Foram encontradas 480 questões.
Instrução: Leia o texto a seguir para responder à questão.
MOTIVO
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço
(Mia Couto)
Meu filho chegou da escola mais contente hoje. Não tem sido assim. Desde que mudamos de cidade e de
escola, é uma queixa atrás da outra.
Um colega empurra, outro debocha, outro se junta com outro e brinca de repórter de TV pra gravar a fala
dele. Coração de mãe, você já sabe. Tenho vontade de ir lá e rufar a mão na cara da molecada. Falo com a
diretora, entendo que as crianças são danadas, que revidar não é o melhor caminho, que é preciso uma
orientação adequada.
Em casa faço o que posso. Escuto meu filho, aconselho, digo que o melhor a fazer é não dar tanta bola pra
isso. Vai saber o motivo de esses meninos serem tão agressivos. Vai ver são maltratados em casa. Conto que
minha mãe, no meu tempo, nem me escutava.
Eu tentava dizer alguma coisa e ela: não me venha com queixa. Não repito o procedimento. Acredito que
muita coisa pode melhorar com a força de uma boa palavra.
Depois de algum tempo, de muita conversa e idas e vindas à escola, finalmente chegou o dia em que ele se
sentiu mais ambientado, mais feliz.
Reparei, no final da tarde, naquele intervalo em que ficam brincando antes de virem pra casa, que o
grupinho de uns três se fortalecia. Falei. Eu já sei por que você acabou tendo mais afinidade com o Vinícius
e o Julio. Porque, coincidentemente, vocês três são filhos únicos, a falta de um irmãozinho a gente acaba
compensando com o colega, não é mesmo?
A reposta que veio a seguir me arrebentou por dentro. Ainda teria muito por fazer.
— Não, mamãe, nós três ficamos amigos porque somos os três da sala que
têm defeito.
— Como assim, defeito?
— Sim, o Vinícius é gordo, o Julio é negro e eu sou gago.
(COCCO, Marta H. Não presta pra nada. Carlini & Caniato: Cuiabá-MT, 2016.)
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MOTIVO
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço
(Mia Couto)
Meu filho chegou da escola mais contente hoje. Não tem sido assim. Desde que mudamos de cidade e de
escola, é uma queixa atrás da outra.
Um colega empurra, outro debocha, outro se junta com outro e brinca de repórter de TV pra gravar a fala
dele. Coração de mãe, você já sabe. Tenho vontade de ir lá e rufar a mão na cara da molecada. Falo com a
diretora, entendo que as crianças são danadas, que revidar não é o melhor caminho, que é preciso uma
orientação adequada.
Em casa faço o que posso. Escuto meu filho, aconselho, digo que o melhor a fazer é não dar tanta bola pra
isso. Vai saber o motivo de esses meninos serem tão agressivos. Vai ver são maltratados em casa. Conto que
minha mãe, no meu tempo, nem me escutava.
Eu tentava dizer alguma coisa e ela: não me venha com queixa. Não repito o procedimento. Acredito que
muita coisa pode melhorar com a força de uma boa palavra.
Depois de algum tempo, de muita conversa e idas e vindas à escola, finalmente chegou o dia em que ele se
sentiu mais ambientado, mais feliz.
Reparei, no final da tarde, naquele intervalo em que ficam brincando antes de virem pra casa, que o
grupinho de uns três se fortalecia. Falei. Eu já sei por que você acabou tendo mais afinidade com o Vinícius
e o Julio. Porque, coincidentemente, vocês três são filhos únicos, a falta de um irmãozinho a gente acaba
compensando com o colega, não é mesmo?
A reposta que veio a seguir me arrebentou por dentro. Ainda teria muito por fazer.
— Não, mamãe, nós três ficamos amigos porque somos os três da sala que
têm defeito.
— Como assim, defeito?
— Sim, o Vinícius é gordo, o Julio é negro e eu sou gago.
(COCCO, Marta H. Não presta pra nada. Carlini & Caniato: Cuiabá-MT, 2016.)
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MOTIVO
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço
(Mia Couto)
Meu filho chegou da escola mais contente hoje. Não tem sido assim. Desde que mudamos de cidade e de
escola, é uma queixa atrás da outra.
