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Considere o texto abaixo para responder à questão.
Elas ergueram quatro Copas do Mundo. Eles nenhuma. Elas ganharam quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas. Eles duas, mas de prata e bronze. E em 1904. As diferenças também são absurdas nos salários: as jogadoras da liga profissional dos Estados Unidos têm salário mínimo de 16.538 dólares (61.800 reais). Eles de 70.250 (262.000 reais). Essa desigualdade, tão assumida em outros países, não é vivida com a mesma naturalidade em uma nação em que quase o mesmo número de mulheres e homens joga futebol no colégio. Por isso, quando as campeãs da Copa da França levantaram a taça, as aproximadamente 60.000 vozes no estádio de Lyon comemoraram gritando “Equal pay! Equal pay! Equal pay!” (igualdade salarial, igualdade salarial). O assunto já está nos tribunais. Em 8 de março, o dia internacional da mulher, as 28 jogadoras da Seleção processaram seu empregador, a Federação Nacional de Futebol (USSF), por discriminação de gênero.
A Federação norte-americana alega que as equipes têm obrigações diferentes e que as compensações são tão distintas que não podem ser comparadas. Uma das diferenças, por exemplo, é que os homens recebem pagamento de 17.000 dólares (63.000 reais) por ganhar um amistoso contra uma equipe do Top 10. As mulheres, por sua vez, recebem bônus de 8.000 (30.000 reais) somente se ganharem das quatro melhores. O sistema é tão complexo que, de fato, é difícil detalhar o que cada um ganha, mas todos os dados conhecidos revelam o abismo que as separa. Na Copa do Brasil em 2014 — a última disputada pela seleção masculina dos EUA — a Federação deu à equipe um bônus de 5,4 milhões de dólares (20 milhões de reais) após ser eliminada nas oitavas de final. Quando o feminino se consagrou campeão na final da Copa do Canadá em 2015, o jogo de futebol mais visto na história da televisão norte-americana, receberam bonificação de 1,72 milhão (6,5 milhões de reais).
Fonte: Antonia Laborde. “Desigualdade salarial, explicada pelo futebol feminino dos EUA”. brasil.elpais.com, 14.07.2019. Adaptado.
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Considere o texto abaixo para responder à questão.
Elas ergueram quatro Copas do Mundo. Eles nenhuma. Elas ganharam quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas. Eles duas, mas de prata e bronze. E em 1904. As diferenças também são absurdas nos salários: as jogadoras da liga profissional dos Estados Unidos têm salário mínimo de 16.538 dólares (61.800 reais). Eles de 70.250 (262.000 reais). Essa desigualdade, tão assumida em outros países, não é vivida com a mesma naturalidade em uma nação em que quase o mesmo número de mulheres e homens joga futebol no colégio. Por isso, quando as campeãs da Copa da França levantaram a taça, as aproximadamente 60.000 vozes no estádio de Lyon comemoraram gritando “Equal pay! Equal pay! Equal pay!” (igualdade salarial, igualdade salarial). O assunto já está nos tribunais. Em 8 de março, o dia internacional da mulher, as 28 jogadoras da Seleção processaram seu empregador, a Federação Nacional de Futebol (USSF), por discriminação de gênero.
A Federação norte-americana alega que as equipes têm obrigações diferentes e que as compensações são tão distintas que não podem ser comparadas. Uma das diferenças, por exemplo, é que os homens recebem pagamento de 17.000 dólares (63.000 reais) por ganhar um amistoso contra uma equipe do Top 10. As mulheres, por sua vez, recebem bônus de 8.000 (30.000 reais) somente se ganharem das quatro melhores. O sistema é tão complexo que, de fato, é difícil detalhar o que cada um ganha, mas todos os dados conhecidos revelam o abismo que as separa. Na Copa do Brasil em 2014 — a última disputada pela seleção masculina dos EUA — a Federação deu à equipe um bônus de 5,4 milhões de dólares (20 milhões de reais) após ser eliminada nas oitavas de final. Quando o feminino se consagrou campeão na final da Copa do Canadá em 2015, o jogo de futebol mais visto na história da televisão norte-americana, receberam bonificação de 1,72 milhão (6,5 milhões de reais).
