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Texto 2
"Não existe memória sem emoção"
O português Antônio Damásio, de 65 anos, é considerado um dos neurocientistas mais respeitados da atualidade. Damásio modificou a compreensão que se tem da biologia das emoções, e de como elas se relacionam com a memória. Ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA, de sua sala da Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles, onde leciona.
QUAL É O PAPEL DAS EMOÇÕES NO PROCESSO DE FORMAÇÃO E ARMAZENAMENTO DA MEMÓRIA? A emoção modula constantemente a forma como os dados e os acontecimentos são guardados na memória. Isso é especialmente verdadeiro no que diz respeito à memória para pessoas e para as características relacionadas a elas. Afinal de contas, a sociabilidade faz parte da nossa memória genética, com a qual nascemos e que é resultado de milhões de anos de evolução.
COMO AS EMOÇÕES CONTROLAM A MEMORIZAÇÃO? Grande parte de nossas decisões é tomada de maneira mais ou menos automática e inconsciente. Esse processo é guiado pelo valor que se dá às diversas experiências do passado. Por exemplo, se eu conheço uma pessoa que desperta boas emoções em mim, toda vez que eu a encontrar vou reviver uma memória que se divide em dois aspectos: o cognitivo (saber quem é a pessoa) e o emocional (é alguém de quem se gosta). Tais aspectos guiam a forma como conduzimos a relação com os outros. Não há memória ou tomadas de decisão neutras, sem emoção. Hoje já se sabe até em que regiões do cérebro as emoções são processadas.
O QUE DIFERENCIA HOMENS DE ANIMAIS NO QUE SE REFERE À MEMÓRIA? O que mais distingue a memória humana é a capacidade de ter uma autobiografia. Cada um de nós sabe em grande pormenor e lucidez quando nascemos, quem são os nossos pais ou os nossos amigos, quais são as nossas preferências, o que já fizemos na vida... Enfim, qual é a nossa história. Um chimpanzé ou um cão têm isso de forma limitada. Neles a memória não possui a mesma riqueza de detalhes e de abrangência. Essa diferença é amplificada pela linguagem, que é exclusivamente humana. A linguagem é também a capacidade de codificar as memórias não verbais numa forma verbal. Isso expande enormemente tudo o que o ser humano é capaz de memorizar.
DE QUE MANEIRA A MEMÓRIA INFLUENCIA A CRIATIVIDADE E A INVENTIVIDADE? A grande força da criatividade é, evidentemente, a imaginação. E esta nada mais é que a manipulação de imagens, que podem ser visuais, auditivas, táteis ou olfativas. Essa manipulação depende não só das imagens que alguém capta em determinado momento, como daquelas guardadas no armazém de memórias. A imaginação, portanto, recupera informações que foram gravadas nos circuitos nervosos, onde, com a ajuda da emoção, foram organizadas de acordo com certas categorias. Um grande poeta ou inventor é alguém que consegue usar a emoção para manipular essas imagens visuais, auditivas ou olfativas de forma extraordinariamente rica.
É CURIOSO QUE ALGO CONSIDERADO TÃO TRANSCENDENTE COMO A ARTE SEJA FRUTO DE SINAIS ELÉTRICOS E QUÍMICOS TRANSMITIDOS POR CÉLULAS NEURAIS. Os neurônios, organizados em circuitos, comunicam-se por meio de reações eletroquímicas. O padrão ou o desenho dos circuitos é o que permite a construção de todas as imagens. Isso vale tanto para o que se passa no mundo exterior — visões ou sonhos, por exemplo — como para imagens interiores, produzidas e transformadas por um estado emocional. São elas que constituem aquilo que chamamos de espírito humano.
(VEJA, 13/01/2010.)
Identifique a alternativa que ENTRA EM CONTRADIÇÃO com as ideias do trecho destacado no texto.
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Texto 2
"Não existe memória sem emoção"
O português Antônio Damásio, de 65 anos, é considerado um dos neurocientistas mais respeitados da atualidade. Damásio modificou a compreensão que se tem da biologia das emoções, e de como elas se relacionam com a memória. Ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA, de sua sala da Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles, onde leciona.
QUAL É O PAPEL DAS EMOÇÕES NO PROCESSO DE FORMAÇÃO E ARMAZENAMENTO DA MEMÓRIA? A emoção modula constantemente a forma como os dados e os acontecimentos são guardados na memória. Isso é especialmente verdadeiro no que diz respeito à memória para pessoas e para as características relacionadas a elas. Afinal de contas, a sociabilidade faz parte da nossa memória genética, com a qual nascemos e que é resultado de milhões de anos de evolução.
COMO AS EMOÇÕES CONTROLAM A MEMORIZAÇÃO? Grande parte de nossas decisões é tomada de maneira mais ou menos automática e inconsciente. Esse processo é guiado pelo valor que se dá às diversas experiências do passado. Por exemplo, se eu conheço uma pessoa que desperta boas emoções em mim, toda vez que eu a encontrar vou reviver uma memória que se divide em dois aspectos: o cognitivo (saber quem é a pessoa) e o emocional (é alguém de quem se gosta). Tais aspectos guiam a forma como conduzimos a relação com os outros. Não há memória ou tomadas de decisão neutras, sem emoção. Hoje já se sabe até em que regiões do cérebro as emoções são processadas.