Um colega empurra, outro debocha, outro se junta com outro e brinca de repórter de TV pra gravar a fala
dele. Coração de mãe, você já sabe. Tenho vontade de ir lá e rufar a mão na cara da molecada. Falo com a
diretora, entendo que as crianças são danadas, que revidar não é o melhor caminho, que é preciso uma
orientação adequada.
Em casa faço o que posso. Escuto meu filho, aconselho, digo que o melhor a fazer é não dar tanta bola pra
isso. Vai saber o motivo de esses meninos serem tão agressivos. Vai ver são maltratados em casa. Conto que
minha mãe, no meu tempo, nem me escutava.
Eu tentava dizer alguma coisa e ela: não me venha com queixa. Não repito o procedimento. Acredito que
muita coisa pode melhorar com a força de uma boa palavra.
Depois de algum tempo, de muita conversa e idas e vindas à escola, finalmente chegou o dia em que ele se
sentiu mais ambientado, mais feliz.
Reparei, no final da tarde, naquele intervalo em que ficam brincando antes de virem pra casa, que o
grupinho de uns três se fortalecia. Falei. Eu já sei por que você acabou tendo mais afinidade com o Vinícius
e o Julio. Porque, coincidentemente, vocês três são filhos únicos, a falta de um irmãozinho a gente acaba
compensando com o colega, não é mesmo?
A reposta que veio a seguir me arrebentou por dentro. Ainda teria muito por fazer.
— Não, mamãe, nós três ficamos amigos porque somos os três da sala que
têm defeito.
— Como assim, defeito?
— Sim, o Vinícius é gordo, o Julio é negro e eu sou gago.
(COCCO, Marta H. Não presta pra nada. Carlini & Caniato: Cuiabá-MT, 2016.)
I. “Motivo” é um pequeno texto do gênero ‘conto’ em que se pode observar as características: introdução, clímax, espaço e desfecho.
II. O texto tem esse título porque a mãe descobre o motivo que levou filho a fazer novos amigos.
III. Pode-se inferir do texto que os meninos eram “diferentes” dos demais colegas, sofriam pelos mesmos motivos de discriminação.
IV. O trecho Ainda teria muito por fazer refere-se à diretora da escola.
Está correto o que se afirma em
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No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço
(Mia Couto)
Meu filho chegou da escola mais contente hoje. Não tem sido assim. Desde que mudamos de cidade e de
escola, é uma queixa atrás da outra.
Um colega empurra, outro debocha, outro se junta com outro e brinca de repórter de TV pra gravar a fala
dele. Coração de mãe, você já sabe. Tenho vontade de ir lá e rufar a mão na cara da molecada. Falo com a
diretora, entendo que as crianças são danadas, que revidar não é o melhor caminho, que é preciso uma
orientação adequada.
Em casa faço o que posso. Escuto meu filho, aconselho, digo que o melhor a fazer é não dar tanta bola pra
isso. Vai saber o motivo de esses meninos serem tão agressivos. Vai ver são maltratados em casa. Conto que
minha mãe, no meu tempo, nem me escutava.
Eu tentava dizer alguma coisa e ela: não me venha com queixa. Não repito o procedimento. Acredito que
muita coisa pode melhorar com a força de uma boa palavra.
Depois de algum tempo, de muita conversa e idas e vindas à escola, finalmente chegou o dia em que ele se
sentiu mais ambientado, mais feliz.
Reparei, no final da tarde, naquele intervalo em que ficam brincando antes de virem pra casa, que o
grupinho de uns três se fortalecia. Falei. Eu já sei por que você acabou tendo mais afinidade com o Vinícius
e o Julio. Porque, coincidentemente, vocês três são filhos únicos, a falta de um irmãozinho a gente acaba
compensando com o colega, não é mesmo?
A reposta que veio a seguir me arrebentou por dentro. Ainda teria muito por fazer.
— Não, mamãe, nós três ficamos amigos porque somos os três da sala que
têm defeito.
— Como assim, defeito?
— Sim, o Vinícius é gordo, o Julio é negro e eu sou gago.
(COCCO, Marta H. Não presta pra nada. Carlini & Caniato: Cuiabá-MT, 2016.)
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Leia com atenção a tirinha.

