Foram encontradas 525 questões.
A riqueza e o primoroso esmero do trajar, o porte altivo e
senhoril, certo balanceio afetado e langoroso dos movimentos
davam-lhe esse ar pretensioso, que acompanha toda moça
bonita e rica, ainda mesmo quando está sozinha. Mas com todo
esse luxo e donaire de grande senhora nem por isso sua grande
beleza deixava de ficar algum tanto eclipsada em presença das
formas puras e corretas, da nobre singeleza, e dos tão naturais
e modestos ademanes da cantora. Todavia Malvina era linda,
encantadora mesmo, e posto que vaidosa da sua formosura e
alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos azuis
toda a nativa bondade do seu coração.
Malvina aproximou-se de manso e sem ser pressentida
para junto da cantora, colocando-se por detrás dela esperou
que terminasse a última copla.
— Isaura!... disse ela pousando de leve a delicada mãozinha sobre o ombro da cantora.
— Ah! é a senhora?! — respondeu Isaura voltando-se
sobressaltada.
— Não sabia que estava aí me escutando.
— Pois que tem isso?... continua a cantar... tens a voz
tão bonita!... mas eu antes quisera que cantasses outra
coisa; porque é que você gosta tanto dessa cantiga tão triste,
que você aprendeu não sei onde?...
— Gosto dela, porque acho-a bonita e porque... ah! não
devo falar...
— Fala, Isaura. Já não te disse que nada me deves esconder, e nada recear de mim?...
— Porque me faz lembrar da minha mãe, que eu não
conheci, coitada!... Mas se a senhora não gosta dessa cantiga,
não a cantarei mais.
— Não gosto que a cantes, não, Isaura. Hão de pensar que
és maltratada, que és uma escrava infeliz, vítima de senhores
bárbaros e cruéis. Entretanto passas aqui uma vida que faria
inveja a muita gente livre. Gozas da estima dos teus senhores.
Deram-te uma educação, como não tiveram muitas ricas e ilustres damas que eu conheço.
(A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães. Fragmento.)
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A riqueza e o primoroso esmero do trajar, o porte altivo e
senhoril, certo balanceio afetado e langoroso dos movimentos
davam-lhe esse ar pretensioso, que acompanha toda moça
bonita e rica, ainda mesmo quando está sozinha. Mas com todo
esse luxo e donaire de grande senhora nem por isso sua grande
beleza deixava de ficar algum tanto eclipsada em presença das
formas puras e corretas, da nobre singeleza, e dos tão naturais
e modestos ademanes da cantora. Todavia Malvina era linda,
encantadora mesmo, e posto que vaidosa da sua formosura e
alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos azuis
toda a nativa bondade do seu coração.
Malvina aproximou-se de manso e sem ser pressentida
para junto da cantora, colocando-se por detrás dela esperou
que terminasse a última copla.
— Isaura!... disse ela pousando de leve a delicada mãozinha sobre o ombro da cantora.
— Ah! é a senhora?! — respondeu Isaura voltando-se
sobressaltada.
— Não sabia que estava aí me escutando.
— Pois que tem isso?... continua a cantar... tens a voz
tão bonita!... mas eu antes quisera que cantasses outra
coisa; porque é que você gosta tanto dessa cantiga tão triste,
que você aprendeu não sei onde?...
— Gosto dela, porque acho-a bonita e porque... ah! não
devo falar...
— Fala, Isaura. Já não te disse que nada me deves esconder, e nada recear de mim?...
— Porque me faz lembrar da minha mãe, que eu não
conheci, coitada!... Mas se a senhora não gosta dessa cantiga,
não a cantarei mais.
— Não gosto que a cantes, não, Isaura. Hão de pensar que
és maltratada, que és uma escrava infeliz, vítima de senhores
bárbaros e cruéis. Entretanto passas aqui uma vida que faria
inveja a muita gente livre. Gozas da estima dos teus senhores.
Deram-te uma educação, como não tiveram muitas ricas e ilustres damas que eu conheço.
(A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães. Fragmento.)
