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A resposta que o Brasil quer ouvir
(A causa do surto de malformação cerebral em bebês do
Nordeste é mesmo o zika vírus? A inquietação de uma
médica da Paraíba em busca da verdade)
Para a maioria das mulheres, a gravidez é um momento literalmente mágico. Um espaço para as mais doces e livres projeções sobre o futuro dos filhos. Não tem sido assim com centenas de mães que moram em .Pernambuco e em outros seis Estados do Nordeste. Nos últimos seis meses, elas foram obrigadas a confrontar a realidade cedo demais. Nos primeiros exames de imagens feitos durante a gestação (ou logo após o parto), descobriram que seus bebês sofriam de uma malformação cerebral conhecida como microcefalia. Ela compromete gravemente o desenvolvimento da criança. Nada mais será como antes.
O perímetro da cabeça desses bebês, no nascimento, é inferior à média normal de 34 centímetros.
Em cerca de 90% dos casos, essa condição provoca algum tipo de deficiência mental. Outras consequências costumam ocorrer, como crises de epilepsia, dores de cabeça e nas articulações, visão prejudicada, surdez, problemas intestinais. A microcefalia sempre foi uma doença rara, causada por radiação, consumo de drogas pelas gestantes ou infecção por bactérias e vírus. Por alguma razão desconhecida, a anomalia se tornou expressivamente mais frequente no país. Até a semana passada, 399 casos haviam sido informados ao Ministério da Saúde. Quase o triplo das 197 notificações de 2014.
Nos quatro anos anteriores, o padrão se manteve em torno de uma centena de casos. O alerta ganhou corpo quando as autoridades revelaram a principal suspeita: a infecção das mães pelo vírus zika (novo no Brasil e transmitido pelo mesmo mosquito da dengue) seria a responsável pelo surto.
O Ministério da Saúde revelou que o vírus foi detectado no líquido amniótico (o fluido que envolve o feto) extraído de duas gestantes da Paraíba. Isso fecha o diagnóstico? “Quase. Ainda há uma pequena margem de dúvida”, diz o diretor de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch. A associação entre o vírus e a ocorrência de microcefalia nos bebês é inédita no mundo. Se for comprovada, significará um grande feito científico e uma enorme fonte de preocupação. Um país infestado pelo Aedes aegyipt, onde o vírus zika já circula em 14 Estados e segue em franca expansão de território, engravidar pode se tornar uma escolha arriscada. “As mulheres devem pensar duas vezes”, afirmou Maierovitch.
Por trás do anúncio protocolar sobre o estudo realizado com as duas gestantes da Paraíba, há uma história singular, de incansável busca por respostas. Em setembro, a obstetra Adriana Melo, especialista em medicina fetal, começou a atender em Campina Grande, a 130 quilômetros de João Pessoa, casos que fugiam ao padrão. Tanto na clínica privada quanto no Instituto de Saúde Elpídio de Almeida, um serviço público, ela se surpreendeu ao observar o cérebro dos embriões durante os exames de ultrassonografia. Além do crânio menor, em alguns casos não era possível identificar todas as estruturas do cérebro. Adriana notou a ausência do cerebelo – a estrutura responsável pela manutenção do equilíbrio e da aprendizagem motora. Se essa região não se desenvolver, uma criança não consegue correr, andar de bicicleta, jogar bola. Novos exames, realizados três semanas depois, apontavam calcificações grosseiras e comprovavam que a cabeça não crescia.
Com dois doutorados e 17 anos de experiência, Adriana estava inconformada por não poder oferecer uma explicação às mães. Quando as autoridades de Pernambuco relataram um surto de microcefalia e afirmaram que as gestantes haviam tido manchas vermelhas na pele, Adriana começou a ligar os pontos. O mesmo sintoma ocorrera nas pacientes atendidas por ela na Paraíba. A médica convenceu as secretarias de saúde a custear a viagem de duas pacientes a São Paulo.
Durante um congresso internacional de medicina fetal, elas forma examinadas pelo médico Gustavo Malinger, da Universidade de Tel Aviv, em Israel, um dos mais respeitados especialistas no mundo. Ele considerou que os casos realmente fugiam ao padrão e se surpreendeu com o fato de o Brasil, com mais de 200 notificações da doença, ainda não ter descoberto a razão do problema.
