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2184212 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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Luciana

Ouvindo rumor na porta da frente e os passos conhecidos de tio Severino, Luciana ergueu-se estouvada, saiu do corredor, entrou na sala, parou indecisa, esperando que a chamassem(c). Ninguém reparou nela. Papai e mamãe, no sofá, embebiam-se na palavra lenta e fanhosa de tio Severino, homem considerável, senhor da poltrona. O que ele dizia para a família tinha força de lei.

Luciana quis aproximar-se das pessoas grandes, mas lembrou-se do que lhe tinha acontecido na véspera. Andara com mamãe pela cidade, percorrera diversas ruas, satisfeita. Num lugar feio e escorregadio, onde a água da chuva empoçava, resistira, acuara e caíra no chão, sentara-se na lama, esperneando e berrando. Em casa, antes de tirar-lhe a camisa suja, mamãe lhe infligira três palmadas enérgicas. Por quê? Luciana passara o dia tentando reconciliar-se com o ser poderoso que lhe magoara as nádegas. Agora, na presença da visita, essa criatura forte não anunciava perigo.

Luciana aproximou-se do sofá nas pontas dos pés, imitando as mulheres que usam sapato alto. Convidava a irmã para brincar de moça, mas acabava arranjando-se só. E lá ia ela remedando um pássaro que se dispõe a voar, inclinada para a frente, os calcanhares apoiados em saltos enormes e imaginários. Assim aparelhada, chamava-se D. Henriqueta da Boa-Vista.

. Entre os dentes amarelos, a voz escorria pausada, nasal, incompreensível. Luciana percebia as palavras, mas não atinava com a significação delas. Rondou por ali um instante, mas fatigou-se. E ia esgueirar-se para o corredor, quando algumas sílabas da conversa indistinta lhe avivaram a recordação de outras Tio Severino era notável: vermelho, tinha maçarocas brancas no rosto, o beiço e o queixo rapados, a testa brilhante, sobrancelhas densas e óculos redondos(d) sílabas vagas, largadas por um moleque na rua. Repetiu bem alto as palavras do moleque.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme. Luciana teve um deslumbramento. O coraçãozinho saltou, uma alegria doida encheu-a. Sentiu-se feliz e necessitou desabafar com alguém. Cruzou a sala. Espalhou as revistas e as bonecas, pôs-se a dançar em cima delas. Regressou, muito leve, boiando naquela claridade que a envolvia e penetrava.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme.

Tio Severino tinha feito uma revelação extraordinária, e Luciana devia comportar-se como pessoa que sabe onde o diabo dorme. Voltou a caminhar nas pontas dos pés, de uma parede a outra, simulando não ver o sofá e a poltrona. Estava sendo observada, notavam nela sinais esquisitos, sem dúvida.

– Foi tio Severino quem disse.

– Ah!

Papai e mamãe, silenciosos, refletindo na opinião rouca do parente grande, com certeza diziam “Ah!” por dentro e orgulhavam-se da filha sabida.

A cena da véspera atravessou-lhe o espírito e importunou-a. Sentada numa poça de água suja, gritara, enlameara-se toda. Naquele despropósito não era D. Henriqueta da Boa Vista – Que vergonha!(a)

A culpada era a mamãe, que tivera a infeliz ideia de levá-la a lugares diferentes da calçada tranquila, do quintal sombrio. Na esquina do quarteirão principiava o mistério: barulho de carros, gritos, cores, movimentos, prédios altos demais. Talvez o diabo dormisse num deles. Em qual? Desanimada, confessou, interiormente, a sua ignorância. E, relativamente ao diabo só podia garantir baseada nas informações da cozinheira, que ele era preto, possuía chifres e rabo. Para quê? Admirou-se dessa extravagância. Que precisão tinha ele de chifres e rabo? Preto estava certo. No bairro moravam alguns pretos, sem chifres nem rabo. E se a cozinheira estivesse enganada?(b) No espírito de Luciana, pouco inclinado a dúvidas, a pergunta esmoreceu, mas a indecisão momentânea descontentou-a: se privassem o diabo daqueles apêndices, ele ficaria reduzido a um brinquedo ordinário. Estremeceu maravilhada, num susto que encerrava prazer, uma visão patenteou-lhe a figura monstruosa. Certamente o diabo tinha gênio ruim, em horas de zanga batia nas pessoas com o rabo, espetava-as com os chifres. E retinto, da cor de Seu Adão carroceiro...

– Esta menina tem parte com o diabo.

E puxava as orelhas de Luciana. Por quê? Certamente o diabo também fugia de casa. Lisonjeada e medrosa com a terrível associação, Luciana persistia na desobediência.

Seu Adão, apesar de negro, não tinha parte com o diabo, provavelmente um sujeito sisudo, triste, como tio Severino. O beiço franzido e o olho duro de tio Severino.

– Esta menina tem parte com o diabo.

A fala ranzinza feria-lhe os ouvidos. Dedos finos e nervosos agarravam-na. Um susto, a impressão de ter perdido qualquer coisa e achar-se em risco. Findo o sobressalto, imaginara-se protegida por entidades vigorosas e imortais. Agora a frase de tio Severino firmava-lhe a convicção. Com certeza possuía as qualidades necessárias para instruir-se e confirmar o juízo de tio Severino. Dona Henriqueta da Boa-Vista era um azougue: tinha jeito de quem sabe onde o diabo dorme. Ainda não sabia, mas haveria de saber. Descobriria o lugar onde o diabo dorme. Dona Henriqueta da Boa-Vista se largaria pelo mundo, importante, os calcanhares erguidos, em companhia de seres enigmáticos que lhe ensinariam a residência do diabo. Mais tarde seu Adão a embarcaria na carroça: – “Foi um dia uma princesa bonita que tinha uma estrela na testa”. Luciana recusava as princesas e as estrelas. Seu Adão coçaria o pixaim, encolheria os ombros. Levá-la-ia para a gaiola. Mamãe recebê-la-ia zangadíssima. E daria, quando seu Adão se retirasse, várias chineladas em Dona Henriqueta da Boa-Vista. Sem dúvida. Mas isso ainda estava muito longe – e Luciana aborrecia tristezas.

(Graciliano Ramos. Luciana. In: Insônia. Record 14ª Ed. Rio, São Paulo: 1978. p. 61-68. Texto adaptado.)

Leia com atenção os excertos abaixo e assinale o único que NÃO apresenta discurso indireto livre (DIL).

 

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2184211 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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Luciana

Ouvindo rumor na porta da frente e os passos conhecidos de tio Severino, Luciana ergueu-se estouvada, saiu do corredor, entrou na sala, parou indecisa, esperando que a chamassem. Ninguém reparou nela. Papai e mamãe, no sofá, embebiam-se na palavra lenta e fanhosa de tio Severino, homem considerável, senhor da poltrona. O que ele dizia para a família tinha força de lei.

Luciana quis aproximar-se das pessoas grandes, mas lembrou-se do que lhe tinha acontecido na véspera. Andara com mamãe pela cidade, percorrera diversas ruas, satisfeita. Num lugar feio e escorregadio, onde a água da chuva empoçava, resistira, acuara e caíra no chão, sentara-se na lama, esperneando e berrando. Em casa, antes de tirar-lhe a camisa suja, mamãe lhe infligira três palmadas enérgicas. Por quê? Luciana passara o dia tentando reconciliar-se com o ser poderoso que lhe magoara as nádegas. Agora, na presença da visita, essa criatura forte não anunciava perigo.

Luciana aproximou-se do sofá nas pontas dos pés, imitando as mulheres que usam sapato alto. Convidava a irmã para brincar de moça, mas acabava arranjando-se só. E lá ia ela remedando um pássaro que se dispõe a voar, inclinada para a frente, os calcanhares apoiados em saltos enormes e imaginários. Assim aparelhada, chamava-se D. Henriqueta da Boa-Vista.

