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INSTRUÇÃO: O trecho a seguir se refere à questão.
“O erro de português grave e reiterado pode incomodar e melar uma aproximação promissora entre casais. Mas não está dado que alguém mantenha relacionamento duradouro sendo inflexível no uso da gramática formal.”
Em todas as alternativas a seguir o “mas” foi empregado com o mesmo valor semântico do trecho em destaque, EXCETO em:
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INSTRUÇÃO: O trecho a seguir se refere à questão.
“O erro de português grave e reiterado pode incomodar e melar uma aproximação promissora entre casais. Mas não está dado que alguém mantenha relacionamento duradouro sendo inflexível no uso da gramática formal.”
O conectivo mas estabelece uma relação de
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Gramática afeta o namoro
As regras da atração
Pesquisa norte-americana relaciona os tropeços de gramática como o segundo principal motivo para as pessoas descartarem potenciais namorados
Norte-americanos solteiros acabam de eleger os tropeços de gramática como uma das principais razões que arruínam um primeiro encontro ou o flerte com um potencial parceiro.
Uma pesquisa realizada com 5.481 adultos com mais de 21 anos foi conduzida pela empresa de marketing on-line MarketTools, para definir as qualidades, atitudes e expectativas que ilustram as mudanças culturais nas relações de aproximação entre pessoas solteiras.
O levantamento, divulgado pouco antes do carnaval de 2013, mostrou que, ao julgar um parceiro em potencial, tanto homens como mulheres colocam a gramática no topo da lista de “requisitos obrigatórios” de um relacionamento.
No Brasil, o paulistano Flávio Vianna, de 41 anos, é expressão confessa do perfil apontado pela pesquisa.
– Realmente me incomoda, a ponto de eu sentir vergonha. Vai que um amigo escuta? Ter um relacionamento com alguém que não sabe falar direito é um retrocesso.
Outro lado
Flexibilidade é a prova dos nove
O erro de português grave e reiterado pode incomodar e melar uma aproximação promissora entre casais. Mas não está dado que alguém mantenha relacionamento duradouro sendo inflexível no uso da gramática formal. Se alguém aplica, de forma ortodoxa,a gramática normativa numa conversa de bar, por exemplo, pode virar o chato da mesa. Pode perder a namorada.
O problema é que a norma culta tem sido há muito tempo considerada no Brasil um código de distinção social, quando é elemento de comunicação vital à constituição de nossa identidade e de nossos relacionamentos. As distorções dessa visão podem tornar irrelevantes outros aspectos que constituem a linguagem do namoro, como o humor e a capacidade de fazer correlações surpreendentes de ideias.
O que torna a norma culta uma sombra do idioma é tomá-la como universal, quando na verdade não existe um único padrão, mas cada situação de comunicação pede um registro que lhe é adequado. A flexibilidade do registro gramatical, adequado ao contexto de fala e escrita, é um aprendizado desafiador não só para solteiros conquistadores. Caso contrário, a pessoa se arrisca a perder muito mais do que um futuro parceiro.

(Fonte: <http://revistalingua.uol.com.br/textos/89/artigo279055-1.asp>. Disponível em: <http://www.tudonalingua.com/news/gramatica-afeta-o-namoro/>. Acesso em: 21 jul. 2015. Adaptado.)
Observando-se os dados apresentados no infográfico, só NÃO é possível inferir que:
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Gramática afeta o namoro
As regras da atração
Pesquisa norte-americana relaciona os tropeços de gramática como o segundo principal motivo para as pessoas descartarem potenciais namorados
Norte-americanos solteiros acabam de eleger os tropeços de gramática como uma das principais razões que arruínam um primeiro encontro ou o flerte com um potencial parceiro.
Uma pesquisa realizada com 5.481 adultos com mais de 21 anos foi conduzida pela empresa de marketing on-line MarketTools, para definir as qualidades, atitudes e expectativas que ilustram as mudanças culturais nas relações de aproximação entre pessoas solteiras.
O levantamento, divulgado pouco antes do carnaval de 2013, mostrou que, ao julgar um parceiro em potencial, tanto homens como mulheres colocam a gramática no topo da lista de “requisitos obrigatórios” de um relacionamento.
No Brasil, o paulistano Flávio Vianna, de 41 anos, é expressão confessa do perfil apontado pela pesquisa.
– Realmente me incomoda, a ponto de eu sentir vergonha. Vai que um amigo escuta? Ter um relacionamento com alguém que não sabe falar direito é um retrocesso.