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A riqueza e o primoroso esmero do trajar, o porte altivo e
senhoril, certo balanceio afetado e langoroso dos movimentos
davam-lhe esse ar pretensioso, que acompanha toda moça
bonita e rica, ainda mesmo quando está sozinha. Mas com todo
esse luxo e donaire de grande senhora nem por isso sua grande
beleza deixava de ficar algum tanto eclipsada em presença das
formas puras e corretas, da nobre singeleza, e dos tão naturais
e modestos ademanes da cantora. Todavia Malvina era linda,
encantadora mesmo, e posto que vaidosa da sua formosura e
alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos azuis
toda a nativa bondade do seu coração.
Malvina aproximou-se de manso e sem ser pressentida
para junto da cantora, colocando-se por detrás dela esperou
que terminasse a última copla.
— Isaura!... disse ela pousando de leve a delicada mãozinha sobre o ombro da cantora.
— Ah! é a senhora?! — respondeu Isaura voltando-se
sobressaltada.
— Não sabia que estava aí me escutando.
— Pois que tem isso?... continua a cantar... tens a voz
tão bonita!... mas eu antes quisera que cantasses outra
coisa; porque é que você gosta tanto dessa cantiga tão triste,
que você aprendeu não sei onde?...
— Gosto dela, porque acho-a bonita e porque... ah! não
devo falar...
— Fala, Isaura. Já não te disse que nada me deves esconder, e nada recear de mim?...
— Porque me faz lembrar da minha mãe, que eu não
conheci, coitada!... Mas se a senhora não gosta dessa cantiga,
não a cantarei mais.
— Não gosto que a cantes, não, Isaura. Hão de pensar que
és maltratada, que és uma escrava infeliz, vítima de senhores
bárbaros e cruéis. Entretanto passas aqui uma vida que faria
inveja a muita gente livre. Gozas da estima dos teus senhores.
Deram-te uma educação, como não tiveram muitas ricas e ilustres damas que eu conheço.
(A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães. Fragmento.)
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A riqueza e o primoroso esmero do trajar, o porte altivo e
senhoril, certo balanceio afetado e langoroso dos movimentos
davam-lhe esse ar pretensioso, que acompanha toda moça
bonita e rica, ainda mesmo quando está sozinha. Mas com todo
esse luxo e donaire de grande senhora nem por isso sua grande
beleza deixava de ficar algum tanto eclipsada em presença das
formas puras e corretas, da nobre singeleza, e dos tão naturais
e modestos ademanes da cantora. Todavia Malvina era linda,
encantadora mesmo, e posto que vaidosa da sua formosura e
alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos azuis
toda a nativa bondade do seu coração.
Malvina aproximou-se de manso e sem ser pressentida
para junto da cantora, colocando-se por detrás dela esperou
que terminasse a última copla.
— Isaura!... disse ela pousando de leve a delicada mãozinha sobre o ombro da cantora.
— Ah! é a senhora?! — respondeu Isaura voltando-se
sobressaltada.
— Não sabia que estava aí me escutando.
— Pois que tem isso?... continua a cantar... tens a voz
tão bonita!... mas eu antes quisera que cantasses outra
coisa; porque é que você gosta tanto dessa cantiga tão triste,
que você aprendeu não sei onde?...
— Gosto dela, porque acho-a bonita e porque... ah! não
devo falar...
— Fala, Isaura. Já não te disse que nada me deves esconder, e nada recear de mim?...
— Porque me faz lembrar da minha mãe, que eu não
conheci, coitada!... Mas se a senhora não gosta dessa cantiga,
não a cantarei mais.
— Não gosto que a cantes, não, Isaura. Hão de pensar que
és maltratada, que és uma escrava infeliz, vítima de senhores
bárbaros e cruéis. Entretanto passas aqui uma vida que faria
inveja a muita gente livre. Gozas da estima dos teus senhores.
Deram-te uma educação, como não tiveram muitas ricas e ilustres damas que eu conheço.
(A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães. Fragmento.)