Tio Severino era notável: vermelho, tinha maçarocas brancas no rosto, o beiço e o queixo rapados, a testa brilhante, sobrancelhas densas e óculos redondos. Entre os dentes amarelos, a voz escorria pausada, nasal, incompreensível. Luciana percebia as palavras, mas não atinava com a significação delas. Rondou por ali um instante, mas fatigou-se. E ia esgueirar-se para o corredor, quando algumas sílabas da conversa indistinta lhe avivaram a recordação de outras sílabas vagas, largadas por um moleque na rua. Repetiu bem alto as palavras do moleque.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme. Luciana teve um deslumbramento. O coraçãozinho saltou, uma alegria doida encheu-a. Sentiu-se feliz e necessitou desabafar com alguém. Cruzou a sala. Espalhou as revistas e as bonecas, pôs-se a dançar em cima delas. Regressou, muito leve, boiando naquela claridade que a envolvia e penetrava.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme.

Tio Severino tinha feito uma revelação extraordinária, e Luciana devia comportar-se como pessoa que sabe onde o diabo dorme. Voltou a caminhar nas pontas dos pés, de uma parede a outra, simulando não ver o sofá e a poltrona. Estava sendo observada, notavam nela sinais esquisitos, sem dúvida.

– Foi tio Severino quem disse.

– Ah!

Papai e mamãe, silenciosos, refletindo na opinião rouca do parente grande, com certeza diziam “Ah!” por dentro e orgulhavam-se da filha sabida.

A cena da véspera atravessou-lhe o espírito e importunou-a. Sentada numa poça de água suja, gritara, enlameara-se toda. Naquele despropósito não era D. Henriqueta da Boa Vista – Que vergonha!

A culpada era a mamãe, que tivera a infeliz ideia de levá-la a lugares diferentes da calçada tranquila, do quintal sombrio. Na esquina do quarteirão principiava o mistério: barulho de carros, gritos, cores, movimentos, prédios altos demais. Talvez o diabo dormisse num deles. Em qual? Desanimada, confessou, interiormente, a sua ignorância. E, relativamente ao diabo só podia garantir baseada nas informações da cozinheira, que ele era preto, possuía chifres e rabo. Para quê? Admirou-se dessa extravagância. Que precisão tinha ele de chifres e rabo? Preto estava certo. No bairro moravam alguns pretos, sem chifres nem rabo. E se a cozinheira estivesse enganada? No espírito de Luciana, pouco inclinado a dúvidas, a pergunta esmoreceu, mas a indecisão momentânea descontentou-a: se privassem o diabo daqueles apêndices, ele ficaria reduzido a um brinquedo ordinário. Estremeceu maravilhada, num susto que encerrava prazer, uma visão patenteou-lhe a figura monstruosa. Certamente o diabo tinha gênio ruim, em horas de zanga batia nas pessoas com o rabo, espetava-as com os chifres. E retinto, da cor de Seu Adão carroceiro...

– Esta menina tem parte com o diabo.

E puxava as orelhas de Luciana. Por quê? Certamente o diabo também fugia de casa. Lisonjeada e medrosa com a terrível associação, Luciana persistia na desobediência.

Seu Adão, apesar de negro, não tinha parte com o diabo, provavelmente um sujeito sisudo, triste, como tio Severino. O beiço franzido e o olho duro de tio Severino.

– Esta menina tem parte com o diabo.

A fala ranzinza feria-lhe os ouvidos. Dedos finos e nervosos agarravam-na. Um susto, a impressão de ter perdido qualquer coisa e achar-se em risco. Findo o sobressalto, imaginara-se protegida por entidades vigorosas e imortais. Agora a frase de tio Severino firmava-lhe a convicção. Com certeza possuía as qualidades necessárias para instruir-se e confirmar o juízo de tio Severino. Dona Henriqueta da Boa-Vista era um azougue: tinha jeito de quem sabe onde o diabo dorme. Ainda não sabia, mas haveria de saber. Descobriria o lugar onde o diabo dorme. Dona Henriqueta da Boa-Vista se largaria pelo mundo, importante, os calcanhares erguidos, em companhia de seres enigmáticos que lhe ensinariam a residência do diabo. Mais tarde seu Adão a embarcaria na carroça: – “Foi um dia uma princesa bonita que tinha uma estrela na testa”. Luciana recusava as princesas e as estrelas. Seu Adão coçaria o pixaim, encolheria os ombros. Levá-la-ia para a gaiola. Mamãe recebê-la-ia zangadíssima. E daria, quando seu Adão se retirasse, várias chineladas em Dona Henriqueta da Boa-Vista. Sem dúvida. Mas isso ainda estava muito longe – e Luciana aborrecia tristezas.

(Graciliano Ramos. Luciana. In: Insônia. Record 14ª Ed. Rio, São Paulo: 1978. p. 61-68. Texto adaptado.)

Em uma narrativa, as personagens se manifestam de três maneiras: na forma de discurso direto (DD), na forma de discurso indireto (DI) e na forma de discurso indireto livre (DIL). Atente ao que se diz a respeito desses tipos de discurso:

I. No DD, o narrador cede a fala à personagem, mesmo que ela não queira ou não possa apresentar seu próprio ponto de vista. A estrutura do DD caracteriza-se pela presença de uma oração subordinada substantiva.

II. No DI, tudo é filtrado pela voz do narrador, que pode impor seu ponto de vista. É caracterizado pela presença de marcas gráficas.

III. No DIL, misturam-se as falas do narrador e da personagem, de maneira que essas duas vozes podem dificultar a compreensão do leitor. Esse terceiro tipo de discurso caracteriza as narrativas mais complexas.

Está correto o que se diz apenas em

 

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2184210 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: UECE
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Luciana

Ouvindo rumor na porta da frente e os passos conhecidos de tio Severino, Luciana ergueu-se estouvada, saiu do corredor, entrou na sala, parou indecisa, esperando que a chamassem. Ninguém reparou nela. Papai e mamãe, no sofá, embebiam-se na palavra lenta e fanhosa de tio Severino, homem considerável, senhor da poltrona. O que ele dizia para a família tinha força de lei.

Luciana quis aproximar-se das pessoas grandes, mas lembrou-se do que lhe tinha acontecido na véspera. Andara com mamãe pela cidade, percorrera diversas ruas, satisfeita. Num lugar feio e escorregadio, onde a água da chuva empoçava, resistira, acuara e caíra no chão, sentara-se na lama, esperneando e berrando. Em casa, antes de tirar-lhe a camisa suja, mamãe lhe infligira três palmadas enérgicas. Por quê? Luciana passara o dia tentando reconciliar-se com o ser poderoso que lhe magoara as nádegas. Agora, na presença da visita, essa criatura forte não anunciava perigo.

Luciana aproximou-se do sofá nas pontas dos pés, imitando as mulheres que usam sapato alto. Convidava a irmã para brincar de moça, mas acabava arranjando-se só. E lá ia ela remedando um pássaro que se dispõe a voar, inclinada para a frente, os calcanhares apoiados em saltos enormes e imaginários. Assim aparelhada, chamava-se D. Henriqueta da Boa-Vista.

Tio Severino era notável: vermelho, tinha maçarocas brancas no rosto, o beiço e o queixo rapados, a testa brilhante, sobrancelhas densas e óculos redondos. Entre os dentes amarelos, a voz escorria pausada, nasal, incompreensível. Luciana percebia as palavras, mas não atinava com a significação delas. Rondou por ali um instante, mas fatigou-se. E ia esgueirar-se para o corredor, quando algumas sílabas da conversa indistinta lhe avivaram a recordação de outras sílabas vagas, largadas por um moleque na rua. Repetiu bem alto as palavras do moleque.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme. Luciana teve um deslumbramento. O coraçãozinho saltou, uma alegria doida encheu-a. Sentiu-se feliz e necessitou desabafar com alguém. Cruzou a sala. Espalhou as revistas e as bonecas, pôs-se a dançar em cima delas. Regressou, muito leve, boiando naquela claridade que a envolvia e penetrava.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme.

Tio Severino tinha feito uma revelação extraordinária, e Luciana devia comportar-se como pessoa que sabe onde o diabo dorme. Voltou a caminhar nas pontas dos pés, de uma parede a outra, simulando não ver o sofá e a poltrona. Estava sendo observada, notavam nela sinais esquisitos, sem dúvida.

– Foi tio Severino quem disse.

– Ah!

