Foram encontradas 60 questões.
TEXTO
O ESPELHO
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma
noite, várias questões de alta transcendência, sem que
a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração
aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa,
a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundiase misteriosamente com o luar que vinha de fora.
Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o
céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma
atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos
quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas,
resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas
do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram
quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala
um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja espórtula no debate não passava de
um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem
tinha a mesma idade dos companheiros, entre
quarenta e cinqüenta anos, era provinciano,
capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que
parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e
defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo
que a discussão é a forma polida do instinto
batalhador, que jaz no homem, como uma herança
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins
não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição
espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta
naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e
desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante,
e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu
que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três
minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus
meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que
dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça,
cada sentença; não só o acordo, mas a mesma
discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela
multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela
inconsistência dos pareceres. Um dos
argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, -
uma conjetura.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele;
uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como
sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me
calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em
que ressalta a mais clara demonstração acerca da
matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há
uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura
humana traz duas almas consigo: uma que olha de
dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...
Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta,
dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me
replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma
exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem,
muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos,
por exemplo, em que um simples botão de camisa é a
alma exterior de uma pessoa; - e assim também a
polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de
botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o
ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a
primeira; as duas completam o homem, que é,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde
uma das metades, perde naturalmente metade da
existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. [...]
Agora, é preciso saber que a alma exterior não é
sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado.
Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria,
com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que
foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas
enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora
enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por
exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi
um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde
uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela
minha parte, conheço uma senhora, - na verdade,
gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis
vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera;
cessando a estação, a alma exterior substitui-se por
outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do
Ouvidor, Petrópolis... [...]
Eu mesmo tenho experimentado dessas
trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me
ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus
vinte e cinco anos... Os quatro companheiros,
ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma
da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta
divina, de outro sabor que não aquele pomo da
mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e
metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos
estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto,
recolhendo as memórias. [...]
ASSIS, Machado de. O Espelho. In: Obra Completa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
TEXTO
O ESPELHO
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma
noite, várias questões de alta transcendência, sem que
a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração
aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa,
a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundiase misteriosamente com o luar que vinha de fora.
Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o
céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma
atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos
quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas,
resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas
do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram
quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala
um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja espórtula no debate não passava de
um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem
tinha a mesma idade dos companheiros, entre
quarenta e cinqüenta anos, era provinciano,
capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que
parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e
defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo
que a discussão é a forma polida do instinto
batalhador, que jaz no homem, como uma herança
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins
não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição
espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta
naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e
desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante,
e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu
que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três
minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus
meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que
dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça,
cada sentença; não só o acordo, mas a mesma
discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela
multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela
inconsistência dos pareceres. Um dos
argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, -
uma conjetura.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele;
uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como
sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me
calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em
que ressalta a mais clara demonstração acerca da
matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há
uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura
humana traz duas almas consigo: uma que olha de
dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...
Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta,
dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me
replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma
exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem,
muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos,
por exemplo, em que um simples botão de camisa é a
alma exterior de uma pessoa; - e assim também a
polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de
botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o
ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a
primeira; as duas completam o homem, que é,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde
uma das metades, perde naturalmente metade da
existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. [...]
Agora, é preciso saber que a alma exterior não é
sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado.
Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria,
com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que
foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas
enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora
enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por
exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi
um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde
uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela
minha parte, conheço uma senhora, - na verdade,
gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis
vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera;
cessando a estação, a alma exterior substitui-se por
outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do
Ouvidor, Petrópolis... [...]
Eu mesmo tenho experimentado dessas
trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me
ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus
vinte e cinco anos... Os quatro companheiros,
ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma
da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta
divina, de outro sabor que não aquele pomo da
mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e
metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos
estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto,
recolhendo as memórias. [...]
ASSIS, Machado de. O Espelho. In: Obra Completa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
TEXTO
O ESPELHO
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma
noite, várias questões de alta transcendência, sem que
a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração
aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa,
a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundiase misteriosamente com o luar que vinha de fora.
Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o
céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma
atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos
quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas,
resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas
do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram
quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala
um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja espórtula no debate não passava de
um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem
tinha a mesma idade dos companheiros, entre
quarenta e cinqüenta anos, era provinciano,
capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que
parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e
defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo
que a discussão é a forma polida do instinto
batalhador, que jaz no homem, como uma herança
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins
não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição
espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta
naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e
desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante,
e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu
que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três
minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus
meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que
dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça,
cada sentença; não só o acordo, mas a mesma
discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela
multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela
inconsistência dos pareceres. Um dos
argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, -
uma conjetura.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele;
uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como
sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me
calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em
que ressalta a mais clara demonstração acerca da
matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há
uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura
humana traz duas almas consigo: uma que olha de
dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...
Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta,
dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me
replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma
exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem,
muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos,
por exemplo, em que um simples botão de camisa é a
alma exterior de uma pessoa; - e assim também a
polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de
botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o
ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a
primeira; as duas completam o homem, que é,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde
uma das metades, perde naturalmente metade da
existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. [...]
Agora, é preciso saber que a alma exterior não é
sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado.
Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria,
com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que
foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas
enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora
enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por
exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi
um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde
uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela
minha parte, conheço uma senhora, - na verdade,
gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis
vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera;
cessando a estação, a alma exterior substitui-se por
outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do
Ouvidor, Petrópolis... [...]
Eu mesmo tenho experimentado dessas
trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me
ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus
vinte e cinco anos... Os quatro companheiros,
ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma
da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta
divina, de outro sabor que não aquele pomo da
mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e
metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos
estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto,
recolhendo as memórias. [...]
ASSIS, Machado de. O Espelho. In: Obra Completa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.
“Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas”
Com base na estrutura e nas convenções da escrita, é CORRETO afirmar que o período acima se caracteriza por:
Provas
Questão presente nas seguintes provas
TEXTO
O ESPELHO
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma
noite, várias questões de alta transcendência, sem que
a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração
aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa,
a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundiase misteriosamente com o luar que vinha de fora.
Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o
céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma
atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos
quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas,
resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas
do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram
quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala
um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja espórtula no debate não passava de
um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem
tinha a mesma idade dos companheiros, entre
quarenta e cinqüenta anos, era provinciano,
capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que
parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e
defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo
que a discussão é a forma polida do instinto
batalhador, que jaz no homem, como uma herança
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins
não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição
espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta
naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e
desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante,
e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu
que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três
minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus
meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que
dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça,
cada sentença; não só o acordo, mas a mesma
discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela
multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela
inconsistência dos pareceres. Um dos
argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, -
uma conjetura.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele;
uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como
sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me
calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em
que ressalta a mais clara demonstração acerca da
matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há
uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura
humana traz duas almas consigo: uma que olha de
dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...
Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta,
dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me
replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma
exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem,
muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos,
por exemplo, em que um simples botão de camisa é a
alma exterior de uma pessoa; - e assim também a
polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de
botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o
ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a
primeira; as duas completam o homem, que é,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde
uma das metades, perde naturalmente metade da
existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. [...]
Agora, é preciso saber que a alma exterior não é
sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado.
Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria,
com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que
foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas
enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora
enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por
exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi
um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde
uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela
minha parte, conheço uma senhora, - na verdade,
gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis
vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera;
cessando a estação, a alma exterior substitui-se por
outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do
Ouvidor, Petrópolis... [...]
Eu mesmo tenho experimentado dessas
trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me
ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus
vinte e cinco anos... Os quatro companheiros,
ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma
da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta
divina, de outro sabor que não aquele pomo da
mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e
metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos
estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto,
recolhendo as memórias. [...]
ASSIS, Machado de. O Espelho. In: Obra Completa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.
“A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; — e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc.”
Sobre as relações semânticas de hiperonímia e hiponímia, assinale a alternativa CORRETA.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
TEXTO
O ESPELHO
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma
noite, várias questões de alta transcendência, sem que
a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração
aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa,
a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundiase misteriosamente com o luar que vinha de fora.
Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o
céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma
atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos
quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas,
resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas
do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram
quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala
um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja espórtula no debate não passava de
um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem
tinha a mesma idade dos companheiros, entre
quarenta e cinqüenta anos, era provinciano,
capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que
parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e
defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo
que a discussão é a forma polida do instinto
batalhador, que jaz no homem, como uma herança
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins
não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição
espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta
naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e
desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante,
e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu
que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três
minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus
meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que
dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça,
cada sentença; não só o acordo, mas a mesma
discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela
multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela
inconsistência dos pareceres. Um dos
argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, -
uma conjetura.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele;
uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como
sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me
calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em
que ressalta a mais clara demonstração acerca da
matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há
uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura
humana traz duas almas consigo: uma que olha de
dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...
Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta,
dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me
replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma
exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem,
muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos,
por exemplo, em que um simples botão de camisa é a
alma exterior de uma pessoa; - e assim também a
polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de
botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o
ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a
primeira; as duas completam o homem, que é,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde
uma das metades, perde naturalmente metade da
existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. [...]
Agora, é preciso saber que a alma exterior não é
sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado.
Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria,
com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que
foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas
enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora
enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por
exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi
um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde
uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela
minha parte, conheço uma senhora, - na verdade,
gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis
vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera;
cessando a estação, a alma exterior substitui-se por
outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do
Ouvidor, Petrópolis... [...]
Eu mesmo tenho experimentado dessas
trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me
ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus
vinte e cinco anos... Os quatro companheiros,
ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma
da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta
divina, de outro sabor que não aquele pomo da
mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e
metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos
estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto,
recolhendo as memórias. [...]
ASSIS, Machado de. O Espelho. In: Obra Completa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
TEXTO
O ESPELHO
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma
noite, várias questões de alta transcendência, sem que
a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração
aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa,
a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundiase misteriosamente com o luar que vinha de fora.
Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o
céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma
atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos
quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas,
resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas
do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram
quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala
um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja espórtula no debate não passava de
um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem
tinha a mesma idade dos companheiros, entre
quarenta e cinqüenta anos, era provinciano,
capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que
parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e
defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo
que a discussão é a forma polida do instinto
batalhador, que jaz no homem, como uma herança
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins
não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição
espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta
naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e
desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante,
e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu
que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três
minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus
meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que
dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça,
cada sentença; não só o acordo, mas a mesma
discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela
multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela
inconsistência dos pareceres. Um dos
argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, -
uma conjetura.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele;
uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como
sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me
calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em
que ressalta a mais clara demonstração acerca da
matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há
uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura
humana traz duas almas consigo: uma que olha de
dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...
Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta,
dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me
replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma
exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem,
muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos,
por exemplo, em que um simples botão de camisa é a
alma exterior de uma pessoa; - e assim também a
polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de
botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o
ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a
primeira; as duas completam o homem, que é,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde
uma das metades, perde naturalmente metade da
existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. [...]
Agora, é preciso saber que a alma exterior não é
sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado.
Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria,
com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que
foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas
enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora
enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por
exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi
um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde
uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela
minha parte, conheço uma senhora, - na verdade,
gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis
vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera;
cessando a estação, a alma exterior substitui-se por
outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do
Ouvidor, Petrópolis... [...]
Eu mesmo tenho experimentado dessas
trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me
ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus
vinte e cinco anos... Os quatro companheiros,
ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma
da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta
divina, de outro sabor que não aquele pomo da
mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e
metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos
estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto,
recolhendo as memórias. [...]
ASSIS, Machado de. O Espelho. In: Obra Completa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.
“Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro [...] As duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja.”
Considerando o sentido figurado da comparação e o contexto do texto, a oposição entre essas duas almas indica:
Provas
Questão presente nas seguintes provas
TEXTO
O ESPELHO
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma
noite, várias questões de alta transcendência, sem que
a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração
aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa,
a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundiase misteriosamente com o luar que vinha de fora.
Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o
céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma
atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos
quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas,
resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas
do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram
quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala
um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja espórtula no debate não passava de
um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem
tinha a mesma idade dos companheiros, entre
quarenta e cinqüenta anos, era provinciano,
capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que
parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e
defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo
que a discussão é a forma polida do instinto
batalhador, que jaz no homem, como uma herança
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins
não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição
espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta
naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e
desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante,
e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu
que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três
minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus
meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que
dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça,
cada sentença; não só o acordo, mas a mesma
discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela
multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela
inconsistência dos pareceres. Um dos
argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, -
uma conjetura.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele;
uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como
sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me
calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em
que ressalta a mais clara demonstração acerca da
matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há
uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura
humana traz duas almas consigo: uma que olha de
dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...
Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta,
dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me
replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma
exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem,
muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos,
por exemplo, em que um simples botão de camisa é a
alma exterior de uma pessoa; - e assim também a
polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de
botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o
ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a
primeira; as duas completam o homem, que é,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde
uma das metades, perde naturalmente metade da
existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. [...]
Agora, é preciso saber que a alma exterior não é
sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado.
Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria,
com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que
foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas
enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora
enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por
exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi
um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde
uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela
minha parte, conheço uma senhora, - na verdade,
gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis
vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera;
cessando a estação, a alma exterior substitui-se por
outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do
Ouvidor, Petrópolis... [...]
Eu mesmo tenho experimentado dessas
trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me
ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus
vinte e cinco anos... Os quatro companheiros,
ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma
da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta
divina, de outro sabor que não aquele pomo da
mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e
metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos
estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto,
recolhendo as memórias. [...]
ASSIS, Machado de. O Espelho. In: Obra Completa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.
“Esse homem [...] não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial.”
Com base no desenvolvimento posterior do texto, em que Jacobina se estende longamente sobre a teoria das “duas almas”, é CORRETO afirmar que o contraste entre o que o personagem afirma e o que faz tem como principal efeito:
Provas
Questão presente nas seguintes provas
TEXTO
O ESPELHO
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma
noite, várias questões de alta transcendência, sem que
a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração
aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa,
a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundiase misteriosamente com o luar que vinha de fora.
Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o
céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma
atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos
quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas,
resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas
do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram
quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala
um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja espórtula no debate não passava de
um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem
tinha a mesma idade dos companheiros, entre
quarenta e cinqüenta anos, era provinciano,
capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que
parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e
defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo
que a discussão é a forma polida do instinto
batalhador, que jaz no homem, como uma herança
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins
não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição
espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta
naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e
desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante,
e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu
que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três
minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus
meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que
dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça,
cada sentença; não só o acordo, mas a mesma
discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela
multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela
inconsistência dos pareceres. Um dos
argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, -
uma conjetura.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele;
uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como
sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me
calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em
que ressalta a mais clara demonstração acerca da
matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há
uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura
humana traz duas almas consigo: uma que olha de
dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...
Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta,
dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me
replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma
exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem,
muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos,
por exemplo, em que um simples botão de camisa é a
alma exterior de uma pessoa; - e assim também a
polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de
botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o
ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a
primeira; as duas completam o homem, que é,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde
uma das metades, perde naturalmente metade da
existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. [...]
Agora, é preciso saber que a alma exterior não é
sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado.
Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria,
com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que
foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas
enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora
enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por
exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi
um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde
uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela
minha parte, conheço uma senhora, - na verdade,
gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis
vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera;
cessando a estação, a alma exterior substitui-se por
outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do
Ouvidor, Petrópolis... [...]
Eu mesmo tenho experimentado dessas
trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me
ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus
vinte e cinco anos... Os quatro companheiros,
ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma
da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta
divina, de outro sabor que não aquele pomo da
mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e
metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos
estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto,
recolhendo as memórias. [...]
ASSIS, Machado de. O Espelho. In: Obra Completa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.
Com base na progressão textual e nos mecanismos de coerência presentes nesse trecho, assinale a alternativa que explica CORRETAMENTE o papel das expressões destacadas na organização semântica do texto.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
TEXTO
O ESPELHO
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma
noite, várias questões de alta transcendência, sem que
a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração
aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa,
a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundiase misteriosamente com o luar que vinha de fora.
Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o
céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma
atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos
quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas,
resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas
do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram
quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala
um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja espórtula no debate não passava de
um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem
tinha a mesma idade dos companheiros, entre
quarenta e cinqüenta anos, era provinciano,
capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que
parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e
defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo
que a discussão é a forma polida do instinto
batalhador, que jaz no homem, como uma herança
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins
não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição
espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta
naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e
desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante,
e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu
que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três
minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus
meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que
dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça,
cada sentença; não só o acordo, mas a mesma
discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela
multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela
inconsistência dos pareceres. Um dos
argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, -
uma conjetura.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele;
uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como
sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me
calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em
que ressalta a mais clara demonstração acerca da
matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há
uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura
humana traz duas almas consigo: uma que olha de
dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...
Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta,
dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me
replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma
exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem,
muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos,
por exemplo, em que um simples botão de camisa é a
alma exterior de uma pessoa; - e assim também a
polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de
botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o
ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a
primeira; as duas completam o homem, que é,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde
uma das metades, perde naturalmente metade da
existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. [...]
Agora, é preciso saber que a alma exterior não é
sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado.
Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria,
com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que
foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas
enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora
enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por
exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi
um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde
uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela
minha parte, conheço uma senhora, - na verdade,
gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis
vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera;
cessando a estação, a alma exterior substitui-se por
outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do
Ouvidor, Petrópolis... [...]
Eu mesmo tenho experimentado dessas
trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me
ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus
vinte e cinco anos... Os quatro companheiros,
ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma
da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta
divina, de outro sabor que não aquele pomo da
mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e
metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos
estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto,
recolhendo as memórias. [...]
ASSIS, Machado de. O Espelho. In: Obra Completa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.
Em seguida, ele rompe o silêncio para defender a existência de “duas almas”. Considerando o contexto e a construção discursiva machadiana, é CORRETO afirmar que o episódio em que Jacobina se pronuncia revela:
Provas
Questão presente nas seguintes provas
TEXTO
O ESPELHO
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma
noite, várias questões de alta transcendência, sem que
a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração
aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa,
a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundiase misteriosamente com o luar que vinha de fora.
Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o
céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma
atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos
quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas,
resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas
do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram
quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala
um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja espórtula no debate não passava de
um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem
tinha a mesma idade dos companheiros, entre
quarenta e cinqüenta anos, era provinciano,
capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que
parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e
defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo
que a discussão é a forma polida do instinto
batalhador, que jaz no homem, como uma herança
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins
não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição
espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta
naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e
desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante,
e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu
que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três
minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus
meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que
dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça,
cada sentença; não só o acordo, mas a mesma
discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela
multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela
inconsistência dos pareceres. Um dos
argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, -
uma conjetura.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele;
uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como
sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me
calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em
que ressalta a mais clara demonstração acerca da
matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há
uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura
humana traz duas almas consigo: uma que olha de
dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...
Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta,
dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me
replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma
exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem,
muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos,
por exemplo, em que um simples botão de camisa é a
alma exterior de uma pessoa; - e assim também a
polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de
botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o
ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a
primeira; as duas completam o homem, que é,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde
uma das metades, perde naturalmente metade da
existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. [...]
Agora, é preciso saber que a alma exterior não é
sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado.
Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria,
com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que
foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas
enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora
enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por
exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi
um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde
uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela
minha parte, conheço uma senhora, - na verdade,
gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis
vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera;
cessando a estação, a alma exterior substitui-se por
outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do
Ouvidor, Petrópolis... [...]
Eu mesmo tenho experimentado dessas
trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me
ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus
vinte e cinco anos... Os quatro companheiros,
ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma
da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta
divina, de outro sabor que não aquele pomo da
mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e
metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos
estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto,
recolhendo as memórias. [...]
ASSIS, Machado de. O Espelho. In: Obra Completa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Cadernos
Caderno Container