(QUINO. Mafalda. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Cultura/Livros/noticia/2016/01/20-tirinhas-sobre-paixao-porlivros.html. Acesso em 23/03/2024.)
Sobre a tirinha, marque a afirmativa correta.
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Instrução: Leia atentamente o texto e responda à questão.
Discórdia em Concórdia
Um voo por entre os buracos das nuvens.
"Essa cerração estava bem fechada na serra, mas aqui em Ilhabela o céu estava cheio de buracos". Foi o que
informou o dono do heliponto ao piloto do helicóptero no fatídico acidente que abriu o ano.
Esses buracos são espaços abertos entre as nuvens, o que, segundo ele, permitiria o pouso.
Ao ler aqueles fatos na internet, na hora, recuei no tempo. Revivi o dia em que viajei para Concórdia, Santa
Catarina, a bordo de um jatinho privado.
Fui orientado pela secretária do dono da aeronave a comparecer ao hangar de Congonhas às 16h30 para a
importante reunião catarinense. No horário combinado, subi os estribos do Learjet rumo à avionada.
Decolamos com céu de brigadeiro. Era a primeira vez que tinha um aeroplano inteiro a meu dispor. Fui me
sentindo uma celebridade até Curitiba. Naquele ponto, entretanto, o clima virou. A bem da verdade, capotou.
Tudo nublou, não se via um milímetro de horizonte, e trovões rimbombavam a todo instante.
Não demorou para que o Lear passasse a sacudir mais do que coqueteleira em mão de barman. O chacoalhar
era tamanho que a maleta do comandante, acomodada nos porta bagagens, desabou sobre o meu cocuruto.
Ainda tonto, fui de gatinhas, pelo corredor, até a cabine.
Ali, notei que o copiloto dava pancadas no rádio.
"O que está acontecendo?", quis saber.
"Estamos sem comunicação, estou vendo se volta...", anunciou com aquela mansidão dos aeronautas.
Engoli em seco. A cerração continuava reinando, mas felizmente conseguiram contato com o aeroporto de
Concórdia.
Apenas para que o leitor assimile o local onde seria nosso pouso, eu diria que se tratava de uma extensão de
asfalto pouco maior do que uma pista de autorama no pico de uma alta montanha. Em volta, mata fechada.
Houve a primeira tentativa de aterrissagem, porém, não se divisava um palmo adiante do nariz do jatinho.
Quando arremetemos, se apresentou a voz do dono do avião no rádio, num forte sotaque gaúcho:
"Epa, peralá! Por que no descero, tchê?"
O piloto explicou:
"Visibilidade zero, doutor."
"Aqui tão dizeno que tem buraco. Encontra um aí, compadre, e mete o bicho nele que tem hora pra começá
os trabalho!"
"Sim, senhor!", respondeu o piloto.
Eu já tinha me sentado mais ao fundo possível pois ouvira dizer que, em acidentes aéreos, o estrago é menor
aos que se localizam na popa. "Acharo o buraco?", insistia o gaúcho.
"Localizamos um a estibordo, doutor, vamos tentar o procedimento", prometeu o comandante.
Dei início ao rosário apressado que aprendi com minha avó. Usava os dedos como as contas do terço. O jato
mergulhou na pequena fenda da nuvem em direção à pistinha, as turbinas gritavam em dramática
desaceleração.
Assaltou-me a inconveniente lembrança de que meu sobrenome é Castelo Branco e certo marechal, com o
mesmo nome, morrera num famoso desastre de avião.
O solo veio se aproximando. Foquei na minha janela. Antes de atingirmos a cabeceira, o trem de pouso
triscou o galho de uma araucária. Bah, tri legal!" - urrou o gaúcho no rádio ao presenciar a descida.
Saí bambo da aeronave e, feito João Paulo II, beijei o asfalto.
O chefão me deu as boas-vindas e comunicou:
"Reunião ficou pra amanhã. O bão é que dá tempo de nóis assar um costelão pra ti".
(CASTELO BRANCO, Carlos. Um voo por entre os buracos das nuvens. Estadão. 17/01/2024. Disponível em
https://www.estadao.com.br/emais/cronica-por-quilo/discordia-em-concordia/. Acesso em 20 de março de 2024.)
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Instrução: Leia atentamente o texto e responda à questão.