Fonte: Antonia Laborde. “Desigualdade salarial, explicada pelo futebol feminino dos EUA”. brasil.elpais.com, 14.07.2019. Adaptado.
A partir da leitura do fragmento retirado do texto, analise as afirmações a seguir:
I. O segmento “— a última disputada pela seleção masculina dos EUA —” é um aposto explicativo que acrescenta uma informação acessória sobre o substantivo “Copa do Brasil”.
II. A oração “Quando o feminino se consagrou campeão na final da Copa do Canadá em 2015” exerce valor temporal, indicando o momento em que ocorreu a ação principal.
III. O sintagma “o jogo de futebol mais visto na história da televisão norte-americana” funciona como predicativo do sujeito “feminino”, atribuindo-lhe uma característica.
Assinale a alternativa CORRETA:
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Considere o texto abaixo para responder à questão.
Elas ergueram quatro Copas do Mundo. Eles nenhuma. Elas ganharam quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas. Eles duas, mas de prata e bronze. E em 1904. As diferenças também são absurdas nos salários: as jogadoras da liga profissional dos Estados Unidos têm salário mínimo de 16.538 dólares (61.800 reais). Eles de 70.250 (262.000 reais). Essa desigualdade, tão assumida em outros países, não é vivida com a mesma naturalidade em uma nação em que quase o mesmo número de mulheres e homens joga futebol no colégio. Por isso, quando as campeãs da Copa da França levantaram a taça, as aproximadamente 60.000 vozes no estádio de Lyon comemoraram gritando “Equal pay! Equal pay! Equal pay!” (igualdade salarial, igualdade salarial). O assunto já está nos tribunais. Em 8 de março, o dia internacional da mulher, as 28 jogadoras da Seleção processaram seu empregador, a Federação Nacional de Futebol (USSF), por discriminação de gênero.
A Federação norte-americana alega que as equipes têm obrigações diferentes e que as compensações são tão distintas que não podem ser comparadas. Uma das diferenças, por exemplo, é que os homens recebem pagamento de 17.000 dólares (63.000 reais) por ganhar um amistoso contra uma equipe do Top 10. As mulheres, por sua vez, recebem bônus de 8.000 (30.000 reais) somente se ganharem das quatro melhores. O sistema é tão complexo que, de fato, é difícil detalhar o que cada um ganha, mas todos os dados conhecidos revelam o abismo que as separa. Na Copa do Brasil em 2014 — a última disputada pela seleção masculina dos EUA — a Federação deu à equipe um bônus de 5,4 milhões de dólares (20 milhões de reais) após ser eliminada nas oitavas de final. Quando o feminino se consagrou campeão na final da Copa do Canadá em 2015, o jogo de futebol mais visto na história da televisão norte-americana, receberam bonificação de 1,72 milhão (6,5 milhões de reais).
Fonte: Antonia Laborde. “Desigualdade salarial, explicada pelo futebol feminino dos EUA”. brasil.elpais.com, 14.07.2019. Adaptado.
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Nos achamos tão livres como donos de tablets e celulares, vamos a qualquer lugar
na internet, lutamos pelas causas mesmo de países do outro lado do planeta, participamos
de protestos globais e mal percebemos que criamos uma pós-submissão. Ou um tipo mais
perigoso e insidioso de submissão. Temos nos esforçado livremente e com grande afinco
para alcançar a meta de trabalhar 24×7. Vinte e quatro horas por sete dias da semana.
Nenhum capitalista havia sonhado tanto. O chefe nos alcança em qualquer lugar, a
qualquer hora. O expediente nunca mais acaba. Já não há espaço de trabalho e espaço de
lazer, não há nem mesmo casa. Tudo se confunde. A internet foi usada para borrar as
fronteiras também do mundo interno, que agora é um fora. Estamos sempre, de algum
modo, trabalhando, fazendo networking, debatendo (ou brigando), intervindo, tentando
não perder nada, principalmente a notícia ordinária. Consumimo-nos animadamente, ao
ritmo de emoticons. E, assim, perdemos só a alma. E alcançamos uma façanha inédita:
ser senhor e escravo ao mesmo tempo.