Adriana transformou o comentário incômodo em energia para persistir. No início de novembro, ela coletou as amostras do líquido amniótico na 28ª semana de gestação das duas pacientes em Campina Grande e enviou o material para análise na Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Três técnicas diferentes constataram a presença do material genético do vírus nessas amostras. Em visita ao Brasil, a diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Margareth Chan, disse que a entidade acompanha as investigações. “É preciso enfatizar que a ligação com o vírus zika ainda não está determinada”, afirmou. “Precisamos continuar o trabalho.”
Na Paraíba, Adriana organiza um mutirão para estudar outras pacientes. “Tenho ouvido que só dois casos não comprovam nada, mas minha maior preocupação era orientar essas mulheres”, diz Adriana.
“Para mim, elas não são números. É a mãe do Guilherme e a da Catarina.” Com menos de 35 anos e na 30ª semana de gestação, elas sofrem em silêncio. “A cada dia, elas têm de enfrentar uma notícia pior”, diz a médica.
O conjunto de interrogações levou o governo federal a declarar estado de emergência em saúde pública. A medida é justificável, na opinião do infectologista Marcos Boulos, diretor da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria Estadual de Saúde, em São Paulo. “O Ministério da Saúde tomou essa decisão pelo medo do escuro”, diz. “Não sabemos o que está acontecendo.”
A medida permite, entre outras coisas, que os governos façam compras ou contratem serviços sem abrir concorrências públicas. “Por enquanto não identificamos nenhuma necessidade de compra de materiais ou insumos adicionais”, disse Maierovitch. “Se essa necessidade surgir, compraremos sem licitação.” O esclarecimento dos casos não é simples. Caso o zika seja realmente o responsável, a mãe deve ter sido picada pelo mosquito nas primeiras semanas de gestação, quando ocorre o desenvolvimento do cérebro do bebê. Depois do nascimento, a criança, mesmo que tenha sido infectada não apresenta mais sinais do vírus. Não seria ético submeter todas as grávidas de fetos com microcefalia a uma punção do líquido amniótico. Ela oferece riscos, inclusive de abortamento.
Estima-se que dezenas de milhares de brasileiros tenham sido infectados – 80% não tiveram sintomas. Até recentemente, os cientistas acreditavam que o vírus tivesse chegado ao país durante a Copa do Mundo. Um artigo publicado em Outubro na revista Emerging Infectius Diseases apresenta outras versão. As cepas que circulam no Brasil são semelhantes às do grande surto ocorrido na região da Polinésia Francesa entre 2013 e 2014. O vírus teria chegado ao Brasil em agosto de 2014, quando atletas de quatro países afetados pelo vírus naquela região participaram de um campeonato internacional de canoagem, no Rio. A análise do líquido amniótico das gestantes da Paraíba, realizada na Fiocruz, confirmou que o vírus tem, realmente, o genótipo asiático – e não o africano. Para aumentar a vigilância, a Secretaria Estadual de Saúde do Rio passou a exigir a notificação obrigatória de casos de grávidas que apresentarem manchas vermelhas na pele. Os brasileiros ganharam mais uma razão para combater os focos do mosquito, capaz de provocar três epidemias simultâneas (dengue, chikungunya e zika). O governo federal adota o princípio da precaução. “Declaramos nossa ignorância, mas não podemos nos omitir”, afirma Maierovitch. As mães desses bebês merecem mais do que isso. Precisam que o Estado garanta o acesso a recursos de fisioterapia, fonoaudiologia e outras formas de reduzir o impacto das sequelas. Fora da arena científica e burocrática, a luta dessas mulheres é por alguma qualidade de vida.
Texto escrito pela jornalista Cristiane Segatto. Revista Época, edição de
23 de novembro de 2015, n 911, São Paulo, Capital.
“Novos exames, realizados três semanas depois, apontavam calcificações grosseiras e comprovavam que a cabeça não crescia.”
Qual é a função sintática de “calcificações grosseiras”?