Outro lado
Flexibilidade é a prova dos nove
O erro de português grave e reiterado pode incomodar e melar uma aproximação promissora entre casais. Mas não está dado que alguém mantenha relacionamento duradouro sendo inflexível no uso da gramática formal. Se alguém aplica, de forma ortodoxa,a gramática normativa numa conversa de bar, por exemplo, pode virar o chato da mesa. Pode perder a namorada.
O problema é que a norma culta tem sido há muito tempo considerada no Brasil um código de distinção social, quando é elemento de comunicação vital à constituição de nossa identidade e de nossos relacionamentos. As distorções dessa visão podem tornar irrelevantes outros aspectos que constituem a linguagem do namoro, como o humor e a capacidade de fazer correlações surpreendentes de ideias.
O que torna a norma culta uma sombra do idioma é tomá-la como universal, quando na verdade não existe um único padrão, mas cada situação de comunicação pede um registro que lhe é adequado. A flexibilidade do registro gramatical, adequado ao contexto de fala e escrita, é um aprendizado desafiador não só para solteiros conquistadores. Caso contrário, a pessoa se arrisca a perder muito mais do que um futuro parceiro.

(Fonte: <http://revistalingua.uol.com.br/textos/89/artigo279055-1.asp>. Disponível em: <http://www.tudonalingua.com/news/gramatica-afeta-o-namoro/>. Acesso em: 21 jul. 2015. Adaptado.)
A partir do texto, pode-se concluir que:
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A concordância verbal está adequada, de acordo com a gramática padrão, em:
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A colocação pronominal está corretamente empregada e justificada em:
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Leia atentamente as frases a seguir:
“Muitas pessoas afirmam que os professores de Língua Portuguesa não devem passar lista de exercícios. No entanto, a lista de exercícios é necessária para que haja a fixação do conteúdo que foi ministrado em sala de aula. Preocupados com a aprendizagem dos estudantes é que os professores passam a lista de exercícios.”
A reescrita que elimina o uso repetitivo do que e atende à norma padrão está expressa em:
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Disputa de sentidos
Muita gente pensa que as palavras têm um sentido fixo e verdadeiro. Entre os defensores dessa tese, os mais sofisticados argumentam em nome de um sentido antigo, supostamente originário. Não deixa de estar implícita nessa tese uma generalização dela, segundo a qual antigamente tudo era melhor (do paraíso antes da queda às línguas antes de Babel).
Acontece que nunca houve Éden e que nada se sabe de antes de Babel. O que melhor se pode saber sobre as línguas decorre da observação cotidiana do que fazem com ela os falantes. E o que os falantes mais fazem com ela é puxá-la para seu lado.
Se se quer entender minimamente uma língua, talvez o melhor caminho seja olhá-la com olhos de sociólogo (em vez de consultar uma gramática ou um dicionário): e o que primeiro se vê é que ela não é (nenhuma delas) uniforme – assim como não o é nenhuma sociedade.
É mais comum que se observe a heterogeneidade de uma língua com base na diversidade de sotaques e de construções gramaticais (de que ‘nós vamos’ / ‘nós vai’ pode ser uma espécie de símbolo). Mas há tanta variedade de sentidos quanto de pronúncias ou de concordâncias verbais e nominais.
Dupla face
A disputa de sentidos se apresenta com duas caras. Uma delas consiste no fato de que uma parte da sociedade se recusa a empregar uma palavra, enquanto outra faz questão de empregá-la. Por exemplo, petistas não empregam a palavra ‘mensalão’ nem a palavra ‘petrolão’. A ombudsman da Folha de S. Paulo aprovou o emprego desta palavra pelo jornal, alegando que a sociedade a adotara. Ora, é fácil observar que só os adversários do governo (com razão ou não, isso é outro departamento) empregam a palavra; assim como só os adversários do governo de São Paulo empregam ‘trensalão’.
Observe políticos falando de Dilma Rousseff: se disserem ‘presidente’ em vez de ‘presidenta’, é certo que votarão contra suas propostas na próxima ocasião. E vice-versa. Muita gente pensa que se trata de gramáticas. Inocentes, não sabem de nada!
A outra forma da disputa consiste em tentar definir o sentido das palavras. Em coluna recente, mencionei um artigo de jornal de Marcos Troyjo, que propunha uma definição de ‘conservador’ supostamente objetiva (ledo engano!).
Na Folha de S. Paulo de 22/03/2015, há um exemplo que parece menor, mas que, talvez por isso mesmo, é um argumento forte em favor dessa tese. O título da pequena matéria é ‘Paulistanos adotam apelido de ‘coxinha’ com tom político’ (um horror estilístico, mas isso não vem ao caso). Para que o leitor veja o quanto a questão do sentido importa, vale a pena chamar atenção para a afirmação algo paradoxal de que o termo não consta no dicionário, mas pode designar ‘massa frita com recheio de frango desfiado’.