O QUE DIFERENCIA HOMENS DE ANIMAIS NO QUE SE REFERE À MEMÓRIA? O que mais distingue a memória humana é a capacidade de ter uma autobiografia. Cada um de nós sabe em grande pormenor e lucidez quando nascemos, quem são os nossos pais ou os nossos amigos, quais são as nossas preferências, o que já fizemos na vida... Enfim, qual é a nossa história. Um chimpanzé ou um cão têm isso de forma limitada. Neles a memória não possui a mesma riqueza de detalhes e de abrangência. Essa diferença é amplificada pela linguagem, que é exclusivamente humana. A linguagem é também a capacidade de codificar as memórias não verbais numa forma verbal. Isso expande enormemente tudo o que o ser humano é capaz de memorizar.
DE QUE MANEIRA A MEMÓRIA INFLUENCIA A CRIATIVIDADE E A INVENTIVIDADE? A grande força da criatividade é, evidentemente, a imaginação. E esta nada mais é que a manipulação de imagens, que podem ser visuais, auditivas, táteis ou olfativas. Essa manipulação depende não só das imagens que alguém capta em determinado momento, como daquelas guardadas no armazém de memórias. A imaginação, portanto, recupera informações que foram gravadas nos circuitos nervosos, onde, com a ajuda da emoção, foram organizadas de acordo com certas categorias. Um grande poeta ou inventor é alguém que consegue usar a emoção para manipular essas imagens visuais, auditivas ou olfativas de forma extraordinariamente rica.
É CURIOSO QUE ALGO CONSIDERADO TÃO TRANSCENDENTE COMO A ARTE SEJA FRUTO DE SINAIS ELÉTRICOS E QUÍMICOS TRANSMITIDOS POR CÉLULAS NEURAIS. Os neurônios, organizados em circuitos, comunicam-se por meio de reações eletroquímicas. O padrão ou o desenho dos circuitos é o que permite a construção de todas as imagens. Isso vale tanto para o que se passa no mundo exterior — visões ou sonhos, por exemplo — como para imagens interiores, produzidas e transformadas por um estado emocional. São elas que constituem aquilo que chamamos de espírito humano.
(VEJA, 13/01/2010.)
Assinale a opção que traduz o pensamento expresso pelo entrevistado no trecho destacado no texto.
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Texto 1
O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
Assinale a ÚNICA característica que NÃO pode ser detectada no conto "O Tempo".
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Texto 1
O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
Relacione as colunas combinando as vírgulas destacadas com as regras que orientam o seu uso.
Coluna 1
1. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto .
2. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres.
3. Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
4. Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida.
Coluna 2
( ) Marca(m) oração adjetiva explicativa.
( ) Separa(m) adjunto adverbial deslocado e intercalado.
( ) Marca(m) o vocativo.
( ) Separa(m) termos coordenados.
Está correta, de cima para baixo, a seguinte sequência:
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Texto 1
O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
Marque a alternativa que dá uma informação INCORRETA em relação ao excerto Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar.
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Texto 1
O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
O substantivo que intitula o conto — Tempo — pode ser entendido de mais de uma maneira. Marque a opção cujo sentido NÃO pode ser atribuído a essa palavra no texto.
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Texto 1
O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
Observe o que se diz sobre o enunciado Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
I. O autor faz um jogo entre cognatos para enfatizar a avançada idade das mulheres do povoado.
II. Com comem as próprias bocas, o autor construiu uma metáfora visual das mulheres.
III. O verbo trazer (trazem) foi empregado no texto na acepção de carregar, transportar algo para algum lugar.
Está correto o que se diz apenas em
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Texto 1
O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
Sobre o advérbio ali, no enunciado Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, considere as seguintes afirmações:
I. O emprego desse termo revela a perspectiva espacial do narrador em relação à narrativa.
II. A presença desse termo nos assegura que o narrador não é personagem.
III. Como o ali, o ali desse enunciado retoma um referente que o leitor vai construindo mentalmente, aproveitando as pistas do texto.
Está correto o que se diz
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Texto 1
O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
Assinale a opção correta.
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Texto 1
O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
Considere a passagem do texto que segue: Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas. Escreva V ou F, conforme seja verdadeiro ou falso o que se diz sobre essa passagem.
( ) Os vocábulos condenados e perdoados constituem uma antítese que sinaliza a grande misericórdia divina.
( ) Em barbas venerandas, o narrador, ao empregar a parte pelo todo (ou a barba pela pessoa que porta a barba), enfatiza a autoridade e a força moral do frade.
( ) O excerto em estudo é todo escrito em linguagem figurada, o que o torna carregado de subjetividade.
( ) A expressão sermão de fogo constitui uma metáfora hiperbólica que sugere a exaltação furiosa do frade, mas também sinaliza a condenação dos pecadores ao inferno.
Está correta, de cima para baixo, a sequência:
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