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Sabendo-se dos critérios de diagnóstico da Febre Reumática, a partir dos critérios de Jones, a opção que nos dá certeza de diagnóstico, frente a uma infecção estreptocócica prévia nos últimos 45 dias é:
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Maria do Carmo é acompanhada pela unidade básica, hipertensa de longa data, começou a apresentar sintomas de dispneia e fadiga aos pequenos esforços. Vem com uma série de exames no qual o raio-x de tórax apresenta índice cardiotorácico de 0,60 e ecocardiograma demonstra uma fração de ejeção de 40%. Podemos concluir que:
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A resposta que o Brasil quer ouvir
(A causa do surto de malformação cerebral em bebês do
Nordeste é mesmo o zika vírus? A inquietação de uma
médica da Paraíba em busca da verdade)
Para a maioria das mulheres, a gravidez é um momento literalmente mágico. Um espaço para as mais doces e livres projeções sobre o futuro dos filhos. Não tem sido assim com centenas de mães que moram em .Pernambuco e em outros seis Estados do Nordeste. Nos últimos seis meses, elas foram obrigadas a confrontar a realidade cedo demais. Nos primeiros exames de imagens feitos durante a gestação (ou logo após o parto), descobriram que seus bebês sofriam de uma malformação cerebral conhecida como microcefalia. Ela compromete gravemente o desenvolvimento da criança. Nada mais será como antes.
O perímetro da cabeça desses bebês, no nascimento, é inferior à média normal de 34 centímetros.
Em cerca de 90% dos casos, essa condição provoca algum tipo de deficiência mental. Outras consequências costumam ocorrer, como crises de epilepsia, dores de cabeça e nas articulações, visão prejudicada, surdez, problemas intestinais. A microcefalia sempre foi uma doença rara, causada por radiação, consumo de drogas pelas gestantes ou infecção por bactérias e vírus. Por alguma razão desconhecida, a anomalia se tornou expressivamente mais frequente no país. Até a semana passada, 399 casos haviam sido informados ao Ministério da Saúde. Quase o triplo das 197 notificações de 2014.
Nos quatro anos anteriores, o padrão se manteve em torno de uma centena de casos. O alerta ganhou corpo quando as autoridades revelaram a principal suspeita: a infecção das mães pelo vírus zika (novo no Brasil e transmitido pelo mesmo mosquito da dengue) seria a responsável pelo surto.
O Ministério da Saúde revelou que o vírus foi detectado no líquido amniótico (o fluido que envolve o feto) extraído de duas gestantes da Paraíba. Isso fecha o diagnóstico? “Quase. Ainda há uma pequena margem de dúvida”, diz o diretor de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch. A associação entre o vírus e a ocorrência de microcefalia nos bebês é inédita no mundo. Se for comprovada, significará um grande feito científico e uma enorme fonte de preocupação. Um país infestado pelo Aedes aegyipt, onde o vírus zika já circula em 14 Estados e segue em franca expansão de território, engravidar pode se tornar uma escolha arriscada. “As mulheres devem pensar duas vezes”, afirmou Maierovitch.
Por trás do anúncio protocolar sobre o estudo realizado com as duas gestantes da Paraíba, há uma história singular, de incansável busca por respostas. Em setembro, a obstetra Adriana Melo, especialista em medicina fetal, começou a atender em Campina Grande, a 130 quilômetros de João Pessoa, casos que fugiam ao padrão. Tanto na clínica privada quanto no Instituto de Saúde Elpídio de Almeida, um serviço público, ela se surpreendeu ao observar o cérebro dos embriões durante os exames de ultrassonografia. Além do crânio menor, em alguns casos não era possível identificar todas as estruturas do cérebro. Adriana notou a ausência do cerebelo – a estrutura responsável pela manutenção do equilíbrio e da aprendizagem motora. Se essa região não se desenvolver, uma criança não consegue correr, andar de bicicleta, jogar bola. Novos exames, realizados três semanas depois, apontavam calcificações grosseiras e comprovavam que a cabeça não crescia.
Com dois doutorados e 17 anos de experiência, Adriana estava inconformada por não poder oferecer uma explicação às mães. Quando as autoridades de Pernambuco relataram um surto de microcefalia e afirmaram que as gestantes haviam tido manchas vermelhas na pele, Adriana começou a ligar os pontos. O mesmo sintoma ocorrera nas pacientes atendidas por ela na Paraíba. A médica convenceu as secretarias de saúde a custear a viagem de duas pacientes a São Paulo.
Durante um congresso internacional de medicina fetal, elas forma examinadas pelo médico Gustavo Malinger, da Universidade de Tel Aviv, em Israel, um dos mais respeitados especialistas no mundo. Ele considerou que os casos realmente fugiam ao padrão e se surpreendeu com o fato de o Brasil, com mais de 200 notificações da doença, ainda não ter descoberto a razão do problema.