Papai e mamãe, silenciosos, refletindo na opinião rouca do parente grande, com certeza diziam “Ah!” por dentro e orgulhavam-se da filha sabida.

A cena da véspera atravessou-lhe o espírito e importunou-a. Sentada numa poça de água suja, gritara, enlameara-se toda. Naquele despropósito não era D. Henriqueta da Boa Vista – Que vergonha!

A culpada era a mamãe, que tivera a infeliz ideia de levá-la a lugares diferentes da calçada tranquila, do quintal sombrio. Na esquina do quarteirão principiava o mistério: barulho de carros, gritos, cores, movimentos, prédios altos demais. Talvez o diabo dormisse num deles. Em qual? Desanimada, confessou, interiormente, a sua ignorância. E, relativamente ao diabo só podia garantir baseada nas informações da cozinheira, que ele era preto, possuía chifres e rabo. Para quê? Admirou-se dessa extravagância. Que precisão tinha ele de chifres e rabo? Preto estava certo. No bairro moravam alguns pretos, sem chifres nem rabo. E se a cozinheira estivesse enganada? No espírito de Luciana, pouco inclinado a dúvidas, a pergunta esmoreceu, mas a indecisão momentânea descontentou-a: se privassem o diabo daqueles apêndices, ele ficaria reduzido a um brinquedo ordinário. Estremeceu maravilhada, num susto que encerrava prazer, uma visão patenteou-lhe a figura monstruosa. Certamente o diabo tinha gênio ruim, em horas de zanga batia nas pessoas com o rabo, espetava-as com os chifres. E retinto, da cor de Seu Adão carroceiro...

– Esta menina tem parte com o diabo.

E puxava as orelhas de Luciana. Por quê? Certamente o diabo também fugia de casa. Lisonjeada e medrosa com a terrível associação, Luciana persistia na desobediência.

Seu Adão, apesar de negro, não tinha parte com o diabo, provavelmente um sujeito sisudo, triste, como tio Severino. O beiço franzido e o olho duro de tio Severino.

– Esta menina tem parte com o diabo.

A fala ranzinza feria-lhe os ouvidos. Dedos finos e nervosos agarravam-na. Um susto, a impressão de ter perdido qualquer coisa e achar-se em risco. Findo o sobressalto, imaginara-se protegida por entidades vigorosas e imortais. Agora a frase de tio Severino firmava-lhe a convicção. Com certeza possuía as qualidades necessárias para instruir-se e confirmar o juízo de tio Severino. Dona Henriqueta da Boa-Vista era um azougue: tinha jeito de quem sabe onde o diabo dorme. Ainda não sabia, mas haveria de saber. Descobriria o lugar onde o diabo dorme. Dona Henriqueta da Boa-Vista se largaria pelo mundo, importante, os calcanhares erguidos, em companhia de seres enigmáticos que lhe ensinariam a residência do diabo. Mais tarde seu Adão a embarcaria na carroça: – “Foi um dia uma princesa bonita que tinha uma estrela na testa”. Luciana recusava as princesas e as estrelas. Seu Adão coçaria o pixaim, encolheria os ombros. Levá-la-ia para a gaiola. Mamãe recebê-la-ia zangadíssima. E daria, quando seu Adão se retirasse, várias chineladas em Dona Henriqueta da Boa-Vista. Sem dúvida. Mas isso ainda estava muito longe – e Luciana aborrecia tristezas.

(Graciliano Ramos. Luciana. In: Insônia. Record 14ª Ed. Rio, São Paulo: 1978. p. 61-68. Texto adaptado.)

Sabe-se que o pretérito mais-que-perfeito do indicativo é empregado quando se quer mencionar um passado que ocorreu antes de outro passado. Atente ao emprego desse tempo verbal no excerto abaixo e ao que se diz em seguida.

“Luciana quis aproximar-se das pessoas grandes, mas lembrou-se do que lhe tinha acontecido na véspera. Andara com mamãe pela cidade, percorrera diversas ruas, satisfeita. Num lugar feio e escorregadio, onde a água da chuva empoçava, resistira, acuara e caíra no chão, sentara-se na lama, esperneando e berrando. Em casa, antes de tirar-lhe a camisa suja, mamãe lhe infligira três palmadas enérgicas. Por quê? Luciana passara o dia tentando reconciliar-se com o ser poderoso que lhe magoara as nádegas.”

I. Há, no início do excerto transcrito, formas do pretérito perfeito do indicativo.

II. Tinha acontecido é uma locução verbal que configura o mais-que-perfeito composto, equivalendo, portanto, à forma simples, acontecera.

III. Das formas do pretérito perfeito, a que vai determinar o emprego do pretérito-mais-queperfeito, no excerto transcrito (andara, percorrera, resistira, acuara, caíra e sentara) é lembrou. Todas essas ações ocorreram antes da lembrança, do contrário não poderiam ser lembradas.

Está correto o que se diz em

 

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2184209 Ano: 2017
Disciplina: Português
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Orgão: UECE
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Luciana

Ouvindo rumor na porta da frente e os passos conhecidos de tio Severino, Luciana ergueu-se estouvada, saiu do corredor, entrou na sala, parou indecisa, esperando que a chamassem. Ninguém reparou nela. Papai e mamãe, no sofá, embebiam-se na palavra lenta e fanhosa de tio Severino, homem considerável, senhor da poltrona. O que ele dizia para a família tinha força de lei.

Luciana quis aproximar-se das pessoas grandes, mas lembrou-se do que lhe tinha acontecido na véspera. Andara com mamãe pela cidade, percorrera diversas ruas, satisfeita. Num lugar feio e escorregadio, onde a água da chuva empoçava, resistira, acuara e caíra no chão, sentara-se na lama, esperneando e berrando. Em casa, antes de tirar-lhe a camisa suja, mamãe lhe infligira três palmadas enérgicas. Por quê? Luciana passara o dia tentando reconciliar-se com o ser poderoso que lhe magoara as nádegas. Agora, na presença da visita, essa criatura forte não anunciava perigo.

Luciana aproximou-se do sofá nas pontas dos pés, imitando as mulheres que usam sapato alto. Convidava a irmã para brincar de moça, mas acabava arranjando-se só. E lá ia ela remedando um pássaro que se dispõe a voar, inclinada para a frente, os calcanhares apoiados em saltos enormes e imaginários. Assim aparelhada, chamava-se D. Henriqueta da Boa-Vista.

Tio Severino era notável: vermelho, tinha maçarocas brancas no rosto, o beiço e o queixo rapados, a testa brilhante, sobrancelhas densas e óculos redondos. Entre os dentes amarelos, a voz escorria pausada, nasal, incompreensível. Luciana percebia as palavras, mas não atinava com a significação delas. Rondou por ali um instante, mas fatigou-se. E ia esgueirar-se para o corredor, quando algumas sílabas da conversa indistinta lhe avivaram a recordação de outras sílabas vagas, largadas por um moleque na rua. Repetiu bem alto as palavras do moleque.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme. Luciana teve um deslumbramento. O coraçãozinho saltou, uma alegria doida encheu-a. Sentiu-se feliz e necessitou desabafar com alguém. Cruzou a sala. Espalhou as revistas e as bonecas, pôs-se a dançar em cima delas. Regressou, muito leve, boiando naquela claridade que a envolvia e penetrava.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme.

Tio Severino tinha feito uma revelação extraordinária, e Luciana devia comportar-se como pessoa que sabe onde o diabo dorme. Voltou a caminhar nas pontas dos pés, de uma parede a outra, simulando não ver o sofá e a poltrona. Estava sendo observada, notavam nela sinais esquisitos, sem dúvida.

– Foi tio Severino quem disse.

– Ah!

Papai e mamãe, silenciosos, refletindo na opinião rouca do parente grande, com certeza diziam “Ah!” por dentro e orgulhavam-se da filha sabida.

A cena da véspera atravessou-lhe o espírito e importunou-a. Sentada numa poça de água suja, gritara, enlameara-se toda. Naquele despropósito não era D. Henriqueta da Boa Vista – Que vergonha!