Discórdia em Concórdia
Um voo por entre os buracos das nuvens.
"Essa cerração estava bem fechada na serra, mas aqui em Ilhabela o céu estava cheio de buracos". Foi o que
informou o dono do heliponto ao piloto do helicóptero no fatídico acidente que abriu o ano.
Esses buracos são espaços abertos entre as nuvens, o que, segundo ele, permitiria o pouso.
Ao ler aqueles fatos na internet, na hora, recuei no tempo. Revivi o dia em que viajei para Concórdia, Santa
Catarina, a bordo de um jatinho privado.
Fui orientado pela secretária do dono da aeronave a comparecer ao hangar de Congonhas às 16h30 para a
importante reunião catarinense. No horário combinado, subi os estribos do Learjet rumo à avionada.
Decolamos com céu de brigadeiro. Era a primeira vez que tinha um aeroplano inteiro a meu dispor. Fui me
sentindo uma celebridade até Curitiba. Naquele ponto, entretanto, o clima virou. A bem da verdade, capotou.
Tudo nublou, não se via um milímetro de horizonte, e trovões rimbombavam a todo instante.
Não demorou para que o Lear passasse a sacudir mais do que coqueteleira em mão de barman. O chacoalhar
era tamanho que a maleta do comandante, acomodada nos porta bagagens, desabou sobre o meu cocuruto.
Ainda tonto, fui de gatinhas, pelo corredor, até a cabine.
Ali, notei que o copiloto dava pancadas no rádio.
"O que está acontecendo?", quis saber.
"Estamos sem comunicação, estou vendo se volta...", anunciou com aquela mansidão dos aeronautas.
Engoli em seco. A cerração continuava reinando, mas felizmente conseguiram contato com o aeroporto de
Concórdia.
Apenas para que o leitor assimile o local onde seria nosso pouso, eu diria que se tratava de uma extensão de
asfalto pouco maior do que uma pista de autorama no pico de uma alta montanha. Em volta, mata fechada.
Houve a primeira tentativa de aterrissagem, porém, não se divisava um palmo adiante do nariz do jatinho.
Quando arremetemos, se apresentou a voz do dono do avião no rádio, num forte sotaque gaúcho:
"Epa, peralá! Por que no descero, tchê?"
O piloto explicou:
"Visibilidade zero, doutor."
"Aqui tão dizeno que tem buraco. Encontra um aí, compadre, e mete o bicho nele que tem hora pra começá
os trabalho!"
"Sim, senhor!", respondeu o piloto.
Eu já tinha me sentado mais ao fundo possível pois ouvira dizer que, em acidentes aéreos, o estrago é menor
aos que se localizam na popa. "Acharo o buraco?", insistia o gaúcho.
"Localizamos um a estibordo, doutor, vamos tentar o procedimento", prometeu o comandante.
Dei início ao rosário apressado que aprendi com minha avó. Usava os dedos como as contas do terço. O jato
mergulhou na pequena fenda da nuvem em direção à pistinha, as turbinas gritavam em dramática
desaceleração.
Assaltou-me a inconveniente lembrança de que meu sobrenome é Castelo Branco e certo marechal, com o
mesmo nome, morrera num famoso desastre de avião.
O solo veio se aproximando. Foquei na minha janela. Antes de atingirmos a cabeceira, o trem de pouso
triscou o galho de uma araucária. Bah, tri legal!" - urrou o gaúcho no rádio ao presenciar a descida.
Saí bambo da aeronave e, feito João Paulo II, beijei o asfalto.
O chefão me deu as boas-vindas e comunicou:
"Reunião ficou pra amanhã. O bão é que dá tempo de nóis assar um costelão pra ti".
(CASTELO BRANCO, Carlos. Um voo por entre os buracos das nuvens. Estadão. 17/01/2024. Disponível em
https://www.estadao.com.br/emais/cronica-por-quilo/discordia-em-concordia/. Acesso em 20 de março de 2024.)
( ) Aqui tão dizeno que tem buraco. Encontra um aí, compadre, e mete o bicho nele que tem hora pra começá os trabalho! – esse trecho demonstra uma variante linguística brasileira muito utilizada na oralidade.
( ) O vocábulo ‘avionada’ é formado pelo processo de composição por justaposição.