Adriana transformou o comentário incômodo em energia para persistir. No início de novembro, ela coletou as amostras do líquido amniótico na 28ª semana de gestação das duas pacientes em Campina Grande e enviou o material para análise na Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Três técnicas diferentes constataram a presença do material genético do vírus nessas amostras. Em visita ao Brasil, a diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Margareth Chan, disse que a entidade acompanha as investigações. “É preciso enfatizar que a ligação com o vírus zika ainda não está determinada”, afirmou. “Precisamos continuar o trabalho.”
Na Paraíba, Adriana organiza um mutirão para estudar outras pacientes. “Tenho ouvido que só dois casos não comprovam nada, mas minha maior preocupação era orientar essas mulheres”, diz Adriana.
“Para mim, elas não são números. É a mãe do Guilherme e a da Catarina.” Com menos de 35 anos e na 30ª semana de gestação, elas sofrem em silêncio. “A cada dia, elas têm de enfrentar uma notícia pior”, diz a médica.
O conjunto de interrogações levou o governo federal a declarar estado de emergência em saúde pública. A medida é justificável, na opinião do infectologista Marcos Boulos, diretor da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria Estadual de Saúde, em São Paulo. “O Ministério da Saúde tomou essa decisão pelo medo do escuro”, diz. “Não sabemos o que está acontecendo.”
A medida permite, entre outras coisas, que os governos façam compras ou contratem serviços sem abrir concorrências públicas. “Por enquanto não identificamos nenhuma necessidade de compra de materiais ou insumos adicionais”, disse Maierovitch. “Se essa necessidade surgir, compraremos sem licitação.” O esclarecimento dos casos não é simples. Caso o zika seja realmente o responsável, a mãe deve ter sido picada pelo mosquito nas primeiras semanas de gestação, quando ocorre o desenvolvimento do cérebro do bebê. Depois do nascimento, a criança, mesmo que tenha sido infectada não apresenta mais sinais do vírus. Não seria ético submeter todas as grávidas de fetos com microcefalia a uma punção do líquido amniótico. Ela oferece riscos, inclusive de abortamento.
Estima-se que dezenas de milhares de brasileiros tenham sido infectados – 80% não tiveram sintomas. Até recentemente, os cientistas acreditavam que o vírus tivesse chegado ao país durante a Copa do Mundo. Um artigo publicado em Outubro na revista Emerging Infectius Diseases apresenta outras versão. As cepas que circulam no Brasil são semelhantes às do grande surto ocorrido na região da Polinésia Francesa entre 2013 e 2014. O vírus teria chegado ao Brasil em agosto de 2014, quando atletas de quatro países afetados pelo vírus naquela região participaram de um campeonato internacional de canoagem, no Rio. A análise do líquido amniótico das gestantes da Paraíba, realizada na Fiocruz, confirmou que o vírus tem, realmente, o genótipo asiático – e não o africano. Para aumentar a vigilância, a Secretaria Estadual de Saúde do Rio passou a exigir a notificação obrigatória de casos de grávidas que apresentarem manchas vermelhas na pele. Os brasileiros ganharam mais uma razão para combater os focos do mosquito, capaz de provocar três epidemias simultâneas (dengue, chikungunya e zika). O governo federal adota o princípio da precaução. “Declaramos nossa ignorância, mas não podemos nos omitir”, afirma Maierovitch. As mães desses bebês merecem mais do que isso. Precisam que o Estado garanta o acesso a recursos de fisioterapia, fonoaudiologia e outras formas de reduzir o impacto das sequelas. Fora da arena científica e burocrática, a luta dessas mulheres é por alguma qualidade de vida.
Texto escrito pela jornalista Cristiane Segatto. Revista Época, edição de
23 de novembro de 2015, n 911, São Paulo, Capital.
“Ele considerou que os casos realmente fugiam ao padrão e se surpreendeu com o fato de o Brasil, com mais de 200 notificações da doença, ainda não ter descoberto a razão do problema.”
