugar a discussões e controvérsias. Daí a necessidade de formarem um corpo de revisão, entre os homens de maior fama intelectual e erudição comprovada, para fazerem a correção ou a revisão dos manuscritos antigos, dando-lhes nova forma, alterando-lhes os períodos, de modo que as subsequentes edições saíssem isentas daqueles senões”.
Houve tempo em que os revisores eram pessoas de grande preparo intelectual. Segundo Arezio (1925:10), “as constantes divergências de crenças religiosas e a falsa interpretação dos textos sacros deram lugar a discussões e controvérsias. Daí a necessidade de formarem um corpo de revisão, entre os homens de maior fama intelectual e erudição comprovada, para fazerem a correção ou a revisão dos manuscritos antigos, dando-lhes nova forma, alterando-lhes os períodos, de modo que as subsequentes edições saíssem isentas daqueles senões”.
A instituição da revisão de provas tipográficas provocou à época, na França, a revolta dos copistas, que se insurgiram contra a inovação da reprodução por meio da tipografia. Muito bem relacionados com a nobreza reinante, conseguiram o apoio do parlamento francês, para condenar os impressores (proprietários de tipografias ou editores) e colaboradores à perda dos seus bens. Era mais um momento da história em que a ignorância prevalecia, já que novos métodos eram considerados, com base na religião, obra do demônio. Os impressores, perseguidos, obviamente continuaram a trabalhar, embora na clandestinidade. E os copistas continuaram a copiar os breves e as orações, por seu método primitivo. Mas os erros passaram a frequentes. Os copistas já não atendiam à demanda. Em consequência, a clientela, gradativamente, acabou por procurar outros recursos. Se os copistas, que se julgavam de extrema competência, deixavam passar erros, os impressores também – estes últimos acusados pelos primeiros de adulterar os livros. Assim, dos impressores, quem mais se preocupasse com a revisão adquiria fama pelas edições corretas. Ao se referir aos impressores Ulrich Gering, Martin Krantz e Michel Friburger, que se instalaram na Sorbonne, Arezio (1925: 10) dá conta de que “liam as primeiras provas antes de começar a impressão, para que elas saíssem escoimadas dos erros da caixa ou dos cometidos pelos tipógrafos”.
O desenvolvimento da indústria da impressão tipográfica e a prática de emendar (corrigir), a partir de provas de prelo – de prensa ou rolo –, abriram campo para profissionais encarregados de acompanhar os autores na leitura das provas. Precursores dos atuais revisores de texto, eram eles comumente “os tipógrafos mais inteligentes e mais eruditos”.
Antigamente, os erros das primeiras edições eram corrigidos a pena. Citando o Manual de tipografia, de R. Ogier, de 1832, Arezio (1925: 12-3) informa que, nas obras de Gering, não se usava a errata. “Esta apareceu, pela primeira vez, na edição do Juvenal, impresso em Veneza, por Gabriel Pierres, 1478, e constava de duas páginas.” Duas páginas de errata deixam qualquer revisor em maus lençóis – o escritor Nélson Rodrigues dizia que “o único erro que merece a pena de fuzilamento é o erro de revisão”.
A despeito de os revisores se desdobrarem na correção geralmente difícil e custosa, muitas vezes a atenção é comprometida pelo cansaço, e sempre acaba havendo lugar para a abominável errata ao final.
O escritor cubano Antón Arrufat (De la pequeñas cosas, 1935) faz uma reflexão sobre a “insidiosa errata” e fala da preocupação quase doentia do poeta Baudelaire com os erros tipográficos. Outros mais eram cuidadosos, pois tinham na errata um atestado de incompetência. O impressor Estienne Dolet exaltava tanto a revisão, que pregava suas provas tipográficas na porta da oficina, “dando um prêmio àqueles que nelas descobrissem um pastel”. (AREZIO, 1925:13)
Dolet era poeta, escritor, orador, revisor. Viveu no séc. XVI e foi contemporâneo de Marot e de Rabelais (considerados dois dos maiores escritores franceses na década de 1530). Antes de se projetar, era revisor em Lyon, quando compôs o Pantagruel e o Gargantua. A máxima “andar com bons, para se tornar um deles” funcionou para Dolet. “Do convívio com os homens ilustrados daquela época, Dolet se propôs a revedor de provas da imprensa: dedicou-se à literatura e ganhou nome entre os principais autores franceses”, afirma Arezio.