(Dicionários têm políticas próprias para registrar ou não flexões e derivações. O Houaiss eletrônico, por exemplo, não registra ‘coxinha’, mas registra ‘coxa’ e registra ‘-inha’, com a regra de seu emprego). Mas no Google se pode ler tanto sobre o salgado quanto sobre um sentido político ou sociológico da palavra, que designa grupos específicos. Por exemplo, no site Significados.com.br, pode-se ler que: Coxinha é um termo pejorativo usado na gíria e que serve para descrever uma pessoa “certinha”, “arrumadinha”. Tendo a sua origem em São Paulo, a palavra “coxinha” quase sempre tem um sentido depreciativo e indica um indivíduo conservador, que é politicamente correto e que se preocupa em adotar comportamentos que são aceites pela maioria das pessoas.
Não se trata, evidentemente, de um ‘sentido verdadeiro’. É um sentido marcado, talvez pejorativo (depende de como se avalia o conservadorismo, “certinho” e “arrumadinho”).
Mas meu tópico é a disputa de sentidos e seu registro em matéria de jornal, que, basicamente, noticia uma disputa, na verdade, uma tentativa de reverter o sentido pejorativo de ‘coxinha’.
Um jovem citado na matéria, por exemplo, declara que, para ele, a palavra significa “classe média trabalhadora, que não aceita mais essa roubalheira”. Nas redes sociais, informa a mesma matéria, circulam definições como “propenso ao trabalho e ao estudo” e “aquele que dá valor ao mérito”.
Todos os dias se registram sintomas dessa disputa discursiva. Pode parecer pouca coisa, mas é essa disputa que vai definir vencedores e perdedores nas outras disputas, seja por salário, seja por renda, seja por vagas nas universidades ou direito de frequentar shoppings e aeroportos.
Sempre que alguém reivindica o emprego das palavras em seu sentido verdadeiro, o leitor pode apostar: ele acha que o sentido verdadeiro é aquele que ele mesmo lhe atribui.
Muitos pensam que, assim, nunca nos entenderemos. Mas é óbvio que não. Se nos entendêssemos, por que existiria a história de Babel?
(POSSENTI, Sírio. 31 mar. 2015. Disponível em:
<http://observatoriodaimprensa.com.br/ jornal-de-debates/_ed844_disputa_de_sentidos/>. Acesso em: 17 jul. 2015.)
“Na Folha de S. Paulo de 22/03/2015, há um exemplo que parece menor, mas que, talvez por isso mesmo, é um argumento forte em favor dessa tese.”
Considerando-se essa frase, o modo de reescrevê-la que altera o sentido original é:
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Disputa de sentidos
Muita gente pensa que as palavras têm um sentido fixo e verdadeiro. Entre os defensores dessa tese, os mais sofisticados argumentam em nome de um sentido antigo, supostamente originário. Não deixa de estar implícita nessa tese uma generalização dela, segundo a qual antigamente tudo era melhor (do paraíso antes da queda às línguas antes de Babel).
Acontece que nunca houve Éden e que nada se sabe de antes de Babel. O que melhor se pode saber sobre as línguas decorre da observação cotidiana do que fazem com ela os falantes. E o que os falantes mais fazem com ela é puxá-la para seu lado.
Se se quer entender minimamente uma língua, talvez o melhor caminho seja olhá-la com olhos de sociólogo (em vez de consultar uma gramática ou um dicionário): e o que primeiro se vê é que ela não é (nenhuma delas) uniforme – assim como não o é nenhuma sociedade.
É mais comum que se observe a heterogeneidade de uma língua com base na diversidade de sotaques e de construções gramaticais (de que ‘nós vamos’ / ‘nós vai’ pode ser uma espécie de símbolo). Mas há tanta variedade de sentidos quanto de pronúncias ou de concordâncias verbais e nominais.
Dupla face
A disputa de sentidos se apresenta com duas caras. Uma delas consiste no fato de que uma parte da sociedade se recusa a empregar uma palavra, enquanto outra faz questão de empregá-la. Por exemplo, petistas não empregam a palavra ‘mensalão’ nem a palavra ‘petrolão’. A ombudsman da Folha de S. Paulo aprovou o emprego desta palavra pelo jornal, alegando que a sociedade a adotara. Ora, é fácil observar que só os adversários do governo (com razão ou não, isso é outro departamento) empregam a palavra; assim como só os adversários do governo de São Paulo empregam ‘trensalão’.