De acordo com essa declaração do médico israelense:
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Maria Clara apresenta sintomas de asma semanalmente, com necessidade de uso de broncodilatadores em alguns dos dias. Apresenta-se indisposta a brincar com os amigos apenas nas agudizações e pelo menos uma vez por mês apresenta despertar noturno. A classificação clínica de asma de Maria Clara é:
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Paciente do sexo feminino, 75 anos, com uma cistite bacteriana. Paciente não apresenta comorbidades e com ausência de achados de pielonefrite. O tempo da antibioticoterapia, tendo como escolha terapêutica o ciprofloxacino é de:
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Débora, gestante com 15 semanas vem à unidade com queixa de “bolha” presente em partes íntimas. Apresenta a bateria de exames do primeiro trimestre, em que o VDRL vem positivo. Logo:
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Sobre a Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE), assinale a alternativa correta:
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Uma disfasia está provavelmente relacionada com uma lesão em:
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médica da Paraíba em busca da verdade)
Para a maioria das mulheres, a gravidez é um momento literalmente mágico. Um espaço para as mais doces e livres projeções sobre o futuro dos filhos. Não tem sido assim com centenas de mães que moram em .Pernambuco e em outros seis Estados do Nordeste. Nos últimos seis meses, elas foram obrigadas a confrontar a realidade cedo demais. Nos primeiros exames de imagens feitos durante a gestação (ou logo após o parto), descobriram que seus bebês sofriam de uma malformação cerebral conhecida como microcefalia. Ela compromete gravemente o desenvolvimento da criança. Nada mais será como antes.
O perímetro da cabeça desses bebês, no nascimento, é inferior à média normal de 34 centímetros.
Em cerca de 90% dos casos, essa condição provoca algum tipo de deficiência mental. Outras consequências costumam ocorrer, como crises de epilepsia, dores de cabeça e nas articulações, visão prejudicada, surdez, problemas intestinais. A microcefalia sempre foi uma doença rara, causada por radiação, consumo de drogas pelas gestantes ou infecção por bactérias e vírus. Por alguma razão desconhecida, a anomalia se tornou expressivamente mais frequente no país. Até a semana passada, 399 casos haviam sido informados ao Ministério da Saúde. Quase o triplo das 197 notificações de 2014.
Nos quatro anos anteriores, o padrão se manteve em torno de uma centena de casos. O alerta ganhou corpo quando as autoridades revelaram a principal suspeita: a infecção das mães pelo vírus zika (novo no Brasil e transmitido pelo mesmo mosquito da dengue) seria a responsável pelo surto.
O Ministério da Saúde revelou que o vírus foi detectado no líquido amniótico (o fluido que envolve o feto) extraído de duas gestantes da Paraíba. Isso fecha o diagnóstico? “Quase. Ainda há uma pequena margem de dúvida”, diz o diretor de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch. A associação entre o vírus e a ocorrência de microcefalia nos bebês é inédita no mundo. Se for comprovada, significará um grande feito científico e uma enorme fonte de preocupação. Um país infestado pelo Aedes aegyipt, onde o vírus zika já circula em 14 Estados e segue em franca expansão de território, engravidar pode se tornar uma escolha arriscada. “As mulheres devem pensar duas vezes”, afirmou Maierovitch.
Por trás do anúncio protocolar sobre o estudo realizado com as duas gestantes da Paraíba, há uma história singular, de incansável busca por respostas. Em setembro, a obstetra Adriana Melo, especialista em medicina fetal, começou a atender em Campina Grande, a 130 quilômetros de João Pessoa, casos que fugiam ao padrão. Tanto na clínica privada quanto no Instituto de Saúde Elpídio de Almeida, um serviço público, ela se surpreendeu ao observar o cérebro dos embriões durante os exames de ultrassonografia. Além do crânio menor, em alguns casos não era possível identificar todas as estruturas do cérebro. Adriana notou a ausência do cerebelo – a estrutura responsável pela manutenção do equilíbrio e da aprendizagem motora. Se essa região não se desenvolver, uma criança não consegue correr, andar de bicicleta, jogar bola. Novos exames, realizados três semanas depois, apontavam calcificações grosseiras e comprovavam que a cabeça não crescia.
Com dois doutorados e 17 anos de experiência, Adriana estava inconformada por não poder oferecer uma explicação às mães. Quando as autoridades de Pernambuco relataram um surto de microcefalia e afirmaram que as gestantes haviam tido manchas vermelhas na pele, Adriana começou a ligar os pontos. O mesmo sintoma ocorrera nas pacientes atendidas por ela na Paraíba. A médica convenceu as secretarias de saúde a custear a viagem de duas pacientes a São Paulo.