A culpada era a mamãe, que tivera a infeliz ideia de levá-la a lugares diferentes da calçada tranquila, do quintal sombrio. Na esquina do quarteirão principiava o mistério: barulho de carros, gritos, cores, movimentos, prédios altos demais. Talvez o diabo dormisse num deles. Em qual? Desanimada, confessou, interiormente, a sua ignorância. E, relativamente ao diabo só podia garantir baseada nas informações da cozinheira, que ele era preto, possuía chifres e rabo. Para quê? Admirou-se dessa extravagância. Que precisão tinha ele de chifres e rabo? Preto estava certo. No bairro moravam alguns pretos, sem chifres nem rabo. E se a cozinheira estivesse enganada? No espírito de Luciana, pouco inclinado a dúvidas, a pergunta esmoreceu, mas a indecisão momentânea descontentou-a: se privassem o diabo daqueles apêndices, ele ficaria reduzido a um brinquedo ordinário. Estremeceu maravilhada, num susto que encerrava prazer, uma visão patenteou-lhe a figura monstruosa. Certamente o diabo tinha gênio ruim, em horas de zanga batia nas pessoas com o rabo, espetava-as com os chifres. E retinto, da cor de Seu Adão carroceiro...

– Esta menina tem parte com o diabo.

E puxava as orelhas de Luciana. Por quê? Certamente o diabo também fugia de casa. Lisonjeada e medrosa com a terrível associação, Luciana persistia na desobediência.

Seu Adão, apesar de negro, não tinha parte com o diabo, provavelmente um sujeito sisudo, triste, como tio Severino. O beiço franzido e o olho duro de tio Severino.

– Esta menina tem parte com o diabo.

A fala ranzinza feria-lhe os ouvidos. Dedos finos e nervosos agarravam-na. Um susto, a impressão de ter perdido qualquer coisa e achar-se em risco. Findo o sobressalto, imaginara-se protegida por entidades vigorosas e imortais. Agora a frase de tio Severino firmava-lhe a convicção. Com certeza possuía as qualidades necessárias para instruir-se e confirmar o juízo de tio Severino. Dona Henriqueta da Boa-Vista era um azougue: tinha jeito de quem sabe onde o diabo dorme. Ainda não sabia, mas haveria de saber. Descobriria o lugar onde o diabo dorme. Dona Henriqueta da Boa-Vista se largaria pelo mundo, importante, os calcanhares erguidos, em companhia de seres enigmáticos que lhe ensinariam a residência do diabo. Mais tarde seu Adão a embarcaria na carroça: – “Foi um dia uma princesa bonita que tinha uma estrela na testa”. Luciana recusava as princesas e as estrelas. Seu Adão coçaria o pixaim, encolheria os ombros. Levá-la-ia para a gaiola. Mamãe recebê-la-ia zangadíssima. E daria, quando seu Adão se retirasse, várias chineladas em Dona Henriqueta da Boa-Vista. Sem dúvida. Mas isso ainda estava muito longe – e Luciana aborrecia tristezas.

(Graciliano Ramos. Luciana. In: Insônia. Record 14ª Ed. Rio, São Paulo: 1978. p. 61-68. Texto adaptado.)

O conteúdo denotativo de uma palavra corresponde ao seu sentido usual, isto é, próprio, não figurado, não metafórico. Nessa perspectiva, o sentido dessa palavra é o mesmo para todos os membros de uma mesma comunidade linguística. “Uma palavra assim empregada é entendida independentemente de interpretações individuais, interpretações de natureza afetiva ou emocional. Se, no entanto, a significação de uma palavra não é a mesma para certa comunidade linguística; se a palavra não sugere ou evoca por associação outras ideias de ordem abstrata, de natureza afetiva ou emocional, então se diz que seu valor, i. e., seu sentido, é conotativo ou afetivo”.

(Othon Moacyr Garcia)

Leia com atenção os seguintes excertos:

1. “E lá ia ela remedando um pássaro que se dispõe a voar” (linhas 28-29);

2. “Luciana recusava as princesas e as estrelas. Seu Adão coçaria o pixaim, encolheria os ombros. Levá-la-ia para a gaiola. Mamãe recebê-la-ia zangadíssima”.

Compare as duas expressões destacadas nos excertos acima, e assinale com V o que for verdadeiro e com F o que for falso.

( ) Os dois enunciados constituem metáforas.

( ) O verbo remedar, da maneira como foi empregado no texto, equivale à partícula comparativa como.

( ) Deve-se considerar os dois enunciados como duas imagens independentes que fecham o sentido do conto.

( ) O primeiro enunciado, “E lá ia ela remedando um pássaro que se dispõe a voar” fala do desejo de liberdade que caracterizava Luciana.

( ) O segundo enunciado, “Levá-la-ia para a gaiola”, fecha a imagem iniciada pelo primeiro, exprimindo a recusa da satisfação desse desejo.

( ) O texto, como um único signo, isto é, um todo formado por significante (aspecto material e significado (representação mental) fecha-se com a legitimação da sujeição e com a não deslegitimação da liberdade.

Está correta, de cima para baixo, a seguinte sequência:

 

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2184208 Ano: 2017
Disciplina: Português
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Luciana

Ouvindo rumor na porta da frente e os passos conhecidos de tio Severino, Luciana ergueu-se estouvada, saiu do corredor, entrou na sala, parou indecisa, esperando que a chamassem. Ninguém reparou nela. Papai e mamãe, no sofá, embebiam-se na palavra lenta e fanhosa de tio Severino, homem considerável, senhor da poltrona. O que ele dizia para a família tinha força de lei.

Luciana quis aproximar-se das pessoas grandes, mas lembrou-se do que lhe tinha acontecido na véspera. Andara com mamãe pela cidade, percorrera diversas ruas, satisfeita. Num lugar feio e escorregadio, onde a água da chuva empoçava, resistira, acuara e caíra no chão, sentara-se na lama, esperneando e berrando. Em casa, antes de tirar-lhe a camisa suja, mamãe lhe infligira três palmadas enérgicas. Por quê? Luciana passara o dia tentando reconciliar-se com o ser poderoso que lhe magoara as nádegas. Agora, na presença da visita, essa criatura forte não anunciava perigo.

Luciana aproximou-se do sofá nas pontas dos pés, imitando as mulheres que usam sapato alto. Convidava a irmã para brincar de moça, mas acabava arranjando-se só. E lá ia ela remedando um pássaro que se dispõe a voar, inclinada para a frente, os calcanhares apoiados em saltos enormes e imaginários. Assim aparelhada, chamava-se D. Henriqueta da Boa-Vista.

Tio Severino era notável: vermelho, tinha maçarocas brancas no rosto, o beiço e o queixo rapados, a testa brilhante, sobrancelhas densas e óculos redondos. Entre os dentes amarelos, a voz escorria pausada, nasal, incompreensível. Luciana percebia as palavras, mas não atinava com a significação delas. Rondou por ali um instante, mas fatigou-se. E ia esgueirar-se para o corredor, quando algumas sílabas da conversa indistinta lhe avivaram a recordação de outras sílabas vagas, largadas por um moleque na rua. Repetiu bem alto as palavras do moleque.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme. Luciana teve um deslumbramento. O coraçãozinho saltou, uma alegria doida encheu-a. Sentiu-se feliz e necessitou desabafar com alguém. Cruzou a sala. Espalhou as revistas e as bonecas, pôs-se a dançar em cima delas. Regressou, muito leve, boiando naquela claridade que a envolvia e penetrava.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme.

Tio Severino tinha feito uma revelação extraordinária, e Luciana devia comportar-se como pessoa que sabe onde o diabo dorme. Voltou a caminhar nas pontas dos pés, de uma parede a outra, simulando não ver o sofá e a poltrona. Estava sendo observada, notavam nela sinais esquisitos, sem dúvida.

– Foi tio Severino quem disse.

– Ah!

Papai e mamãe, silenciosos, refletindo na opinião rouca do parente grande, com certeza diziam “Ah!” por dentro e orgulhavam-se da filha sabida.

A cena da véspera atravessou-lhe o espírito e importunou-a. Sentada numa poça de água suja, gritara, enlameara-se toda. Naquele despropósito não era D. Henriqueta da Boa Vista – Que vergonha!