Como na época da aceleração os anos já não começam nem terminam, apenas se
emendam, tanto quanto os meses e como os dias, a metade de 2016 chegou quando parecia
que ainda era março. Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e
correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-ecorrendo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição
humana um corpo humano não aguenta. O corpo então virou um atrapalho, um apêndice
incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim
dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não
humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque só dopados para continuar
exaustos-e-correndo. Pelo menos até conseguirmos nos livrar desse corpo que se tornou uma barreira. O problema é que o corpo não é um outro, o corpo é o que chamamos de
eu. O corpo não é limite, mas a própria condição. O corpo é.
Os cliques da internet tornaram-se os remos das antigas galés. Remem remem
remem. Cliquem cliquem cliquem para não ficar para trás e morrer. Mas o presente, nessa
velocidade, é um pretérito contínuo. Se a internet parece ter encolhido o mundo, e
milhares de quilômetros podem ser reduzidos a um clique, como diz o clichê e alguns
anúncios publicitários, nosso mundo interno ficou a oceanos de nós. Conectados ao
planeta inteiro, estamos desconectados do eu e também do outro. Incapazes da alteridade,
o outro se tornou alguém a ser destruído, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito,
mas sozinhos. Escassas são as conversas, a rede tornou-se em parte um interminável
discurso autorreferente, um delírio narcisista. E narciso é um eu sem eu. Porque para
existir eu é preciso o outro.
Há tanta informação disponível, mas talvez estejamos nos imbecilizando. Porque
nos falta contemplação, nos falta o vazio que impele à criação, nos falta silêncios. Nos
falta até o tédio. Sem experiência não há conhecimento. E talvez uma parcela do ativismo
seja uma ilusão de ativismo, porque sem o outro. Talvez parte do que acreditamos ser
ativismo seja, ao contrário, passividade. Um novo tipo de passividade, cheia de gritos, de
certezas e de pontos de exclamação. [...].
Fonte: BRUM, Eliane. Exaustos-e-correndo-e-dopados. El País Brasil, 4 jul. 2016.
Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/04/politica/1467642464_246482.html. Acesso em: 20 ago.
2025
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Nos achamos tão livres como donos de tablets e celulares, vamos a qualquer lugar
na internet, lutamos pelas causas mesmo de países do outro lado do planeta, participamos
de protestos globais e mal percebemos que criamos uma pós-submissão. Ou um tipo mais
perigoso e insidioso de submissão. Temos nos esforçado livremente e com grande afinco
para alcançar a meta de trabalhar 24×7. Vinte e quatro horas por sete dias da semana.
Nenhum capitalista havia sonhado tanto. O chefe nos alcança em qualquer lugar, a
qualquer hora. O expediente nunca mais acaba. Já não há espaço de trabalho e espaço de
lazer, não há nem mesmo casa. Tudo se confunde. A internet foi usada para borrar as
fronteiras também do mundo interno, que agora é um fora. Estamos sempre, de algum
modo, trabalhando, fazendo networking, debatendo (ou brigando), intervindo, tentando
não perder nada, principalmente a notícia ordinária. Consumimo-nos animadamente, ao
ritmo de emoticons. E, assim, perdemos só a alma. E alcançamos uma façanha inédita:
ser senhor e escravo ao mesmo tempo.
Como na época da aceleração os anos já não começam nem terminam, apenas se
emendam, tanto quanto os meses e como os dias, a metade de 2016 chegou quando parecia
que ainda era março. Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e
correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-ecorrendo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição
humana um corpo humano não aguenta. O corpo então virou um atrapalho, um apêndice
incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim
dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não
humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque só dopados para continuar
exaustos-e-correndo. Pelo menos até conseguirmos nos livrar desse corpo que se tornou uma barreira. O problema é que o corpo não é um outro, o corpo é o que chamamos de
eu. O corpo não é limite, mas a própria condição. O corpo é.
Os cliques da internet tornaram-se os remos das antigas galés. Remem remem
remem. Cliquem cliquem cliquem para não ficar para trás e morrer. Mas o presente, nessa
velocidade, é um pretérito contínuo. Se a internet parece ter encolhido o mundo, e
milhares de quilômetros podem ser reduzidos a um clique, como diz o clichê e alguns
anúncios publicitários, nosso mundo interno ficou a oceanos de nós. Conectados ao
planeta inteiro, estamos desconectados do eu e também do outro. Incapazes da alteridade,
o outro se tornou alguém a ser destruído, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito,
mas sozinhos. Escassas são as conversas, a rede tornou-se em parte um interminável
discurso autorreferente, um delírio narcisista. E narciso é um eu sem eu. Porque para
existir eu é preciso o outro.