Apesar de sistemático e exigente, e de oferecer prêmios a quem apontasse falhas em suas obras, Dolet não conseguiu se livrar da abominável errata. Em 1925, Arezio comenta que a obra-prima da arte tipográfica, os Comentários da língua latina (2 v., 1536-1538), de Dolet, com 854 páginas, contou com apenas oito erros de revisão compondo a errata ao fim do segundo volume.
ARISTIDES, Coelho Neto. Além da revisão: critérios para revisão textual. Brasília: Editora SENAC – DF, 2013.
Com base no texto, considere as seguintes afirmativas.
I. O preparo dos revisores mais antigos se dava por uma formação intelectual, ao entrar em contato com outros homens ilustrados daquela época.
II. Os copistas e os impressores eram concorrentes dos revisores da época, mas, mesmo com o apoio da nobreza, aqueles ainda tinham mais respaldo social.
III. O perfeccionismo deve ser um atributo imprescindível do trabalho do revisor, tendo em vista que uma errata representava um atestado de incompetência.
IV. A notabilidade de Dolet deveu-se, principalmente, pelo seu rigor e competência, embora tenha reconhecido falhas, elaborando uma errata.
Estão corretas:
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TEXTO – MARCUSCHI, A PESSOA “QUE ME ENSINOU MUITO DO QUE AINDA VOU APRENDER” (Marcos Bagno)
Quando comecei a estudar na Universidade Federal de Pernambuco, quase trinta anos atrás, uma das primeiras disciplinas que cursei era ministrada por Luiz Antônio Marcuschi. Foi uma dessas pouquíssimas experiências que representam um ponto de transformação em nossas vidas e que nos marcam definitivamente. A partir dali, procurei me matricular em todos os cursos que Marcuschi oferecia, de modo que ele foi meu professor em todos os semestres da minha graduação em Letras e também em meu mestrado em linguística. Eu dizia aos colegas que, se ele oferecesse aulas de corte e costura ou de culinária tailandesa, eu estaria sempre na primeira fila. Isso porque, em cada encontro, Marcuschi nos fazia percorrer as principais trilhas do pensamento filosófico ocidental, de Platão a Wittgenstein, com passagens por santo Agostinho, Leibniz e Frege, e paradas obrigatórias nas grandes teorias da linguística.
Uma colega me confessou, certa vez, que saía daquelas aulas com dor de cabeça, enquanto outra desejava montar uma bilheteria e cobrar ingresso para o que lhe pareciam verdadeiros espetáculos de erudição. Mas era, na verdade, uma prática de ensino que não se resumia à exibição pura e simples de conhecimento para subjugar os estudantes, para produzir inveja ou temor, como se dá com melancólica frequência em nossos meios acadêmicos. Uma prática que outro ex-aluno dele definiu como generosidade intelectual. Porque Marcuschi compartilhava suas fontes com absoluta prodigalidade, jamais escondia para seu uso exclusivo os segredos do acesso à informação.
Em todas as conferências que dava, o gesto final era sempre o mesmo: entregava as páginas com o texto que tinha acabado de ler, para que as pessoas fizessem cópias à vontade, sem nenhuma restrição, sem nada pedir em troca.
Eram textos em incessante construção, que ele poderia até eventualmente reapresentar em outra ocasião, já mais amadurecidos, mais enriquecidos com novas reflexões, novos resultados, novas reformulações. Por isso, decerto, ele talvez tenha publicado menos do que gostaríamos, pois era movido por essa insatisfação compulsiva que leva os grandes pensadores a exigirem sempre mais de si mesmos.
Ainda assim, foi o principal introdutor, nos meios científicos brasileiros, de uma série de teorias linguísticas que, se hoje têm ampla difusão entre nós, é precisamente graças a ele: análise da conversação, linguística textual, pragmática linguística, relações fala/escrita, linguística cognitiva... Marcuschi era inflexível quanto à sua recusa de qualquer teoria sobre a linguagem que desconsiderasse a atividade humana, a interação social, a inevitabilidade de incluir o falante e seus interlocutores na análise de toda e qualquer manifestação verbal oral ou escrita. Algo que aprendi com ele e que repito a todo momento é que a linguagem é um trabalho efetuado pelas pessoas em interação social. Não se trata, portanto, de mero uso, como se a língua fosse uma caixa de ferramentas: trata-se de ação. Para ele, o formalismo paroxístico da linguística chomskiana, por exemplo, era nada menos do que um “escândalo científico”, conforme escreveu certa vez.