A culpada era a mamãe, que tivera a infeliz ideia de levá-la a lugares diferentes da calçada tranquila, do quintal sombrio. Na esquina do quarteirão principiava o mistério: barulho de carros, gritos, cores, movimentos, prédios altos demais. Talvez o diabo dormisse num deles. Em qual? Desanimada, confessou, interiormente, a sua ignorância. E, relativamente ao diabo só podia garantir baseada nas informações da cozinheira, que ele era preto, possuía chifres e rabo. Para quê? Admirou-se dessa extravagância. Que precisão tinha ele de chifres e rabo? Preto estava certo. No bairro moravam alguns pretos, sem chifres nem rabo. E se a cozinheira estivesse enganada? No espírito de Luciana, pouco inclinado a dúvidas, a pergunta esmoreceu, mas a indecisão momentânea descontentou-a: se privassem o diabo daqueles apêndices, ele ficaria reduzido a um brinquedo ordinário. Estremeceu maravilhada, num susto que encerrava prazer, uma visão patenteou-lhe a figura monstruosa. Certamente o diabo tinha gênio ruim, em horas de zanga batia nas pessoas com o rabo, espetava-as com os chifres. E retinto, da cor de Seu Adão carroceiro...

– Esta menina tem parte com o diabo.

E puxava as orelhas de Luciana. Por quê? Certamente o diabo também fugia de casa. Lisonjeada e medrosa com a terrível associação, Luciana persistia na desobediência.

Seu Adão, apesar de negro, não tinha parte com o diabo, provavelmente um sujeito sisudo, triste, como tio Severino. O beiço franzido e o olho duro de tio Severino.

– Esta menina tem parte com o diabo.

A fala ranzinza feria-lhe os ouvidos. Dedos finos e nervosos agarravam-na. Um susto, a impressão de ter perdido qualquer coisa e achar-se em risco. Findo o sobressalto, imaginara-se protegida por entidades vigorosas e imortais. Agora a frase de tio Severino firmava-lhe a convicção. Com certeza possuía as qualidades necessárias para instruir-se e confirmar o juízo de tio Severino. Dona Henriqueta da Boa-Vista era um azougue: tinha jeito de quem sabe onde o diabo dorme. Ainda não sabia, mas haveria de saber. Descobriria o lugar onde o diabo dorme. Dona Henriqueta da Boa-Vista se largaria pelo mundo, importante, os calcanhares erguidos, em companhia de seres enigmáticos que lhe ensinariam a residência do diabo. Mais tarde seu Adão a embarcaria na carroça: – “Foi um dia uma princesa bonita que tinha uma estrela na testa”. Luciana recusava as princesas e as estrelas. Seu Adão coçaria o pixaim, encolheria os ombros. Levá-la-ia para a gaiola. Mamãe recebê-la-ia zangadíssima. E daria, quando seu Adão se retirasse, várias chineladas em Dona Henriqueta da Boa-Vista. Sem dúvida. Mas isso ainda estava muito longe – e Luciana aborrecia tristezas.

(Graciliano Ramos. Luciana. In: Insônia. Record 14ª Ed. Rio, São Paulo: 1978. p. 61-68. Texto adaptado.)

A figura de linguagem denominada hipálage é um recurso linguístico pelo qual uma palavra que deveria qualificar determinado termo passa a qualificar outro. Considerando as duas ocorrências de hipálage nas seguintes passagens do texto: “A fala ranzinza feria-lhe os ouvidos. Dedos finos e nervosos agarravam-na”, assinale a afirmação FALSA.

 

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2184207 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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Luciana

Ouvindo rumor na porta da frente e os passos conhecidos de tio Severino, Luciana ergueu-se estouvada, saiu do corredor, entrou na sala, parou indecisa, esperando que a chamassem. Ninguém reparou nela. Papai e mamãe, no sofá, embebiam-se na palavra lenta e fanhosa de tio Severino, homem considerável, senhor da poltrona. O que ele dizia para a família tinha força de lei.

Luciana quis aproximar-se das pessoas grandes, mas lembrou-se do que lhe tinha acontecido na véspera. Andara com mamãe pela cidade, percorrera diversas ruas, satisfeita. Num lugar feio e escorregadio, onde a água da chuva empoçava, resistira, acuara e caíra no chão, sentara-se na lama, esperneando e berrando. Em casa, antes de tirar-lhe a camisa suja, mamãe lhe infligira três palmadas enérgicas. Por quê? Luciana passara o dia tentando reconciliar-se com o ser poderoso que lhe magoara as nádegas. Agora, na presença da visita, essa criatura forte não anunciava perigo.

Luciana aproximou-se do sofá nas pontas dos pés, imitando as mulheres que usam sapato alto. Convidava a irmã para brincar de moça, mas acabava arranjando-se só. E lá ia ela remedando um pássaro que se dispõe a voar, inclinada para a frente, os calcanhares apoiados em saltos enormes e imaginários. Assim aparelhada, chamava-se D. Henriqueta da Boa-Vista.

Tio Severino era notável: vermelho, tinha maçarocas brancas no rosto, o beiço e o queixo rapados, a testa brilhante, sobrancelhas densas e óculos redondos. Entre os dentes amarelos, a voz escorria pausada, nasal, incompreensível. Luciana percebia as palavras, mas não atinava com a significação delas. Rondou por ali um instante, mas fatigou-se. E ia esgueirar-se para o corredor, quando algumas sílabas da conversa indistinta lhe avivaram a recordação de outras sílabas vagas, largadas por um moleque na rua. Repetiu bem alto as palavras do moleque.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme. Luciana teve um deslumbramento. O coraçãozinho saltou, uma alegria doida encheu-a. Sentiu-se feliz e necessitou desabafar com alguém. Cruzou a sala. Espalhou as revistas e as bonecas, pôs-se a dançar em cima delas. Regressou, muito leve, boiando naquela claridade que a envolvia e penetrava.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme.

Tio Severino tinha feito uma revelação extraordinária, e Luciana devia comportar-se como pessoa que sabe onde o diabo dorme. Voltou a caminhar nas pontas dos pés, de uma parede a outra, simulando não ver o sofá e a poltrona. Estava sendo observada, notavam nela sinais esquisitos, sem dúvida.

– Foi tio Severino quem disse.

– Ah!

Papai e mamãe, silenciosos, refletindo na opinião rouca do parente grande, com certeza diziam “Ah!” por dentro e orgulhavam-se da filha sabida.

A cena da véspera atravessou-lhe o espírito e importunou-a. Sentada numa poça de água suja, gritara, enlameara-se toda. Naquele despropósito não era D. Henriqueta da Boa Vista – Que vergonha!

A culpada era a mamãe, que tivera a infeliz ideia de levá-la a lugares diferentes da calçada tranquila, do quintal sombrio. Na esquina do quarteirão principiava o mistério: barulho de carros, gritos, cores, movimentos, prédios altos demais. Talvez o diabo dormisse num deles. Em qual? Desanimada, confessou, interiormente, a sua ignorância. E, relativamente ao diabo só podia garantir baseada nas informações da cozinheira, que ele era preto, possuía chifres e rabo. Para quê? Admirou-se dessa extravagância. Que precisão tinha ele de chifres e rabo? Preto estava certo. No bairro moravam alguns pretos, sem chifres nem rabo. E se a cozinheira estivesse enganada? No espírito de Luciana, pouco inclinado a dúvidas, a pergunta esmoreceu, mas a indecisão momentânea descontentou-a: se privassem o diabo daqueles apêndices, ele ficaria reduzido a um brinquedo ordinário. Estremeceu maravilhada, num susto que encerrava prazer, uma visão patenteou-lhe a figura monstruosa. Certamente o diabo tinha gênio ruim, em horas de zanga batia nas pessoas com o rabo, espetava-as com os chifres. E retinto, da cor de Seu Adão carroceiro...

– Esta menina tem parte com o diabo.

E puxava as orelhas de Luciana. Por quê? Certamente o diabo também fugia de casa. Lisonjeada e medrosa com a terrível associação, Luciana persistia na desobediência.

Seu Adão, apesar de negro, não tinha parte com o diabo, provavelmente um sujeito sisudo, triste, como tio Severino. O beiço franzido e o olho duro de tio Severino.