( ) O chacoalhar era tamanho que a maleta do comandante, acomodada nos porta bagagens, desabou sobre o meu cocuruto – pode-se observar nesse excerto uma relação de causa e consequência.
( ) O jato mergulhou na pequena fenda da nuvem em direção à pistinha, as turbinas gritavam em dramática desaceleração. – nesse trecho há linguagem denotativa.
( ) Em Visibilidade zero, doutor. e Estamos sem comunicação, estou vendo se volta..., – o uso da vírgula se justifica pela mesma razão: separar orações.
Assinale a sequência correta.
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Discórdia em Concórdia
Um voo por entre os buracos das nuvens.
"Essa cerração estava bem fechada na serra, mas aqui em Ilhabela o céu estava cheio de buracos". Foi o que
informou o dono do heliponto ao piloto do helicóptero no fatídico acidente que abriu o ano.
Esses buracos são espaços abertos entre as nuvens, o que, segundo ele, permitiria o pouso.
Ao ler aqueles fatos na internet, na hora, recuei no tempo. Revivi o dia em que viajei para Concórdia, Santa
Catarina, a bordo de um jatinho privado.
Fui orientado pela secretária do dono da aeronave a comparecer ao hangar de Congonhas às 16h30 para a
importante reunião catarinense. No horário combinado, subi os estribos do Learjet rumo à avionada.
Decolamos com céu de brigadeiro. Era a primeira vez que tinha um aeroplano inteiro a meu dispor. Fui me
sentindo uma celebridade até Curitiba. Naquele ponto, entretanto, o clima virou. A bem da verdade, capotou.
Tudo nublou, não se via um milímetro de horizonte, e trovões rimbombavam a todo instante.
Não demorou para que o Lear passasse a sacudir mais do que coqueteleira em mão de barman. O chacoalhar
era tamanho que a maleta do comandante, acomodada nos porta bagagens, desabou sobre o meu cocuruto.
Ainda tonto, fui de gatinhas, pelo corredor, até a cabine.
Ali, notei que o copiloto dava pancadas no rádio.
"O que está acontecendo?", quis saber.
"Estamos sem comunicação, estou vendo se volta...", anunciou com aquela mansidão dos aeronautas.
Engoli em seco. A cerração continuava reinando, mas felizmente conseguiram contato com o aeroporto de
Concórdia.
Apenas para que o leitor assimile o local onde seria nosso pouso, eu diria que se tratava de uma extensão de
asfalto pouco maior do que uma pista de autorama no pico de uma alta montanha. Em volta, mata fechada.
Houve a primeira tentativa de aterrissagem, porém, não se divisava um palmo adiante do nariz do jatinho.
Quando arremetemos, se apresentou a voz do dono do avião no rádio, num forte sotaque gaúcho:
"Epa, peralá! Por que no descero, tchê?"
O piloto explicou:
"Visibilidade zero, doutor."
"Aqui tão dizeno que tem buraco. Encontra um aí, compadre, e mete o bicho nele que tem hora pra começá
os trabalho!"
"Sim, senhor!", respondeu o piloto.
Eu já tinha me sentado mais ao fundo possível pois ouvira dizer que, em acidentes aéreos, o estrago é menor
aos que se localizam na popa. "Acharo o buraco?", insistia o gaúcho.
"Localizamos um a estibordo, doutor, vamos tentar o procedimento", prometeu o comandante.
Dei início ao rosário apressado que aprendi com minha avó. Usava os dedos como as contas do terço. O jato
mergulhou na pequena fenda da nuvem em direção à pistinha, as turbinas gritavam em dramática
desaceleração.
Assaltou-me a inconveniente lembrança de que meu sobrenome é Castelo Branco e certo marechal, com o
mesmo nome, morrera num famoso desastre de avião.
O solo veio se aproximando. Foquei na minha janela. Antes de atingirmos a cabeceira, o trem de pouso
triscou o galho de uma araucária. Bah, tri legal!" - urrou o gaúcho no rádio ao presenciar a descida.
Saí bambo da aeronave e, feito João Paulo II, beijei o asfalto.
O chefão me deu as boas-vindas e comunicou:
"Reunião ficou pra amanhã. O bão é que dá tempo de nóis assar um costelão pra ti".