Há tanta informação disponível, mas talvez estejamos nos imbecilizando. Porque
nos falta contemplação, nos falta o vazio que impele à criação, nos falta silêncios. Nos
falta até o tédio. Sem experiência não há conhecimento. E talvez uma parcela do ativismo
seja uma ilusão de ativismo, porque sem o outro. Talvez parte do que acreditamos ser
ativismo seja, ao contrário, passividade. Um novo tipo de passividade, cheia de gritos, de
certezas e de pontos de exclamação. [...].
Fonte: BRUM, Eliane. Exaustos-e-correndo-e-dopados. El País Brasil, 4 jul. 2016.
Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/04/politica/1467642464_246482.html. Acesso em: 20 ago.
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Nos achamos tão livres como donos de tablets e celulares, vamos a qualquer lugar
na internet, lutamos pelas causas mesmo de países do outro lado do planeta, participamos
de protestos globais e mal percebemos que criamos uma pós-submissão. Ou um tipo mais
perigoso e insidioso de submissão. Temos nos esforçado livremente e com grande afinco
para alcançar a meta de trabalhar 24×7. Vinte e quatro horas por sete dias da semana.
Nenhum capitalista havia sonhado tanto. O chefe nos alcança em qualquer lugar, a
qualquer hora. O expediente nunca mais acaba. Já não há espaço de trabalho e espaço de
lazer, não há nem mesmo casa. Tudo se confunde. A internet foi usada para borrar as
fronteiras também do mundo interno, que agora é um fora. Estamos sempre, de algum
modo, trabalhando, fazendo networking, debatendo (ou brigando), intervindo, tentando
não perder nada, principalmente a notícia ordinária. Consumimo-nos animadamente, ao
ritmo de emoticons. E, assim, perdemos só a alma. E alcançamos uma façanha inédita:
ser senhor e escravo ao mesmo tempo.
Como na época da aceleração os anos já não começam nem terminam, apenas se
emendam, tanto quanto os meses e como os dias, a metade de 2016 chegou quando parecia
que ainda era março. Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e
correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-ecorrendo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição
humana um corpo humano não aguenta. O corpo então virou um atrapalho, um apêndice
incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim
dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não
humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque só dopados para continuar
exaustos-e-correndo. Pelo menos até conseguirmos nos livrar desse corpo que se tornou uma barreira. O problema é que o corpo não é um outro, o corpo é o que chamamos de
eu. O corpo não é limite, mas a própria condição. O corpo é.
Os cliques da internet tornaram-se os remos das antigas galés. Remem remem
remem. Cliquem cliquem cliquem para não ficar para trás e morrer. Mas o presente, nessa
velocidade, é um pretérito contínuo. Se a internet parece ter encolhido o mundo, e
milhares de quilômetros podem ser reduzidos a um clique, como diz o clichê e alguns
anúncios publicitários, nosso mundo interno ficou a oceanos de nós. Conectados ao
planeta inteiro, estamos desconectados do eu e também do outro. Incapazes da alteridade,
o outro se tornou alguém a ser destruído, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito,
mas sozinhos. Escassas são as conversas, a rede tornou-se em parte um interminável
discurso autorreferente, um delírio narcisista. E narciso é um eu sem eu. Porque para
existir eu é preciso o outro.
Há tanta informação disponível, mas talvez estejamos nos imbecilizando. Porque
nos falta contemplação, nos falta o vazio que impele à criação, nos falta silêncios. Nos
falta até o tédio. Sem experiência não há conhecimento. E talvez uma parcela do ativismo
seja uma ilusão de ativismo, porque sem o outro. Talvez parte do que acreditamos ser
ativismo seja, ao contrário, passividade. Um novo tipo de passividade, cheia de gritos, de
certezas e de pontos de exclamação. [...].
Fonte: BRUM, Eliane. Exaustos-e-correndo-e-dopados. El País Brasil, 4 jul. 2016.
Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/04/politica/1467642464_246482.html. Acesso em: 20 ago.
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na internet, lutamos pelas causas mesmo de países do outro lado do planeta, participamos
de protestos globais e mal percebemos que criamos uma pós-submissão. Ou um tipo mais
perigoso e insidioso de submissão. Temos nos esforçado livremente e com grande afinco
para alcançar a meta de trabalhar 24×7. Vinte e quatro horas por sete dias da semana.
Nenhum capitalista havia sonhado tanto. O chefe nos alcança em qualquer lugar, a
qualquer hora. O expediente nunca mais acaba. Já não há espaço de trabalho e espaço de
lazer, não há nem mesmo casa. Tudo se confunde. A internet foi usada para borrar as
fronteiras também do mundo interno, que agora é um fora. Estamos sempre, de algum
modo, trabalhando, fazendo networking, debatendo (ou brigando), intervindo, tentando
não perder nada, principalmente a notícia ordinária. Consumimo-nos animadamente, ao
ritmo de emoticons. E, assim, perdemos só a alma. E alcançamos uma façanha inédita:
ser senhor e escravo ao mesmo tempo.
Como na época da aceleração os anos já não começam nem terminam, apenas se
emendam, tanto quanto os meses e como os dias, a metade de 2016 chegou quando parecia
que ainda era março. Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e
correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-ecorrendo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição
humana um corpo humano não aguenta. O corpo então virou um atrapalho, um apêndice
incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim
dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não
humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque só dopados para continuar
exaustos-e-correndo. Pelo menos até conseguirmos nos livrar desse corpo que se tornou uma barreira. O problema é que o corpo não é um outro, o corpo é o que chamamos de
eu. O corpo não é limite, mas a própria condição. O corpo é.
Os cliques da internet tornaram-se os remos das antigas galés. Remem remem
remem. Cliquem cliquem cliquem para não ficar para trás e morrer. Mas o presente, nessa
velocidade, é um pretérito contínuo. Se a internet parece ter encolhido o mundo, e
milhares de quilômetros podem ser reduzidos a um clique, como diz o clichê e alguns
anúncios publicitários, nosso mundo interno ficou a oceanos de nós. Conectados ao
planeta inteiro, estamos desconectados do eu e também do outro. Incapazes da alteridade,
o outro se tornou alguém a ser destruído, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito,
mas sozinhos. Escassas são as conversas, a rede tornou-se em parte um interminável
discurso autorreferente, um delírio narcisista. E narciso é um eu sem eu. Porque para
existir eu é preciso o outro.
Há tanta informação disponível, mas talvez estejamos nos imbecilizando. Porque
nos falta contemplação, nos falta o vazio que impele à criação, nos falta silêncios. Nos
falta até o tédio. Sem experiência não há conhecimento. E talvez uma parcela do ativismo
seja uma ilusão de ativismo, porque sem o outro. Talvez parte do que acreditamos ser
ativismo seja, ao contrário, passividade. Um novo tipo de passividade, cheia de gritos, de
certezas e de pontos de exclamação. [...].
Fonte: BRUM, Eliane. Exaustos-e-correndo-e-dopados. El País Brasil, 4 jul. 2016.
Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/04/politica/1467642464_246482.html. Acesso em: 20 ago.
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de protestos globais e mal percebemos que criamos uma pós-submissão. Ou um tipo mais
perigoso e insidioso de submissão. Temos nos esforçado livremente e com grande afinco
para alcançar a meta de trabalhar 24×7. Vinte e quatro horas por sete dias da semana.
Nenhum capitalista havia sonhado tanto. O chefe nos alcança em qualquer lugar, a
qualquer hora. O expediente nunca mais acaba. Já não há espaço de trabalho e espaço de
lazer, não há nem mesmo casa. Tudo se confunde. A internet foi usada para borrar as
fronteiras também do mundo interno, que agora é um fora. Estamos sempre, de algum
modo, trabalhando, fazendo networking, debatendo (ou brigando), intervindo, tentando
não perder nada, principalmente a notícia ordinária. Consumimo-nos animadamente, ao
ritmo de emoticons. E, assim, perdemos só a alma. E alcançamos uma façanha inédita:
ser senhor e escravo ao mesmo tempo.