Durante um congresso internacional de medicina fetal, elas forma examinadas pelo médico Gustavo Malinger, da Universidade de Tel Aviv, em Israel, um dos mais respeitados especialistas no mundo. Ele considerou que os casos realmente fugiam ao padrão e se surpreendeu com o fato de o Brasil, com mais de 200 notificações da doença, ainda não ter descoberto a razão do problema.
Adriana transformou o comentário incômodo em energia para persistir. No início de novembro, ela coletou as amostras do líquido amniótico na 28ª semana de gestação das duas pacientes em Campina Grande e enviou o material para análise na Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Três técnicas diferentes constataram a presença do material genético do vírus nessas amostras. Em visita ao Brasil, a diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Margareth Chan, disse que a entidade acompanha as investigações. “É preciso enfatizar que a ligação com o vírus zika ainda não está determinada”, afirmou. “Precisamos continuar o trabalho.”
Na Paraíba, Adriana organiza um mutirão para estudar outras pacientes. “Tenho ouvido que só dois casos não comprovam nada, mas minha maior preocupação era orientar essas mulheres”, diz Adriana.
“Para mim, elas não são números. É a mãe do Guilherme e a da Catarina.” Com menos de 35 anos e na 30ª semana de gestação, elas sofrem em silêncio. “A cada dia, elas têm de enfrentar uma notícia pior”, diz a médica.
O conjunto de interrogações levou o governo federal a declarar estado de emergência em saúde pública. A medida é justificável, na opinião do infectologista Marcos Boulos, diretor da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria Estadual de Saúde, em São Paulo. “O Ministério da Saúde tomou essa decisão pelo medo do escuro”, diz. “Não sabemos o que está acontecendo.”
A medida permite, entre outras coisas, que os governos façam compras ou contratem serviços sem abrir concorrências públicas. “Por enquanto não identificamos nenhuma necessidade de compra de materiais ou insumos adicionais”, disse Maierovitch. “Se essa necessidade surgir, compraremos sem licitação.” O esclarecimento dos casos não é simples. Caso o zika seja realmente o responsável, a mãe deve ter sido picada pelo mosquito nas primeiras semanas de gestação, quando ocorre o desenvolvimento do cérebro do bebê. Depois do nascimento, a criança, mesmo que tenha sido infectada não apresenta mais sinais do vírus. Não seria ético submeter todas as grávidas de fetos com microcefalia a uma punção do líquido amniótico. Ela oferece riscos, inclusive de abortamento.
Estima-se que dezenas de milhares de brasileiros tenham sido infectados – 80% não tiveram sintomas. Até recentemente, os cientistas acreditavam que o vírus tivesse chegado ao país durante a Copa do Mundo. Um artigo publicado em Outubro na revista Emerging Infectius Diseases apresenta outras versão. As cepas que circulam no Brasil são semelhantes às do grande surto ocorrido na região da Polinésia Francesa entre 2013 e 2014. O vírus teria chegado ao Brasil em agosto de 2014, quando atletas de quatro países afetados pelo vírus naquela região participaram de um campeonato internacional de canoagem, no Rio. A análise do líquido amniótico das gestantes da Paraíba, realizada na Fiocruz, confirmou que o vírus tem, realmente, o genótipo asiático – e não o africano. Para aumentar a vigilância, a Secretaria Estadual de Saúde do Rio passou a exigir a notificação obrigatória de casos de grávidas que apresentarem manchas vermelhas na pele. Os brasileiros ganharam mais uma razão para combater os focos do mosquito, capaz de provocar três epidemias simultâneas (dengue, chikungunya e zika). O governo federal adota o princípio da precaução. “Declaramos nossa ignorância, mas não podemos nos omitir”, afirma Maierovitch. As mães desses bebês merecem mais do que isso. Precisam que o Estado garanta o acesso a recursos de fisioterapia, fonoaudiologia e outras formas de reduzir o impacto das sequelas. Fora da arena científica e burocrática, a luta dessas mulheres é por alguma qualidade de vida.
Texto escrito pela jornalista Cristiane Segatto. Revista Época, edição de
23 de novembro de 2015, n 911, São Paulo, Capital.
“Quase. Ainda há uma pequena margem de dúvida”, diz o diretor de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch.”
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