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A riqueza e o primoroso esmero do trajar, o porte altivo e
senhoril, certo balanceio afetado e langoroso dos movimentos
davam-lhe esse ar pretensioso, que acompanha toda moça
bonita e rica, ainda mesmo quando está sozinha. Mas com todo
esse luxo e donaire de grande senhora nem por isso sua grande
beleza deixava de ficar algum tanto eclipsada em presença das
formas puras e corretas, da nobre singeleza, e dos tão naturais
e modestos ademanes da cantora. Todavia Malvina era linda,
encantadora mesmo, e posto que vaidosa da sua formosura e
alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos azuis
toda a nativa bondade do seu coração.
Malvina aproximou-se de manso e sem ser pressentida
para junto da cantora, colocando-se por detrás dela esperou
que terminasse a última copla.
— Isaura!... disse ela pousando de leve a delicada mãozinha sobre o ombro da cantora.
— Ah! é a senhora?! — respondeu Isaura voltando-se
sobressaltada.
— Não sabia que estava aí me escutando.
— Pois que tem isso?... continua a cantar... tens a voz
tão bonita!... mas eu antes quisera que cantasses outra
coisa; porque é que você gosta tanto dessa cantiga tão triste,
que você aprendeu não sei onde?...
— Gosto dela, porque acho-a bonita e porque... ah! não
devo falar...
— Fala, Isaura. Já não te disse que nada me deves esconder, e nada recear de mim?...
— Porque me faz lembrar da minha mãe, que eu não
conheci, coitada!... Mas se a senhora não gosta dessa cantiga,
não a cantarei mais.
— Não gosto que a cantes, não, Isaura. Hão de pensar que
és maltratada, que és uma escrava infeliz, vítima de senhores
bárbaros e cruéis. Entretanto passas aqui uma vida que faria
inveja a muita gente livre. Gozas da estima dos teus senhores.
Deram-te uma educação, como não tiveram muitas ricas e ilustres damas que eu conheço.
(A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães. Fragmento.)
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Coisas antigas
Já tive muitas capas e infinitos guarda-chuvas, mas acabei
me cansando de tê-los e perdê-los; há anos vivo sem nenhum
desses abrigos, e também, como toda gente, sem chapéu. Tenho
apanhado muita chuva, dado muita corrida, me plantado debaixo de muita marquise, mas resistido. Como geralmente
chove à tarde, mais de uma vez me coloquei sob a proteção
espiritual dos irmãos Marinho, e fiz de O Globo meu paraguas
de emergência.
Ontem, porém, choveu demais, e eu precisava ir a três
pontos diferentes de meu bairro. Quando o moço de recados
veio apanhar a crônica para o jornal, pedi-lhe que me comprasse
um chapéu-de-chuva que não fosse vagabundo demais, mas
também não muito caro. Ele me comprou um de pouco mais de
trezentos cruzeiros, objeto que me parece bem digno da pequena classe média, a que pertenço (uma vez tive um delírio de
grandeza em Roma e adquiri a mais fina e soberba umbrella da
Via Condotti; abandonou-me no primeiro bar em que entramos;
não era coisa para mim).
Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo.
Senti então uma certa simpatia por ele; meu velho rancor contra
guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo
fiquei curioso de saber qual era a origem desse carinho.
Pensando bem, ele talvez derive do fato, creio que já notado por outras pessoas, de ser o guarda-chuva o objeto do
mundo moderno mais infenso a mudanças. Sou apenas um
quarentão, e praticamente nenhum objeto de minha infância
existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de
uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é
verdade, para melhor; mas mudaram.
O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas
e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu
austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De
junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal,
pobre ou rico, ele se tem mantido digno.
Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o
homem já inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo
e algo de fúnebre, essa pequena barraca ambulante.
Já na minha infância era um objeto de ares antiquados,
que parecia vindo de épocas remotas, e uma de suas características era ser muito usado em enterros. Por outro lado,
esse grande acompanhador de defuntos sempre teve, apesar
de seu feitio grave, o costume leviano de se perder, de sumir, de
mudar de dono. Ele na verdade só é fiel a seus amigos cem por
cento, que com ele saem todo dia, faça chuva ou faça sol, apesar
dos motejos alheios; a estes, respeita. O freguês vulgar e ocasional, este o irrita, e ele se aproveita da primeira distração para
fugir.
Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Ali está
ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma
espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido que iria para cima do telhado quentar sol, como fazem os urubus.
Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia
a arquitetura e os móveis chamados funcionais: ele já era
funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que
a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem
não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.
Não sei há quantos anos existe a Casa Loubet, na Rua
Sete de Setembro. Também não sei se seus guarda-chuvas
são melhores ou piores que os outros; são bons; meu pai os
comprava lá, sempre que vinha ao Rio, herdei esse hábito.
Há um certo conforto íntimo em seguir um hábito paterno;
uma certa segurança e uma certa doçura. Estou pensando agora
se quando ficar um pouco mais velho não comprarei uma cadeira de balanço austríaca. É outra coisa antiga que tem resistido, embora muito discretamente. Os mobiliadores e decoradores modernos a ignoram; já se inventaram dela mil versões
modificadas, mas ela ainda existe na sua graça e leveza original.
É respeitável como um guarda-chuva me convém para resguardo da cabeça encanecida, e talvez o embalo de uma cadeira
de balanço dê uma cadência mais sossegada aos meus pensamentos, e uma velha doçura familiar aos sonhos de senhor só.
(BRAGA, Rubem. 1913-1990. 200 crônicas escolhidas – 31ª ed. Rio de
Janeiro: Record, 2010.)
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Coisas antigas
Já tive muitas capas e infinitos guarda-chuvas, mas acabei
me cansando de tê-los e perdê-los; há anos vivo sem nenhum
desses abrigos, e também, como toda gente, sem chapéu. Tenho
apanhado muita chuva, dado muita corrida, me plantado debaixo de muita marquise, mas resistido. Como geralmente
chove à tarde, mais de uma vez me coloquei sob a proteção
espiritual dos irmãos Marinho, e fiz de O Globo meu paraguas
de emergência.
Ontem, porém, choveu demais, e eu precisava ir a três
pontos diferentes de meu bairro. Quando o moço de recados
veio apanhar a crônica para o jornal, pedi-lhe que me comprasse
um chapéu-de-chuva que não fosse vagabundo demais, mas
também não muito caro. Ele me comprou um de pouco mais de
trezentos cruzeiros, objeto que me parece bem digno da pequena classe média, a que pertenço (uma vez tive um delírio de
grandeza em Roma e adquiri a mais fina e soberba umbrella da
Via Condotti; abandonou-me no primeiro bar em que entramos;
não era coisa para mim).
Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo.
Senti então uma certa simpatia por ele; meu velho rancor contra
guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo
fiquei curioso de saber qual era a origem desse carinho.
Pensando bem, ele talvez derive do fato, creio que já notado por outras pessoas, de ser o guarda-chuva o objeto do
mundo moderno mais infenso a mudanças. Sou apenas um
quarentão, e praticamente nenhum objeto de minha infância
existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de
uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é
verdade, para melhor; mas mudaram.
O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas
e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu
austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De
junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal,
pobre ou rico, ele se tem mantido digno.
Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o
homem já inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo
e algo de fúnebre, essa pequena barraca ambulante.
Já na minha infância era um objeto de ares antiquados,
que parecia vindo de épocas remotas, e uma de suas características era ser muito usado em enterros. Por outro lado,
esse grande acompanhador de defuntos sempre teve, apesar
de seu feitio grave, o costume leviano de se perder, de sumir, de
mudar de dono. Ele na verdade só é fiel a seus amigos cem por
cento, que com ele saem todo dia, faça chuva ou faça sol, apesar
dos motejos alheios; a estes, respeita. O freguês vulgar e ocasional, este o irrita, e ele se aproveita da primeira distração para
fugir.
Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Ali está
ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma
espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido que iria para cima do telhado quentar sol, como fazem os urubus.
Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia
a arquitetura e os móveis chamados funcionais: ele já era
funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que
a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem
não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.
Não sei há quantos anos existe a Casa Loubet, na Rua
Sete de Setembro. Também não sei se seus guarda-chuvas
são melhores ou piores que os outros; são bons; meu pai os
comprava lá, sempre que vinha ao Rio, herdei esse hábito.
Há um certo conforto íntimo em seguir um hábito paterno;
uma certa segurança e uma certa doçura. Estou pensando agora
se quando ficar um pouco mais velho não comprarei uma cadeira de balanço austríaca. É outra coisa antiga que tem resistido, embora muito discretamente. Os mobiliadores e decoradores modernos a ignoram; já se inventaram dela mil versões
modificadas, mas ela ainda existe na sua graça e leveza original.
É respeitável como um guarda-chuva me convém para resguardo da cabeça encanecida, e talvez o embalo de uma cadeira
de balanço dê uma cadência mais sossegada aos meus pensamentos, e uma velha doçura familiar aos sonhos de senhor só.
(BRAGA, Rubem. 1913-1990. 200 crônicas escolhidas – 31ª ed. Rio de
Janeiro: Record, 2010.)
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Coisas antigas
Já tive muitas capas e infinitos guarda-chuvas, mas acabei
me cansando de tê-los e perdê-los; há anos vivo sem nenhum
desses abrigos, e também, como toda gente, sem chapéu. Tenho
apanhado muita chuva, dado muita corrida, me plantado debaixo de muita marquise, mas resistido. Como geralmente
chove à tarde, mais de uma vez me coloquei sob a proteção
espiritual dos irmãos Marinho, e fiz de O Globo meu paraguas
de emergência.
Ontem, porém, choveu demais, e eu precisava ir a três
pontos diferentes de meu bairro. Quando o moço de recados
veio apanhar a crônica para o jornal, pedi-lhe que me comprasse
um chapéu-de-chuva que não fosse vagabundo demais, mas
também não muito caro. Ele me comprou um de pouco mais de
trezentos cruzeiros, objeto que me parece bem digno da pequena classe média, a que pertenço (uma vez tive um delírio de
grandeza em Roma e adquiri a mais fina e soberba umbrella da
Via Condotti; abandonou-me no primeiro bar em que entramos;
não era coisa para mim).
Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo.
Senti então uma certa simpatia por ele; meu velho rancor contra
guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo
fiquei curioso de saber qual era a origem desse carinho.
Pensando bem, ele talvez derive do fato, creio que já notado por outras pessoas, de ser o guarda-chuva o objeto do
mundo moderno mais infenso a mudanças. Sou apenas um
quarentão, e praticamente nenhum objeto de minha infância
existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de
uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é
verdade, para melhor; mas mudaram.
O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas
e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu
austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De
junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal,
pobre ou rico, ele se tem mantido digno.
Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o
homem já inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo
e algo de fúnebre, essa pequena barraca ambulante.
Já na minha infância era um objeto de ares antiquados,
que parecia vindo de épocas remotas, e uma de suas características era ser muito usado em enterros. Por outro lado,
esse grande acompanhador de defuntos sempre teve, apesar
de seu feitio grave, o costume leviano de se perder, de sumir, de
mudar de dono. Ele na verdade só é fiel a seus amigos cem por
cento, que com ele saem todo dia, faça chuva ou faça sol, apesar
dos motejos alheios; a estes, respeita. O freguês vulgar e ocasional, este o irrita, e ele se aproveita da primeira distração para
fugir.
Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Ali está
ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma
espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido que iria para cima do telhado quentar sol, como fazem os urubus.
Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia
a arquitetura e os móveis chamados funcionais: ele já era
funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que
a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem
não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.
Não sei há quantos anos existe a Casa Loubet, na Rua
Sete de Setembro. Também não sei se seus guarda-chuvas
são melhores ou piores que os outros; são bons; meu pai os
comprava lá, sempre que vinha ao Rio, herdei esse hábito.