Sei que todas as pessoas que, como eu, fomos suas alunas e alunos e tivemos o privilégio incalculável de conviver com ele, dentro e fora de sala de aula, vamos conservar a influência decisiva implantada em nós por um homem que viveu exclusivamente para o estudo e para a construção do conhecimento. Dono de uma franqueza absoluta, sem meias palavras e sem concessões, enunciava suas opiniões e seus ensinamentos num incontornável sotaque gaúcho que, até hoje, ecoa em nossos ouvidos como o traço distintivo desse intelectual como poucos que o Brasil tem produzido. Por isso, na dedicatória que lhe fiz num dos meus livros, escrevi que Marcuschi é a pessoa “que me ensinou muito do que ainda vou aprender”.
Disponível em: http://www.parabolaeditorial.com.br/blog/entry/luiz-antonio-marcuschi.html/. Acesso em 2 nov. 2016
A expressão grifada deve receber acento indicativo de crase, como a destacada em “entregava as páginas com o texto que tinha acabado de ler, para que as pessoas fizessem cópias à vontade, sem nenhuma restrição, sem nada pedir em troca”, em
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TEXTO – HISTÓRICO DA REVISÃO TEXTUAL
Houve tempo em que os revisores eram pessoas de grande preparo intelectual. Segundo Arezio (1925:10), “as constantes divergências de crenças religiosas e a falsa interpretação dos textos sacros deram lugar a discussões e controvérsias. Daí a necessidade de formarem um corpo de revisão, entre os homens de maior fama intelectual e erudição comprovada, para fazerem a correção ou a revisão dos manuscritos antigos, dando-lhes nova forma, alterando-lhes os períodos, de modo que as subsequentes edições saíssem isentas daqueles senões”.
Houve tempo em que os revisores eram pessoas de grande preparo intelectual. Segundo Arezio (1925:10), “as constantes divergências de crenças religiosas e a falsa interpretação dos textos sacros deram lugar a discussões e controvérsias. Daí a necessidade de formarem um corpo de revisão, entre os homens de maior fama intelectual e erudição comprovada, para fazerem a correção ou a revisão dos manuscritos antigos, dando-lhes nova forma, alterando-lhes os períodos, de modo que as subsequentes edições saíssem isentas daqueles senões”.
A instituição da revisão de provas tipográficas provocou à época, na França, a revolta dos copistas, que se insurgiram contra a inovação da reprodução por meio da tipografia. Muito bem relacionados com a nobreza reinante, conseguiram o apoio do parlamento francês, para condenar os impressores (proprietários de tipografias ou editores) e colaboradores à perda dos seus bens. Era mais um momento da história em que a ignorância prevalecia, já que novos métodos eram considerados, com base na religião, obra do demônio. Os impressores, perseguidos, obviamente continuaram a trabalhar, embora na clandestinidade. E os copistas continuaram a copiar os breves e as orações, por seu método primitivo. Mas os erros passaram a frequentes. Os copistas já não atendiam à demanda. Em consequência, a clientela, gradativamente, acabou por procurar outros recursos. Se os copistas, que se julgavam de extrema competência, deixavam passar erros, os impressores também – estes últimos acusados pelos primeiros de adulterar os livros. Assim, dos impressores, quem mais se preocupasse com a revisão adquiria fama pelas edições corretas. Ao se referir aos impressores Ulrich Gering, Martin Krantz e Michel Friburger, que se instalaram na Sorbonne, Arezio (1925: 10) dá conta de que “liam as primeiras provas antes de começar a impressão, para que elas saíssem escoimadas dos erros da caixa ou dos cometidos pelos tipógrafos”.
O desenvolvimento da indústria da impressão tipográfica e a prática de emendar (corrigir), a partir de provas de prelo – de prensa ou rolo –, abriram campo para profissionais encarregados de acompanhar os autores na leitura das provas. Precursores dos atuais revisores de texto, eram eles comumente “os tipógrafos mais inteligentes e mais eruditos”.
Antigamente, os erros das primeiras edições eram corrigidos a pena. Citando o Manual de tipografia, de R. Ogier, de 1832, Arezio (1925: 12-3) informa que, nas obras de Gering, não se usava a errata. “Esta apareceu, pela primeira vez, na edição do Juvenal, impresso em Veneza, por Gabriel Pierres, 1478, e constava de duas páginas.” Duas páginas de errata deixam qualquer revisor em maus lençóis – o escritor Nélson Rodrigues dizia que “o único erro que merece a pena de fuzilamento é o erro de revisão”.
A despeito de os revisores se desdobrarem na correção geralmente difícil e custosa, muitas vezes a atenção é comprometida pelo cansaço, e sempre acaba havendo lugar para a abominável errata ao final.