Observe políticos falando de Dilma Rousseff: se disserem ‘presidente’ em vez de ‘presidenta’, é certo que votarão contra suas propostas na próxima ocasião. E vice-versa. Muita gente pensa que se trata de gramáticas. Inocentes, não sabem de nada!
A outra forma da disputa consiste em tentar definir o sentido das palavras. Em coluna recente, mencionei um artigo de jornal de Marcos Troyjo, que propunha uma definição de ‘conservador’ supostamente objetiva (ledo engano!).
Na Folha de S. Paulo de 22/03/2015, há um exemplo que parece menor, mas que, talvez por isso mesmo, é um argumento forte em favor dessa tese. O título da pequena matéria é ‘Paulistanos adotam apelido de ‘coxinha’ com tom político’ (um horror estilístico, mas isso não vem ao caso). Para que o leitor veja o quanto a questão do sentido importa, vale a pena chamar atenção para a afirmação algo paradoxal de que o termo não consta no dicionário, mas pode designar ‘massa frita com recheio de frango desfiado’.
(Dicionários têm políticas próprias para registrar ou não flexões e derivações. O Houaiss eletrônico, por exemplo, não registra ‘coxinha’, mas registra ‘coxa’ e registra ‘-inha’, com a regra de seu emprego). Mas no Google se pode ler tanto sobre o salgado quanto sobre um sentido político ou sociológico da palavra, que designa grupos específicos. Por exemplo, no site Significados.com.br, pode-se ler que: Coxinha é um termo pejorativo usado na gíria e que serve para descrever uma pessoa “certinha”, “arrumadinha”. Tendo a sua origem em São Paulo, a palavra “coxinha” quase sempre tem um sentido depreciativo e indica um indivíduo conservador, que é politicamente correto e que se preocupa em adotar comportamentos que são aceites pela maioria das pessoas.
Não se trata, evidentemente, de um ‘sentido verdadeiro’. É um sentido marcado, talvez pejorativo (depende de como se avalia o conservadorismo, “certinho” e “arrumadinho”).
Mas meu tópico é a disputa de sentidos e seu registro em matéria de jornal, que, basicamente, noticia uma disputa, na verdade, uma tentativa de reverter o sentido pejorativo de ‘coxinha’.
Um jovem citado na matéria, por exemplo, declara que, para ele, a palavra significa “classe média trabalhadora, que não aceita mais essa roubalheira”. Nas redes sociais, informa a mesma matéria, circulam definições como “propenso ao trabalho e ao estudo” e “aquele que dá valor ao mérito”.
Todos os dias se registram sintomas dessa disputa discursiva. Pode parecer pouca coisa, mas é essa disputa que vai definir vencedores e perdedores nas outras disputas, seja por salário, seja por renda, seja por vagas nas universidades ou direito de frequentar shoppings e aeroportos.
Sempre que alguém reivindica o emprego das palavras em seu sentido verdadeiro, o leitor pode apostar: ele acha que o sentido verdadeiro é aquele que ele mesmo lhe atribui.
Muitos pensam que, assim, nunca nos entenderemos. Mas é óbvio que não. Se nos entendêssemos, por que existiria a história de Babel?
(POSSENTI, Sírio. 31 mar. 2015. Disponível em:
<http://observatoriodaimprensa.com.br/ jornal-de-debates/_ed844_disputa_de_sentidos/>. Acesso em: 17 jul. 2015.)
“Ora, é fácil observar que só os adversários do governo (com razão ou não, isso é outro departamento) empregam a palavra; assim como só os adversários do governo de São Paulo empregam ‘trensalão’.”
No trecho acima, o termo sublinhado refere-se a
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Disputa de sentidos
Muita gente pensa que as palavras têm um sentido fixo e verdadeirob. Entre os defensores dessa tese, os mais sofisticados argumentam em nome de um sentido antigo, supostamente originário. Não deixa de estar implícita nessa tese uma generalização dela, segundo a qual antigamente tudo era melhor (do paraíso antes da queda às línguas antes de Babel).
Acontece que nunca houve Éden e que nada se sabe de antes de Babela. O que melhor se pode saber sobre as línguas decorre da observação cotidiana do que fazem com ela os falantes. E o que os falantes mais fazem com ela é puxá-la para seu lado.
Se se quer entender minimamente uma língua, talvez o melhor caminho seja olhá-la com olhos de sociólogo (em vez de consultar uma gramática ou um dicionário): e o que primeiro se vê é que ela não é (nenhuma delas) uniforme – assim como não o é nenhuma sociedade.