Há um certo conforto íntimo em seguir um hábito paterno;
uma certa segurança e uma certa doçura. Estou pensando agora
se quando ficar um pouco mais velho não comprarei uma cadeira de balanço austríaca. É outra coisa antiga que tem resistido, embora muito discretamente. Os mobiliadores e decoradores modernos a ignoram; já se inventaram dela mil versões
modificadas, mas ela ainda existe na sua graça e leveza original.
É respeitável como um guarda-chuva me convém para resguardo da cabeça encanecida, e talvez o embalo de uma cadeira
de balanço dê uma cadência mais sossegada aos meus pensamentos, e uma velha doçura familiar aos sonhos de senhor só.
(BRAGA, Rubem. 1913-1990. 200 crônicas escolhidas – 31ª ed. Rio de
Janeiro: Record, 2010.)
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Coisas antigas
Já tive muitas capas e infinitos guarda-chuvas, mas acabei
me cansando de tê-los e perdê-los; há anos vivo sem nenhum
desses abrigos, e também, como toda gente, sem chapéu. Tenho
apanhado muita chuva, dado muita corrida, me plantado debaixo de muita marquise, mas resistido. Como geralmente
chove à tarde, mais de uma vez me coloquei sob a proteção
espiritual dos irmãos Marinho, e fiz de O Globo meu paraguas
de emergência.
Ontem, porém, choveu demais, e eu precisava ir a três
pontos diferentes de meu bairro. Quando o moço de recados
veio apanhar a crônica para o jornal, pedi-lhe que me comprasse
um chapéu-de-chuva que não fosse vagabundo demais, mas
também não muito caro. Ele me comprou um de pouco mais de
trezentos cruzeiros, objeto que me parece bem digno da pequena classe média, a que pertenço (uma vez tive um delírio de
grandeza em Roma e adquiri a mais fina e soberba umbrella da
Via Condotti; abandonou-me no primeiro bar em que entramos;
não era coisa para mim).
Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo.
Senti então uma certa simpatia por ele; meu velho rancor contra
guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo
fiquei curioso de saber qual era a origem desse carinho.
Pensando bem, ele talvez derive do fato, creio que já notado por outras pessoas, de ser o guarda-chuva o objeto do
mundo moderno mais infenso a mudanças. Sou apenas um
quarentão, e praticamente nenhum objeto de minha infância
existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de
uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é
verdade, para melhor; mas mudaram.
O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas
e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu
austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De
junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal,
pobre ou rico, ele se tem mantido digno.
Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o
homem já inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo
e algo de fúnebre, essa pequena barraca ambulante.
Já na minha infância era um objeto de ares antiquados,
que parecia vindo de épocas remotas, e uma de suas características era ser muito usado em enterros. Por outro lado,
esse grande acompanhador de defuntos sempre teve, apesar
de seu feitio grave, o costume leviano de se perder, de sumir, de
mudar de dono. Ele na verdade só é fiel a seus amigos cem por
cento, que com ele saem todo dia, faça chuva ou faça sol, apesar
dos motejos alheios; a estes, respeita. O freguês vulgar e ocasional, este o irrita, e ele se aproveita da primeira distração para
fugir.
Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Ali está
ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma
espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido que iria para cima do telhado quentar sol, como fazem os urubus.
Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia
a arquitetura e os móveis chamados funcionais: ele já era
funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que
a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem
não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.
Não sei há quantos anos existe a Casa Loubet, na Rua
Sete de Setembro. Também não sei se seus guarda-chuvas
são melhores ou piores que os outros; são bons; meu pai os
comprava lá, sempre que vinha ao Rio, herdei esse hábito.
Há um certo conforto íntimo em seguir um hábito paterno;
uma certa segurança e uma certa doçura. Estou pensando agora
se quando ficar um pouco mais velho não comprarei uma cadeira de balanço austríaca. É outra coisa antiga que tem resistido, embora muito discretamente. Os mobiliadores e decoradores modernos a ignoram; já se inventaram dela mil versões
modificadas, mas ela ainda existe na sua graça e leveza original.