(CASTELO BRANCO, Carlos. Um voo por entre os buracos das nuvens. Estadão. 17/01/2024. Disponível em
https://www.estadao.com.br/emais/cronica-por-quilo/discordia-em-concordia/. Acesso em 20 de março de 2024.)
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Discórdia em Concórdia
Um voo por entre os buracos das nuvens.
"Essa cerração estava bem fechada na serra, mas aqui em Ilhabela o céu estava cheio de buracos". Foi o que
informou o dono do heliponto ao piloto do helicóptero no fatídico acidente que abriu o ano.
Esses buracos são espaços abertos entre as nuvens, o que, segundo ele, permitiria o pouso.
Ao ler aqueles fatos na internet, na hora, recuei no tempo. Revivi o dia em que viajei para Concórdia, Santa
Catarina, a bordo de um jatinho privado.
Fui orientado pela secretária do dono da aeronave a comparecer ao hangar de Congonhas às 16h30 para a
importante reunião catarinense. No horário combinado, subi os estribos do Learjet rumo à avionada.
Decolamos com céu de brigadeiro. Era a primeira vez que tinha um aeroplano inteiro a meu dispor. Fui me
sentindo uma celebridade até Curitiba. Naquele ponto, entretanto, o clima virou. A bem da verdade, capotou.
Tudo nublou, não se via um milímetro de horizonte, e trovões rimbombavam a todo instante.
Não demorou para que o Lear passasse a sacudir mais do que coqueteleira em mão de barman. O chacoalhar
era tamanho que a maleta do comandante, acomodada nos porta bagagens, desabou sobre o meu cocuruto.
Ainda tonto, fui de gatinhas, pelo corredor, até a cabine.
Ali, notei que o copiloto dava pancadas no rádio.
"O que está acontecendo?", quis saber.
"Estamos sem comunicação, estou vendo se volta...", anunciou com aquela mansidão dos aeronautas.
Engoli em seco. A cerração continuava reinando, mas felizmente conseguiram contato com o aeroporto de
Concórdia.
Apenas para que o leitor assimile o local onde seria nosso pouso, eu diria que se tratava de uma extensão de
asfalto pouco maior do que uma pista de autorama no pico de uma alta montanha. Em volta, mata fechada.
Houve a primeira tentativa de aterrissagem, porém, não se divisava um palmo adiante do nariz do jatinho.
Quando arremetemos, se apresentou a voz do dono do avião no rádio, num forte sotaque gaúcho:
"Epa, peralá! Por que no descero, tchê?"
O piloto explicou:
"Visibilidade zero, doutor."
"Aqui tão dizeno que tem buraco. Encontra um aí, compadre, e mete o bicho nele que tem hora pra começá
os trabalho!"
"Sim, senhor!", respondeu o piloto.
Eu já tinha me sentado mais ao fundo possível pois ouvira dizer que, em acidentes aéreos, o estrago é menor
aos que se localizam na popa. "Acharo o buraco?", insistia o gaúcho.
"Localizamos um a estibordo, doutor, vamos tentar o procedimento", prometeu o comandante.
Dei início ao rosário apressado que aprendi com minha avó. Usava os dedos como as contas do terço. O jato
mergulhou na pequena fenda da nuvem em direção à pistinha, as turbinas gritavam em dramática
desaceleração.
Assaltou-me a inconveniente lembrança de que meu sobrenome é Castelo Branco e certo marechal, com o
mesmo nome, morrera num famoso desastre de avião.
O solo veio se aproximando. Foquei na minha janela. Antes de atingirmos a cabeceira, o trem de pouso
triscou o galho de uma araucária. Bah, tri legal!" - urrou o gaúcho no rádio ao presenciar a descida.
Saí bambo da aeronave e, feito João Paulo II, beijei o asfalto.
O chefão me deu as boas-vindas e comunicou:
"Reunião ficou pra amanhã. O bão é que dá tempo de nóis assar um costelão pra ti".
(CASTELO BRANCO, Carlos. Um voo por entre os buracos das nuvens. Estadão. 17/01/2024. Disponível em
https://www.estadao.com.br/emais/cronica-por-quilo/discordia-em-concordia/. Acesso em 20 de março de 2024.)