O escritor cubano Antón Arrufat (De la pequeñas cosas, 1935) faz uma reflexão sobre a “insidiosa errata” e fala da preocupação quase doentia do poeta Baudelaire com os erros tipográficos. Outros mais eram cuidadosos, pois tinham na errata um atestado de incompetência. O impressor Estienne Dolet exaltava tanto a revisão, que pregava suas provas tipográficas na porta da oficina, “dando um prêmio àqueles que nelas descobrissem um pastel”. (AREZIO, 1925:13)
Dolet era poeta, escritor, orador, revisor. Viveu no séc. XVI e foi contemporâneo de Marot e de Rabelais (considerados dois dos maiores escritores franceses na década de 1530). Antes de se projetar, era revisor em Lyon, quando compôs o Pantagruel e o Gargantua. A máxima “andar com bons, para se tornar um deles” funcionou para Dolet. “Do convívio com os homens ilustrados daquela época, Dolet se propôs a revedor de provas da imprensa: dedicou-se à literatura e ganhou nome entre os principais autores franceses”, afirma Arezio.
Apesar de sistemático e exigente, e de oferecer prêmios a quem apontasse falhas em suas obras, Dolet não conseguiu se livrar da abominável errata. Em 1925, Arezio comenta que a obra-prima da arte tipográfica, os Comentários da língua latina (2 v., 1536-1538), de Dolet, com 854 páginas, contou com apenas oito erros de revisão compondo a errata ao fim do segundo volume.
ARISTIDES, Coelho Neto. Além da revisão: critérios para revisão textual. Brasília: Editora SENAC – DF, 2013.
Com relação à pontuação do texto, é correto afirmar-se que
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TEXTO – O GAJO, O ÓCIO E A REDE (Adriana Calcanhoto)
Na Flip 2015, duas das questões mais caras ao homenageado do ano, Mário de Andrade, foram bem iluminadas por dois dos escritores portugueses presentes. Uma delas, o escrever “brasileiro”. O abrasileiramento da nossa língua escrita. Mário trocou muitas e intensas cartas com o poeta Manuel Bandeira, que concordava e gostava da ideia em essência, criticando apenas a sistematização utilizada pelo amigo. Em Portugal, diz-se normalmente que nós, brasileiros, falamos brasileiro e eles, portugueses, português. Nas linguagens catalogadas do mundo, assim como há um inglês britânico e um inglês americano, há o português de Portugal e o português do Brasil. Não exatamente aquele brasileiro com que Mário de Andrade acusava seus pares de não terem coragem de escrever; mas o brasileiro em que a poeta portuguesa Matilde Campilho respondeu às perguntas na tenda dos autores. Na hora de ler os seus poemas, Matilde pediu licença para ler em português, de Portugal, sua língua materna, ou para ela pareceria “mentira”. A poeta é bilíngue, viveu no Brasil.
Na Flip 2015, duas das questões mais caras ao homenageado do ano, Mário de Andrade, foram bem iluminadas por dois dos escritores portugueses presentes. Uma delas, o escrever “brasileiro”. O abrasileiramento da nossa língua escrita. Mário trocou muitas e intensas cartas com o poeta Manuel Bandeira, que concordava e gostava da ideia em essência, criticando apenas a sistematização utilizada pelo amigo. Em Portugal, diz-se normalmente que nós, brasileiros, falamos brasileiro e eles, portugueses, português. Nas linguagens catalogadas do mundo, assim como há um inglês britânico e um inglês americano, há o português de Portugal e o português do Brasil. Não exatamente aquele brasileiro com que Mário de Andrade acusava seus pares de não terem coragem de escrever; mas o brasileiro em que a poeta portuguesa Matilde Campilho respondeu às perguntas na tenda dos autores. Na hora de ler os seus poemas, Matilde pediu licença para ler em português, de Portugal, sua língua materna, ou para ela pareceria “mentira”. A poeta é bilíngue, viveu no Brasil.