– Esta menina tem parte com o diabo.

A fala ranzinza feria-lhe os ouvidos. Dedos finos e nervosos agarravam-na. Um susto, a impressão de ter perdido qualquer coisa e achar-se em risco. Findo o sobressalto, imaginara-se protegida por entidades vigorosas e imortais. Agora a frase de tio Severino firmava-lhe a convicção. Com certeza possuía as qualidades necessárias para instruir-se e confirmar o juízo de tio Severino. Dona Henriqueta da Boa-Vista era um azougue: tinha jeito de quem sabe onde o diabo dorme. Ainda não sabia, mas haveria de saber. Descobriria o lugar onde o diabo dorme. Dona Henriqueta da Boa-Vista se largaria pelo mundo, importante, os calcanhares erguidos, em companhia de seres enigmáticos que lhe ensinariam a residência do diabo. Mais tarde seu Adão a embarcaria na carroça: – “Foi um dia uma princesa bonita que tinha uma estrela na testa”. Luciana recusava as princesas e as estrelas. Seu Adão coçaria o pixaim, encolheria os ombros. Levá-la-ia para a gaiola. Mamãe recebê-la-ia zangadíssima. E daria, quando seu Adão se retirasse, várias chineladas em Dona Henriqueta da Boa-Vista. Sem dúvida. Mas isso ainda estava muito longe – e Luciana aborrecia tristezas.

(Graciliano Ramos. Luciana. In: Insônia. Record 14ª Ed. Rio, São Paulo: 1978. p. 61-68. Texto adaptado.)

Atente ao que se diz sobre as orações do seguinte excerto: “Ouvindo rumor na porta da frente e os passos conhecidos de tio Severino, Luciana ergueu-se estouvada, saiu do corredor, entrou na sala, parou indecisa, esperando que a chamassem. Ninguém reparou nela”.

I. A primeira oração, construída com o verbo ouvir no gerúndio, pode ser reescrita da seguinte maneira: (Quando ouviu rumor na porta da frente e os passos conhecidos de tio Severino, Luciana...).

II. Os verbos empregados no pretérito perfeito do indicativo sugerem que as ações de Luciana (ergueu-se, saiu, entrou, parou) foram percebidas pelo narrador depois de concluídas.

III. Embora sem um conectivo que evidencie uma relação semântica entre as últimas orações do trecho, pode-se depreender um sentido de adição (e esperou) e de oposição (chamassem, mas), ligando-as.

Está correto o que se diz em

 

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2184206 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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Luciana

Ouvindo rumor na porta da frente e os passos conhecidos de tio Severino, Luciana ergueu-se estouvada, saiu do corredor, entrou na sala, parou indecisa, esperando que a chamassem. Ninguém reparou nela. Papai e mamãe, no sofá, embebiam-se na palavra lenta e fanhosa de tio Severino, homem considerável, senhor da poltrona. O que ele dizia para a família tinha força de lei.

Luciana quis aproximar-se das pessoas grandes, mas lembrou-se do que lhe tinha acontecido na véspera. Andara com mamãe pela cidade, percorrera diversas ruas, satisfeita. Num lugar feio e escorregadio, onde a água da chuva empoçava, resistira, acuara e caíra no chão, sentara-se na lama, esperneando e berrando. Em casa, antes de tirar-lhe a camisa suja, mamãe lhe infligira três palmadas enérgicas. Por quê? Luciana passara o dia tentando reconciliar-se com o ser poderoso que lhe magoara as nádegas. Agora, na presença da visita, essa criatura forte não anunciava perigo.

Luciana aproximou-se do sofá nas pontas dos pés, imitando as mulheres que usam sapato alto. Convidava a irmã para brincar de moça, mas acabava arranjando-se só. E lá ia ela remedando um pássaro que se dispõe a voar, inclinada para a frente, os calcanhares apoiados em saltos enormes e imaginários. Assim aparelhada, chamava-se D. Henriqueta da Boa-Vista.

Tio Severino era notável: vermelho, tinha maçarocas brancas no rosto, o beiço e o queixo rapados, a testa brilhante, sobrancelhas densas e óculos redondos. Entre os dentes amarelos, a voz escorria pausada, nasal, incompreensível. Luciana percebia as palavras, mas não atinava com a significação delas. Rondou por ali um instante, mas fatigou-se. E ia esgueirar-se para o corredor, quando algumas sílabas da conversa indistinta lhe avivaram a recordação de outras sílabas vagas, largadas por um moleque na rua. Repetiu bem alto as palavras do moleque.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme. Luciana teve um deslumbramento. O coraçãozinho saltou, uma alegria doida encheu-a. Sentiu-se feliz e necessitou desabafar com alguém. Cruzou a sala. Espalhou as revistas e as bonecas, pôs-se a dançar em cima delas. Regressou, muito leve, boiando naquela claridade que a envolvia e penetrava.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme.

Tio Severino tinha feito uma revelação extraordinária, e Luciana devia comportar-se como pessoa que sabe onde o diabo dorme. Voltou a caminhar nas pontas dos pés, de uma parede a outra, simulando não ver o sofá e a poltrona. Estava sendo observada, notavam nela sinais esquisitos, sem dúvida.

– Foi tio Severino quem disse.

– Ah!

Papai e mamãe, silenciosos, refletindo na opinião rouca do parente grande, com certeza diziam “Ah!” por dentro e orgulhavam-se da filha sabida.

A cena da véspera atravessou-lhe o espírito e importunou-a. Sentada numa poça de água suja, gritara, enlameara-se toda. Naquele despropósito não era D. Henriqueta da Boa Vista – Que vergonha!

A culpada era a mamãe, que tivera a infeliz ideia de levá-la a lugares diferentes da calçada tranquila, do quintal sombrio. Na esquina do quarteirão principiava o mistério: barulho de carros, gritos, cores, movimentos, prédios altos demais. Talvez o diabo dormisse num deles. Em qual? Desanimada, confessou, interiormente, a sua ignorância. E, relativamente ao diabo só podia garantir baseada nas informações da cozinheira, que ele era preto, possuía chifres e rabo. Para quê? Admirou-se dessa extravagância. Que precisão tinha ele de chifres e rabo? Preto estava certo. No bairro moravam alguns pretos, sem chifres nem rabo. E se a cozinheira estivesse enganada? No espírito de Luciana, pouco inclinado a dúvidas, a pergunta esmoreceu, mas a indecisão momentânea descontentou-a: se privassem o diabo daqueles apêndices, ele ficaria reduzido a um brinquedo ordinário. Estremeceu maravilhada, num susto que encerrava prazer, uma visão patenteou-lhe a figura monstruosa. Certamente o diabo tinha gênio ruim, em horas de zanga batia nas pessoas com o rabo, espetava-as com os chifres. E retinto, da cor de Seu Adão carroceiro...

– Esta menina tem parte com o diabo.

E puxava as orelhas de Luciana. Por quê? Certamente o diabo também fugia de casa. Lisonjeada e medrosa com a terrível associação, Luciana persistia na desobediência.

Seu Adão, apesar de negro, não tinha parte com o diabo, provavelmente um sujeito sisudo, triste, como tio Severino. O beiço franzido e o olho duro de tio Severino.

– Esta menina tem parte com o diabo.

A fala ranzinza feria-lhe os ouvidos. Dedos finos e nervosos agarravam-na. Um susto, a impressão de ter perdido qualquer coisa e achar-se em risco. Findo o sobressalto, imaginara-se protegida por entidades vigorosas e imortais. Agora a frase de tio Severino firmava-lhe a convicção. Com certeza possuía as qualidades necessárias para instruir-se e confirmar o juízo de tio Severino. Dona Henriqueta da Boa-Vista era um azougue: tinha jeito de quem sabe onde o diabo dorme. Ainda não sabia, mas haveria de saber. Descobriria o lugar onde o diabo dorme. Dona Henriqueta da Boa-Vista se largaria pelo mundo, importante, os calcanhares erguidos, em companhia de seres enigmáticos que lhe ensinariam a residência do diabo. Mais tarde seu Adão a embarcaria na carroça: – “Foi um dia uma princesa bonita que tinha uma estrela na testa”. Luciana recusava as princesas e as estrelas. Seu Adão coçaria o pixaim, encolheria os ombros. Levá-la-ia para a gaiola. Mamãe recebê-la-ia zangadíssima. E daria, quando seu Adão se retirasse, várias chineladas em Dona Henriqueta da Boa-Vista. Sem dúvida. Mas isso ainda estava muito longe – e Luciana aborrecia tristezas.