Como na época da aceleração os anos já não começam nem terminam, apenas se
emendam, tanto quanto os meses e como os dias, a metade de 2016 chegou quando parecia
que ainda era março. Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e
correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-ecorrendo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição
humana um corpo humano não aguenta. O corpo então virou um atrapalho, um apêndice
incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim
dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não
humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque só dopados para continuar
exaustos-e-correndo. Pelo menos até conseguirmos nos livrar desse corpo que se tornou uma barreira. O problema é que o corpo não é um outro, o corpo é o que chamamos de
eu. O corpo não é limite, mas a própria condição. O corpo é.
Os cliques da internet tornaram-se os remos das antigas galés. Remem remem
remem. Cliquem cliquem cliquem para não ficar para trás e morrer. Mas o presente, nessa
velocidade, é um pretérito contínuo. Se a internet parece ter encolhido o mundo, e
milhares de quilômetros podem ser reduzidos a um clique, como diz o clichê e alguns
anúncios publicitários, nosso mundo interno ficou a oceanos de nós. Conectados ao
planeta inteiro, estamos desconectados do eu e também do outro. Incapazes da alteridade,
o outro se tornou alguém a ser destruído, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito,
mas sozinhos. Escassas são as conversas, a rede tornou-se em parte um interminável
discurso autorreferente, um delírio narcisista. E narciso é um eu sem eu. Porque para
existir eu é preciso o outro.
Há tanta informação disponível, mas talvez estejamos nos imbecilizando. Porque
nos falta contemplação, nos falta o vazio que impele à criação, nos falta silêncios. Nos
falta até o tédio. Sem experiência não há conhecimento. E talvez uma parcela do ativismo
seja uma ilusão de ativismo, porque sem o outro. Talvez parte do que acreditamos ser
ativismo seja, ao contrário, passividade. Um novo tipo de passividade, cheia de gritos, de
certezas e de pontos de exclamação. [...].
Fonte: BRUM, Eliane. Exaustos-e-correndo-e-dopados. El País Brasil, 4 jul. 2016.
Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/04/politica/1467642464_246482.html. Acesso em: 20 ago.
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de protestos globais e mal percebemos que criamos uma pós-submissão. Ou um tipo mais
perigoso e insidioso de submissão. Temos nos esforçado livremente e com grande afinco
para alcançar a meta de trabalhar 24×7. Vinte e quatro horas por sete dias da semana.
Nenhum capitalista havia sonhado tanto. O chefe nos alcança em qualquer lugar, a
qualquer hora. O expediente nunca mais acaba. Já não há espaço de trabalho e espaço de
lazer, não há nem mesmo casa. Tudo se confunde. A internet foi usada para borrar as
fronteiras também do mundo interno, que agora é um fora. Estamos sempre, de algum
modo, trabalhando, fazendo networking, debatendo (ou brigando), intervindo, tentando
não perder nada, principalmente a notícia ordinária. Consumimo-nos animadamente, ao
ritmo de emoticons. E, assim, perdemos só a alma. E alcançamos uma façanha inédita:
ser senhor e escravo ao mesmo tempo.
Como na época da aceleração os anos já não começam nem terminam, apenas se
emendam, tanto quanto os meses e como os dias, a metade de 2016 chegou quando parecia
que ainda era março. Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e
correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-ecorrendo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição
humana um corpo humano não aguenta. O corpo então virou um atrapalho, um apêndice
incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim
dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não
humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque só dopados para continuar
exaustos-e-correndo. Pelo menos até conseguirmos nos livrar desse corpo que se tornou uma barreira. O problema é que o corpo não é um outro, o corpo é o que chamamos de
eu. O corpo não é limite, mas a própria condição. O corpo é.
Os cliques da internet tornaram-se os remos das antigas galés. Remem remem
remem. Cliquem cliquem cliquem para não ficar para trás e morrer. Mas o presente, nessa
velocidade, é um pretérito contínuo. Se a internet parece ter encolhido o mundo, e
milhares de quilômetros podem ser reduzidos a um clique, como diz o clichê e alguns
anúncios publicitários, nosso mundo interno ficou a oceanos de nós. Conectados ao
planeta inteiro, estamos desconectados do eu e também do outro. Incapazes da alteridade,
o outro se tornou alguém a ser destruído, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito,
mas sozinhos. Escassas são as conversas, a rede tornou-se em parte um interminável
discurso autorreferente, um delírio narcisista. E narciso é um eu sem eu. Porque para
existir eu é preciso o outro.