É mais comum que se observe a heterogeneidade de uma língua com base na diversidade de sotaquesd e de construções gramaticais (de que ‘nós vamos’ / ‘nós vai’ pode ser uma espécie de símbolo). Mas há tanta variedade de sentidos quanto de pronúncias ou de concordâncias verbais e nominais.
Dupla face
A disputa de sentidos se apresenta com duas caras. Uma delas consiste no fato de que uma parte da sociedade se recusa a empregar uma palavra, enquanto outra faz questão de empregá-la. Por exemplo, petistas não empregam a palavra ‘mensalão’ nem a palavra ‘petrolão’. A ombudsman da Folha de S. Paulo aprovou o emprego desta palavra pelo jornal, alegando que a sociedade a adotara.e Ora, é fácil observar que só os adversários do governo (com razão ou não, isso é outro departamento) empregam a palavra; assim como só os adversários do governo de São Paulo empregam ‘trensalão’.
Observe políticos falando de Dilma Rousseff: se disserem ‘presidente’ em vez de ‘presidenta’, é certo que votarão contra suas propostas na próxima ocasião. E vice-versa. Muita gente pensa que se trata de gramáticas. Inocentes, não sabem de nada!
A outra forma da disputa consiste em tentar definir o sentido das palavras. Em coluna recente, mencionei um artigo de jornal de Marcos Troyjo, que propunha uma definição de ‘conservador’ supostamente objetiva (ledo engano!).
Na Folha de S. Paulo de 22/03/2015, há um exemplo que parece menor,c mas que, talvez por isso mesmo, é um argumento forte em favor dessa tese. O título da pequena matéria é ‘Paulistanos adotam apelido de ‘coxinha’ com tom político’ (um horror estilístico, mas isso não vem ao caso). Para que o leitor veja o quanto a questão do sentido importa, vale a pena chamar atenção para a afirmação algo paradoxal de que o termo não consta no dicionário, mas pode designar ‘massa frita com recheio de frango desfiado’.
(Dicionários têm políticas próprias para registrar ou não flexões e derivações. O Houaiss eletrônico, por exemplo, não registra ‘coxinha’, mas registra ‘coxa’ e registra ‘-inha’, com a regra de seu emprego). Mas no Google se pode ler tanto sobre o salgado quanto sobre um sentido político ou sociológico da palavra, que designa grupos específicos. Por exemplo, no site Significados.com.br, pode-se ler que: Coxinha é um termo pejorativo usado na gíria e que serve para descrever uma pessoa “certinha”, “arrumadinha”. Tendo a sua origem em São Paulo, a palavra “coxinha” quase sempre tem um sentido depreciativo e indica um indivíduo conservador, que é politicamente correto e que se preocupa em adotar comportamentos que são aceites pela maioria das pessoas.
Não se trata, evidentemente, de um ‘sentido verdadeiro’. É um sentido marcado, talvez pejorativo (depende de como se avalia o conservadorismo, “certinho” e “arrumadinho”).
Mas meu tópico é a disputa de sentidos e seu registro em matéria de jornal, que, basicamente, noticia uma disputa, na verdade, uma tentativa de reverter o sentido pejorativo de ‘coxinha’.
Um jovem citado na matéria, por exemplo, declara que, para ele, a palavra significa “classe média trabalhadora, que não aceita mais essa roubalheira”. Nas redes sociais, informa a mesma matéria, circulam definições como “propenso ao trabalho e ao estudo” e “aquele que dá valor ao mérito”.
Todos os dias se registram sintomas dessa disputa discursiva. Pode parecer pouca coisa, mas é essa disputa que vai definir vencedores e perdedores nas outras disputas, seja por salário, seja por renda, seja por vagas nas universidades ou direito de frequentar shoppings e aeroportos.
Sempre que alguém reivindica o emprego das palavras em seu sentido verdadeiro, o leitor pode apostar: ele acha que o sentido verdadeiro é aquele que ele mesmo lhe atribui.
Muitos pensam que, assim, nunca nos entenderemos. Mas é óbvio que não. Se nos entendêssemos, por que existiria a história de Babel?
(POSSENTI, Sírio. 31 mar. 2015. Disponível em:
<http://observatoriodaimprensa.com.br/ jornal-de-debates/_ed844_disputa_de_sentidos/>. Acesso em: 17 jul. 2015.)
“Pode parecer pouca coisa, mas é essa disputa que vai definir vencedores e perdedores nas outras disputas, seja por salário, seja por renda, seja por vagas nas universidades ou direito de frequentar shoppings e aeroportos.”
A palavra sublinhada no trecho acima apresenta o mesmo emprego e valor em:
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