É respeitável como um guarda-chuva me convém para resguardo da cabeça encanecida, e talvez o embalo de uma cadeira
de balanço dê uma cadência mais sossegada aos meus pensamentos, e uma velha doçura familiar aos sonhos de senhor só.
(BRAGA, Rubem. 1913-1990. 200 crônicas escolhidas – 31ª ed. Rio de
Janeiro: Record, 2010.)
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Questão presente nas seguintes provas
Coisas antigas
Já tive muitas capas e infinitos guarda-chuvas, mas acabei
me cansando de tê-los e perdê-los; há anos vivo sem nenhum
desses abrigos, e também, como toda gente, sem chapéu. Tenho
apanhado muita chuva, dado muita corrida, me plantado debaixo de muita marquise, mas resistido. Como geralmente
chove à tarde, mais de uma vez me coloquei sob a proteção
espiritual dos irmãos Marinho, e fiz de O Globo meu paraguas
de emergência.
Ontem, porém, choveu demais, e eu precisava ir a três
pontos diferentes de meu bairro. Quando o moço de recados
veio apanhar a crônica para o jornal, pedi-lhe que me comprasse
um chapéu-de-chuva que não fosse vagabundo demais, mas
também não muito caro. Ele me comprou um de pouco mais de
trezentos cruzeiros, objeto que me parece bem digno da pequena classe média, a que pertenço (uma vez tive um delírio de
grandeza em Roma e adquiri a mais fina e soberba umbrella da
Via Condotti; abandonou-me no primeiro bar em que entramos;
não era coisa para mim).
Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo.
Senti então uma certa simpatia por ele; meu velho rancor contra
guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo
fiquei curioso de saber qual era a origem desse carinho.
Pensando bem, ele talvez derive do fato, creio que já notado por outras pessoas, de ser o guarda-chuva o objeto do
mundo moderno mais infenso a mudanças. Sou apenas um
quarentão, e praticamente nenhum objeto de minha infância
existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de
uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é
verdade, para melhor; mas mudaram.
O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas
e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu
austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De
junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal,
pobre ou rico, ele se tem mantido digno.
Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o
homem já inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo
e algo de fúnebre, essa pequena barraca ambulante.
Já na minha infância era um objeto de ares antiquados,
que parecia vindo de épocas remotas, e uma de suas características era ser muito usado em enterros. Por outro lado,
esse grande acompanhador de defuntos sempre teve, apesar
de seu feitio grave, o costume leviano de se perder, de sumir, de
mudar de dono. Ele na verdade só é fiel a seus amigos cem por
cento, que com ele saem todo dia, faça chuva ou faça sol, apesar
dos motejos alheios; a estes, respeita. O freguês vulgar e ocasional, este o irrita, e ele se aproveita da primeira distração para
fugir.
Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Ali está
ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma
espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido que iria para cima do telhado quentar sol, como fazem os urubus.
Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia
a arquitetura e os móveis chamados funcionais: ele já era
funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que
a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem
não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.
Não sei há quantos anos existe a Casa Loubet, na Rua
Sete de Setembro. Também não sei se seus guarda-chuvas
são melhores ou piores que os outros; são bons; meu pai os
comprava lá, sempre que vinha ao Rio, herdei esse hábito.
Há um certo conforto íntimo em seguir um hábito paterno;
uma certa segurança e uma certa doçura. Estou pensando agora
se quando ficar um pouco mais velho não comprarei uma cadeira de balanço austríaca. É outra coisa antiga que tem resistido, embora muito discretamente. Os mobiliadores e decoradores modernos a ignoram; já se inventaram dela mil versões
modificadas, mas ela ainda existe na sua graça e leveza original.
É respeitável como um guarda-chuva me convém para resguardo da cabeça encanecida, e talvez o embalo de uma cadeira
de balanço dê uma cadência mais sossegada aos meus pensamentos, e uma velha doçura familiar aos sonhos de senhor só.
(BRAGA, Rubem. 1913-1990. 200 crônicas escolhidas – 31ª ed. Rio de
Janeiro: Record, 2010.)
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