Há tanta informação disponível, mas talvez estejamos nos imbecilizando. Porque
nos falta contemplação, nos falta o vazio que impele à criação, nos falta silêncios. Nos
falta até o tédio. Sem experiência não há conhecimento. E talvez uma parcela do ativismo
seja uma ilusão de ativismo, porque sem o outro. Talvez parte do que acreditamos ser
ativismo seja, ao contrário, passividade. Um novo tipo de passividade, cheia de gritos, de
certezas e de pontos de exclamação. [...].
Fonte: BRUM, Eliane. Exaustos-e-correndo-e-dopados. El País Brasil, 4 jul. 2016.
Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/04/politica/1467642464_246482.html. Acesso em: 20 ago.
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Nos achamos tão livres como donos de tablets e celulares, vamos a qualquer lugar
na internet, lutamos pelas causas mesmo de países do outro lado do planeta, participamos
de protestos globais e mal percebemos que criamos uma pós-submissão. Ou um tipo mais
perigoso e insidioso de submissão. Temos nos esforçado livremente e com grande afinco
para alcançar a meta de trabalhar 24×7. Vinte e quatro horas por sete dias da semana.
Nenhum capitalista havia sonhado tanto. O chefe nos alcança em qualquer lugar, a
qualquer hora. O expediente nunca mais acaba. Já não há espaço de trabalho e espaço de
lazer, não há nem mesmo casa. Tudo se confunde. A internet foi usada para borrar as
fronteiras também do mundo interno, que agora é um fora. Estamos sempre, de algum
modo, trabalhando, fazendo networking, debatendo (ou brigando), intervindo, tentando
não perder nada, principalmente a notícia ordinária. Consumimo-nos animadamente, ao
ritmo de emoticons. E, assim, perdemos só a alma. E alcançamos uma façanha inédita:
ser senhor e escravo ao mesmo tempo.
Como na época da aceleração os anos já não começam nem terminam, apenas se
emendam, tanto quanto os meses e como os dias, a metade de 2016 chegou quando parecia
que ainda era março. Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e
correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-ecorrendo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição
humana um corpo humano não aguenta. O corpo então virou um atrapalho, um apêndice
incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim
dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não
humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque só dopados para continuar
exaustos-e-correndo. Pelo menos até conseguirmos nos livrar desse corpo que se tornou uma barreira. O problema é que o corpo não é um outro, o corpo é o que chamamos de
eu. O corpo não é limite, mas a própria condição. O corpo é.
Os cliques da internet tornaram-se os remos das antigas galés. Remem remem
remem. Cliquem cliquem cliquem para não ficar para trás e morrer. Mas o presente, nessa
velocidade, é um pretérito contínuo. Se a internet parece ter encolhido o mundo, e
milhares de quilômetros podem ser reduzidos a um clique, como diz o clichê e alguns
anúncios publicitários, nosso mundo interno ficou a oceanos de nós. Conectados ao
planeta inteiro, estamos desconectados do eu e também do outro. Incapazes da alteridade,
o outro se tornou alguém a ser destruído, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito,
mas sozinhos. Escassas são as conversas, a rede tornou-se em parte um interminável
discurso autorreferente, um delírio narcisista. E narciso é um eu sem eu. Porque para
existir eu é preciso o outro.
Há tanta informação disponível, mas talvez estejamos nos imbecilizando. Porque
nos falta contemplação, nos falta o vazio que impele à criação, nos falta silêncios. Nos
falta até o tédio. Sem experiência não há conhecimento. E talvez uma parcela do ativismo
seja uma ilusão de ativismo, porque sem o outro. Talvez parte do que acreditamos ser
ativismo seja, ao contrário, passividade. Um novo tipo de passividade, cheia de gritos, de
certezas e de pontos de exclamação. [...].
Fonte: BRUM, Eliane. Exaustos-e-correndo-e-dopados. El País Brasil, 4 jul. 2016.
Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/04/politica/1467642464_246482.html. Acesso em: 20 ago.
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