De vossa mercê para vosmicê, de vosmicê para você, de você para cê, este é o caminho que mantém uma língua viva, o do menor esforço. Somos duas línguas, e não é questão de sotaque, melodia ou pronúncia, apenas. “Jóquei”, o primeiro livro de Matilde Campilho, foi lançado no Brasil na versão original, em brasileiro; já em Portugal, foi traduzido para o português por conta da série de palavras em brasileiro, incompreensíveis lá. Gonçalo M. Tavares, em sua fala, mais de uma vez certificou-se com o público se era do conhecimento geral o significado de uma ou outra palavra, “também usam, não é?”. Em brasileiro, usamos ainda palavras que, no português de hoje, são arcaicas, palavras que ficaram por aqui desde o tempo da Corte e que, em Portugal, caíram em desuso, sendo, portanto, incompreensíveis para os portugueses nossos contemporâneos. Telemóvel é telefone celular; guião é roteiro de cinema; ecran é tela, de cinema, TV ou computador; rato é mouse; peão é pedestre; pequeno-almoço é café da manhã; aquele gajo é aquele cara. Em brasileiro, temos três nomes para uma mesma raiz: aipim, macaxeira e mandioca. Três nomes diferentes para a mesma fruta: bergamota, tangerina e mexerica, e algum dia ainda teremos o dicionário brasileiro-brasileiro. Evidente que o escrever brasileiro que Mário almejava é muito mais do que isso, muito mais profundo, mas é sempre excelente provocação, e, quando aparece na Flip, a alguns meses de antecedência da assinatura do Novo Acordo Ortográfico, que Portugal poderá não assinar e com isso nos obrigar a pensar melhor (as duas línguas), achei excelente.
De uma das coisas mais profundas do Brasil profundo de Mário de Andrade, teceu-se a fala de Gonçalo M. Tavares. O tempo lento. Interiorano, interior, o tempo de só ser. A desaceleração. Gonçalo afirma que a maioria de nós vive como imortais, quando não somos. Desperdiçamos nosso tempo, precioso e finito, ou precioso porque finito, saindo com alguém que sabemos que é chato, indo assistir a um filme que já sabemos médio. Comenta ele que, em Portugal, há agora, nas escolas, uma atividade chamada “ocupação do tempo livre”, o que em si é uma insanidade e da qual as crianças fogem e vão se esconder no banheiro (que em Portugal é casa-de-banho), muito compreensivelmente. Não há como viver sem espaços livres, não há criação sem ócio. Sem ócio não há negócio. Schopenhauer sustentava que a vida dos eruditos é, na grande maioria, intelectualmente muito pobre, porque só leem, da manhã à noite, e não dão-se a si mesmos espaços para livre pensar. Apenas acumulam informação. O oposto do erudito Mário, que descobriu que não era na eruditice livresca que morava o que realmente lhe interessava. Como disse em uma das primeiras cartas da correspondência com um então jovem Carlos Drummond: … “Eu acho, Drummond, pensando bem, que o que falta pra certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida. Como não atinaram com o verdadeiro jeito de gostar da vida, cansam-se, ficam tristes ou então fingem alegria, o que ainda é mais idiota do que ser sinceramente triste. Eu não posso compreender um homem de gabinete, e vocês todos, do Rio, de Minas, do Norte me parecem um pouco de gabinete demais.” …
No tempo de Mário, não havia internet. O poeta não viveu essa nossa angústia da velocidade de que Gonçalo falou tão andradinamente. Velocidade não é bom para tudo. Não serve para tudo. Saber agora que algo é lento gera impaciência, mas ser lento não é necessariamente defeito. Na escrita, para que ela seja lapidada, polida, enxugada, essencializada, que melhore enquanto escrita, leva tempo. Dura enquanto dura. Só o tempo opera a condensação de 24 laudas iniciais em duas finais, para dizer rigorosamente a mesma coisa. Já entendemos que não temos como assimilar tanta informação disponível e essa frustração é do tamanho de um luto: sabemos que não poderemos ler todos os clássicos ou todos os contemporâneos no tempo de uma vida. No tempo de Mário, tinha-se uma única certeza nesta vida. Agora temos duas. Então não adianta correr, ter mais e mais velocidade por muito menos, jamais conseguiremos; não adianta não viver o presente em velocidade máxima, daremos no mesmo lugar. Vamos com calma, devagar com o andor. Range rege. Ai! que preguiça!…
Disponível em: http://oglobo.globo.com/cultura/o-gajo-ocio-a-rede-16738272/. Acesso em 2 nov. 2016.
Sobre as ideias principais do texto, considere as seguintes afirmativas.
I. Segundo a autora, o abrasileiramento da nossa língua escrita se justifica pelas particularidades de nossa cultura, retratado na obra do escritor homenageado.
II. A tradução do livro da poeta reforça o argumento de que as diferenças lexicais entre os países comprometem a compreensão de alguns termos presentes no livro.
III. A autora estabelece a relação entre o tempo lento, o ócio, com a produtividade criativa, vendo-o como um tempo livre que poderia ser ocupado com mais produção.
IV. Na transcrição para Drummond, Mário critica o fato de faltar aos brasileiros gostarem da vida e, como consequência, fingem ficar tristes.
São verdadeiras:
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