(Graciliano Ramos. Luciana. In: Insônia. Record 14ª Ed. Rio, São Paulo: 1978. p. 61-68. Texto adaptado.)

Releia com atenção o trecho destacado: “Em casa, antes de tirar-lhe a camisa suja, mamãe lhe infligira três palmadas enérgicas. Por quê? Luciana passara o dia tentando reconciliar-se com o ser poderoso que lhe magoara as nádegas. Agora, na presença da visita, essa criatura forte não anunciava perigo”. Nesse trecho aparecem três vocábulos e/ou expressões que se referem à mãe de Luciana. São expressões referenciais, com as quais podem ser construídas quatro diferentes sequências. Uma delas foi organizada de modo a formar uma gradação ascendente com um forte clímax. Essas expressões referenciais são responsáveis pelas mudanças que o referente sofre durante o desenvolvimento do discurso. A sequência que expressa a gradação ascendente é

 

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2184205 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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Luciana

Ouvindo rumor na porta da frente e os passos conhecidos de tio Severino, Luciana ergueu-se estouvada, saiu do corredor, entrou na sala, parou indecisa, esperando que a chamassem. Ninguém reparou nela. Papai e mamãe, no sofá, embebiam-se na palavra lenta e fanhosa de tio Severino, homem considerável, senhor da poltrona. O que ele dizia para a família tinha força de lei.

Luciana quis aproximar-se das pessoas grandes, mas lembrou-se do que lhe tinha acontecido na véspera. Andara com mamãe pela cidade, percorrera diversas ruas, satisfeita. Num lugar feio e escorregadio, onde a água da chuva empoçava, resistira, acuara e caíra no chão, sentara-se na lama, esperneando e berrando. Em casa, antes de tirar-lhe a camisa suja, mamãe lhe infligira três palmadas enérgicas. Por quê? Luciana passara o dia tentando reconciliar-se com o ser poderoso que lhe magoara as nádegas. Agora, na presença da visita, essa criatura forte não anunciava perigo.

Luciana aproximou-se do sofá nas pontas dos pés, imitando as mulheres que usam sapato alto. Convidava a irmã para brincar de moça, mas acabava arranjando-se só. E lá ia ela remedando um pássaro que se dispõe a voar, inclinada para a frente, os calcanhares apoiados em saltos enormes e imaginários. Assim aparelhada, chamava-se D. Henriqueta da Boa-Vista.

Tio Severino era notável: vermelho, tinha maçarocas brancas no rosto, o beiço e o queixo rapados, a testa brilhante, sobrancelhas densas e óculos redondos. Entre os dentes amarelos, a voz escorria pausada, nasal, incompreensível. Luciana percebia as palavras, mas não atinava com a significação delas. Rondou por ali um instante, mas fatigou-se. E ia esgueirar-se para o corredor, quando algumas sílabas da conversa indistinta lhe avivaram a recordação de outras sílabas vagas, largadas por um moleque na rua. Repetiu bem alto as palavras do moleque.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme. Luciana teve um deslumbramento. O coraçãozinho saltou, uma alegria doida encheu-a. Sentiu-se feliz e necessitou desabafar com alguém. Cruzou a sala. Espalhou as revistas e as bonecas, pôs-se a dançar em cima delas. Regressou, muito leve, boiando naquela claridade que a envolvia e penetrava.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme.

Tio Severino tinha feito uma revelação extraordinária, e Luciana devia comportar-se como pessoa que sabe onde o diabo dorme. Voltou a caminhar nas pontas dos pés, de uma parede a outra, simulando não ver o sofá e a poltrona. Estava sendo observada, notavam nela sinais esquisitos, sem dúvida.

– Foi tio Severino quem disse.

– Ah!

Papai e mamãe, silenciosos, refletindo na opinião rouca do parente grande, com certeza diziam “Ah!” por dentro e orgulhavam-se da filha sabida.

A cena da véspera atravessou-lhe o espírito e importunou-a. Sentada numa poça de água suja, gritara, enlameara-se toda. Naquele despropósito não era D. Henriqueta da Boa Vista – Que vergonha!

A culpada era a mamãe, que tivera a infeliz ideia de levá-la a lugares diferentes da calçada tranquila, do quintal sombrio. Na esquina do quarteirão principiava o mistério: barulho de carros, gritos, cores, movimentos, prédios altos demais. Talvez o diabo dormisse num deles. Em qual? Desanimada, confessou, interiormente, a sua ignorância. E, relativamente ao diabo só podia garantir baseada nas informações da cozinheira, que ele era preto, possuía chifres e rabo. Para quê? Admirou-se dessa extravagância. Que precisão tinha ele de chifres e rabo? Preto estava certo. No bairro moravam alguns pretos, sem chifres nem rabo. E se a cozinheira estivesse enganada? No espírito de Luciana, pouco inclinado a dúvidas, a pergunta esmoreceu, mas a indecisão momentânea descontentou-a: se privassem o diabo daqueles apêndices, ele ficaria reduzido a um brinquedo ordinário. Estremeceu maravilhada, num susto que encerrava prazer, uma visão patenteou-lhe a figura monstruosa. Certamente o diabo tinha gênio ruim, em horas de zanga batia nas pessoas com o rabo, espetava-as com os chifres. E retinto, da cor de Seu Adão carroceiro...

– Esta menina tem parte com o diabo.

E puxava as orelhas de Luciana. Por quê? Certamente o diabo também fugia de casa. Lisonjeada e medrosa com a terrível associação, Luciana persistia na desobediência.

Seu Adão, apesar de negro, não tinha parte com o diabo, provavelmente um sujeito sisudo, triste, como tio Severino. O beiço franzido e o olho duro de tio Severino.

– Esta menina tem parte com o diabo.

A fala ranzinza feria-lhe os ouvidos. Dedos finos e nervosos agarravam-na. Um susto, a impressão de ter perdido qualquer coisa e achar-se em risco. Findo o sobressalto, imaginara-se protegida por entidades vigorosas e imortais. Agora a frase de tio Severino firmava-lhe a convicção. Com certeza possuía as qualidades necessárias para instruir-se e confirmar o juízo de tio Severino. Dona Henriqueta da Boa-Vista era um azougue: tinha jeito de quem sabe onde o diabo dorme. Ainda não sabia, mas haveria de saber. Descobriria o lugar onde o diabo dorme. Dona Henriqueta da Boa-Vista se largaria pelo mundo, importante, os calcanhares erguidos, em companhia de seres enigmáticos que lhe ensinariam a residência do diabo. Mais tarde seu Adão a embarcaria na carroça: – “Foi um dia uma princesa bonita que tinha uma estrela na testa”. Luciana recusava as princesas e as estrelas. Seu Adão coçaria o pixaim, encolheria os ombros. Levá-la-ia para a gaiola. Mamãe recebê-la-ia zangadíssima. E daria, quando seu Adão se retirasse, várias chineladas em Dona Henriqueta da Boa-Vista. Sem dúvida. Mas isso ainda estava muito longe – e Luciana aborrecia tristezas.

(Graciliano Ramos. Luciana. In: Insônia. Record 14ª Ed. Rio, São Paulo: 1978. p. 61-68. Texto adaptado.)

Caricatura é o desenho de uma pessoa ou de um fato exageradamente deformados. É um tipo de expressão grotesca ou jocosa, divertida, cômica. A caricatura também pode ser feita por meio dos recursos linguísticos. No conto, a personagem caricaturada é

 

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2184204 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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Luciana

Ouvindo rumor na porta da frente e os passos conhecidos de tio Severino, Luciana ergueu-se estouvada, saiu do corredor, entrou na sala, parou indecisa, esperando que a chamassem. Ninguém reparou nela. Papai e mamãe, no sofá, embebiam-se na palavra lenta e fanhosa de tio Severino, homem considerável, senhor da poltrona. O que ele dizia para a família tinha força de lei.