I. O texto trata de acidentes aéreos causados por “buracos” no céu.
II. O texto apresenta aspectos argumentativos que denotam, desde o início, o medo do narrador ao voar. III. Uma notícia fez com que o narrador se lembrasse de um fato de seu passado.
IV. O chefe forçou a aterrissagem do jato contra a vontade do comandante.
V. A primeira tentativa de aterrissagem falhou.
Estão corretas as afirmativas
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Um voo por entre os buracos das nuvens.
"Essa cerração estava bem fechada na serra, mas aqui em Ilhabela o céu estava cheio de buracos". Foi o que
informou o dono do heliponto ao piloto do helicóptero no fatídico acidente que abriu o ano.
Esses buracos são espaços abertos entre as nuvens, o que, segundo ele, permitiria o pouso.
Ao ler aqueles fatos na internet, na hora, recuei no tempo. Revivi o dia em que viajei para Concórdia, Santa
Catarina, a bordo de um jatinho privado.
Fui orientado pela secretária do dono da aeronave a comparecer ao hangar de Congonhas às 16h30 para a
importante reunião catarinense. No horário combinado, subi os estribos do Learjet rumo à avionada.
Decolamos com céu de brigadeiro. Era a primeira vez que tinha um aeroplano inteiro a meu dispor. Fui me
sentindo uma celebridade até Curitiba. Naquele ponto, entretanto, o clima virou. A bem da verdade, capotou.
Tudo nublou, não se via um milímetro de horizonte, e trovões rimbombavam a todo instante.
Não demorou para que o Lear passasse a sacudir mais do que coqueteleira em mão de barman. O chacoalhar
era tamanho que a maleta do comandante, acomodada nos porta bagagens, desabou sobre o meu cocuruto.
Ainda tonto, fui de gatinhas, pelo corredor, até a cabine.
Ali, notei que o copiloto dava pancadas no rádio.
"O que está acontecendo?", quis saber.
"Estamos sem comunicação, estou vendo se volta...", anunciou com aquela mansidão dos aeronautas.
Engoli em seco. A cerração continuava reinando, mas felizmente conseguiram contato com o aeroporto de
Concórdia.
Apenas para que o leitor assimile o local onde seria nosso pouso, eu diria que se tratava de uma extensão de
asfalto pouco maior do que uma pista de autorama no pico de uma alta montanha. Em volta, mata fechada.
Houve a primeira tentativa de aterrissagem, porém, não se divisava um palmo adiante do nariz do jatinho.
Quando arremetemos, se apresentou a voz do dono do avião no rádio, num forte sotaque gaúcho:
"Epa, peralá! Por que no descero, tchê?"
O piloto explicou:
"Visibilidade zero, doutor."
"Aqui tão dizeno que tem buraco. Encontra um aí, compadre, e mete o bicho nele que tem hora pra começá
os trabalho!"
"Sim, senhor!", respondeu o piloto.
Eu já tinha me sentado mais ao fundo possível pois ouvira dizer que, em acidentes aéreos, o estrago é menor
aos que se localizam na popa. "Acharo o buraco?", insistia o gaúcho.
"Localizamos um a estibordo, doutor, vamos tentar o procedimento", prometeu o comandante.
Dei início ao rosário apressado que aprendi com minha avó. Usava os dedos como as contas do terço. O jato
mergulhou na pequena fenda da nuvem em direção à pistinha, as turbinas gritavam em dramática
desaceleração.
Assaltou-me a inconveniente lembrança de que meu sobrenome é Castelo Branco e certo marechal, com o
mesmo nome, morrera num famoso desastre de avião.
O solo veio se aproximando. Foquei na minha janela. Antes de atingirmos a cabeceira, o trem de pouso
triscou o galho de uma araucária. Bah, tri legal!" - urrou o gaúcho no rádio ao presenciar a descida.
Saí bambo da aeronave e, feito João Paulo II, beijei o asfalto.
O chefão me deu as boas-vindas e comunicou:
"Reunião ficou pra amanhã. O bão é que dá tempo de nóis assar um costelão pra ti".
(CASTELO BRANCO, Carlos. Um voo por entre os buracos das nuvens. Estadão. 17/01/2024. Disponível em
https://www.estadao.com.br/emais/cronica-por-quilo/discordia-em-concordia/. Acesso em 20 de março de 2024.)
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