Luciana quis aproximar-se das pessoas grandes, mas lembrou-se do que lhe tinha acontecido na véspera. Andara com mamãe pela cidade, percorrera diversas ruas, satisfeita. Num lugar feio e escorregadio, onde a água da chuva empoçava, resistira, acuara e caíra no chão, sentara-se na lama, esperneando e berrando. Em casa, antes de tirar-lhe a camisa suja, mamãe lhe infligira três palmadas enérgicas. Por quê? Luciana passara o dia tentando reconciliar-se com o ser poderoso que lhe magoara as nádegas. Agora, na presença da visita, essa criatura forte não anunciava perigo.

Luciana aproximou-se do sofá nas pontas dos pés, imitando as mulheres que usam sapato alto. Convidava a irmã para brincar de moça, mas acabava arranjando-se só. E lá ia ela remedando um pássaro que se dispõe a voar, inclinada para a frente, os calcanhares apoiados em saltos enormes e imaginários. Assim aparelhada, chamava-se D. Henriqueta da Boa-Vista.

Tio Severino era notável: vermelho, tinha maçarocas brancas no rosto, o beiço e o queixo rapados, a testa brilhante, sobrancelhas densas e óculos redondos. Entre os dentes amarelos, a voz escorria pausada, nasal, incompreensível. Luciana percebia as palavras, mas não atinava com a significação delas. Rondou por ali um instante, mas fatigou-se. E ia esgueirar-se para o corredor, quando algumas sílabas da conversa indistinta lhe avivaram a recordação de outras sílabas vagas, largadas por um moleque na rua. Repetiu bem alto as palavras do moleque.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme. Luciana teve um deslumbramento. O coraçãozinho saltou, uma alegria doida encheu-a. Sentiu-se feliz e necessitou desabafar com alguém. Cruzou a sala. Espalhou as revistas e as bonecas, pôs-se a dançar em cima delas. Regressou, muito leve, boiando naquela claridade que a envolvia e penetrava.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme.

Tio Severino tinha feito uma revelação extraordinária, e Luciana devia comportar-se como pessoa que sabe onde o diabo dorme. Voltou a caminhar nas pontas dos pés, de uma parede a outra, simulando não ver o sofá e a poltrona. Estava sendo observada, notavam nela sinais esquisitos, sem dúvida.

– Foi tio Severino quem disse.

– Ah!

Papai e mamãe, silenciosos, refletindo na opinião rouca do parente grande, com certeza diziam “Ah!” por dentro e orgulhavam-se da filha sabida.

A cena da véspera atravessou-lhe o espírito e importunou-a. Sentada numa poça de água suja, gritara, enlameara-se toda. Naquele despropósito não era D. Henriqueta da Boa Vista – Que vergonha!

A culpada era a mamãe, que tivera a infeliz ideia de levá-la a lugares diferentes da calçada tranquila, do quintal sombrio. Na esquina do quarteirão principiava o mistério: barulho de carros, gritos, cores, movimentos, prédios altos demais. Talvez o diabo dormisse num deles. Em qual? Desanimada, confessou, interiormente, a sua ignorância. E, relativamente ao diabo só podia garantir baseada nas informações da cozinheira, que ele era preto, possuía chifres e rabo. Para quê? Admirou-se dessa extravagância. Que precisão tinha ele de chifres e rabo? Preto estava certo. No bairro moravam alguns pretos, sem chifres nem rabo. E se a cozinheira estivesse enganada? No espírito de Luciana, pouco inclinado a dúvidas, a pergunta esmoreceu, mas a indecisão momentânea descontentou-a: se privassem o diabo daqueles apêndices, ele ficaria reduzido a um brinquedo ordinário. Estremeceu maravilhada, num susto que encerrava prazer, uma visão patenteou-lhe a figura monstruosa. Certamente o diabo tinha gênio ruim, em horas de zanga batia nas pessoas com o rabo, espetava-as com os chifres. E retinto, da cor de Seu Adão carroceiro...

– Esta menina tem parte com o diabo.

E puxava as orelhas de Luciana. Por quê? Certamente o diabo também fugia de casa. Lisonjeada e medrosa com a terrível associação, Luciana persistia na desobediência.

Seu Adão, apesar de negro, não tinha parte com o diabo, provavelmente um sujeito sisudo, triste, como tio Severino. O beiço franzido e o olho duro de tio Severino.

– Esta menina tem parte com o diabo.

A fala ranzinza feria-lhe os ouvidos. Dedos finos e nervosos agarravam-na. Um susto, a impressão de ter perdido qualquer coisa e achar-se em risco. Findo o sobressalto, imaginara-se protegida por entidades vigorosas e imortais. Agora a frase de tio Severino firmava-lhe a convicção. Com certeza possuía as qualidades necessárias para instruir-se e confirmar o juízo de tio Severino. Dona Henriqueta da Boa-Vista era um azougue: tinha jeito de quem sabe onde o diabo dorme. Ainda não sabia, mas haveria de saber. Descobriria o lugar onde o diabo dorme. Dona Henriqueta da Boa-Vista se largaria pelo mundo, importante, os calcanhares erguidos, em companhia de seres enigmáticos que lhe ensinariam a residência do diabo. Mais tarde seu Adão a embarcaria na carroça: – “Foi um dia uma princesa bonita que tinha uma estrela na testa”. Luciana recusava as princesas e as estrelas. Seu Adão coçaria o pixaim, encolheria os ombros. Levá-la-ia para a gaiola. Mamãe recebê-la-ia zangadíssima. E daria, quando seu Adão se retirasse, várias chineladas em Dona Henriqueta da Boa-Vista. Sem dúvida. Mas isso ainda estava muito longe – e Luciana aborrecia tristezas.

(Graciliano Ramos. Luciana. In: Insônia. Record 14ª Ed. Rio, São Paulo: 1978. p. 61-68. Texto adaptado.)

Que sentimentos experimentou Luciana quando ouviu, pela primeira vez, que era uma menina que sabia onde o diabo dormia?

 

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2184203 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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Luciana

Ouvindo rumor na porta da frente e os passos conhecidos de tio Severino, Luciana ergueu-se estouvada, saiu do corredor, entrou na sala, parou indecisa, esperando que a chamassem. Ninguém reparou nela. Papai e mamãe, no sofá, embebiam-se na palavra lenta e fanhosa de tio Severino, homem considerável, senhor da poltrona. O que ele dizia para a família tinha força de lei.

Luciana quis aproximar-se das pessoas grandes, mas lembrou-se do que lhe tinha acontecido na véspera. Andara com mamãe pela cidade, percorrera diversas ruas, satisfeita. Num lugar feio e escorregadio, onde a água da chuva empoçava, resistira, acuara e caíra no chão, sentara-se na lama, esperneando e berrando. Em casa, antes de tirar-lhe a camisa suja, mamãe lhe infligira três palmadas enérgicas. Por quê? Luciana passara o dia tentando reconciliar-se com o ser poderoso que lhe magoara as nádegas. Agora, na presença da visita, essa criatura forte não anunciava perigo.

Luciana aproximou-se do sofá nas pontas dos pés, imitando as mulheres que usam sapato alto. Convidava a irmã para brincar de moça, mas acabava arranjando-se só. E lá ia ela remedando um pássaro que se dispõe a voar, inclinada para a frente, os calcanhares apoiados em saltos enormes e imaginários. Assim aparelhada, chamava-se D. Henriqueta da Boa-Vista.

Tio Severino era notável: vermelho, tinha maçarocas brancas no rosto, o beiço e o queixo rapados, a testa brilhante, sobrancelhas densas e óculos redondos. Entre os dentes amarelos, a voz escorria pausada, nasal, incompreensível. Luciana percebia as palavras, mas não atinava com a significação delas. Rondou por ali um instante, mas fatigou-se. E ia esgueirar-se para o corredor, quando algumas sílabas da conversa indistinta lhe avivaram a recordação de outras sílabas vagas, largadas por um moleque na rua. Repetiu bem alto as palavras do moleque.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme. Luciana teve um deslumbramento. O coraçãozinho saltou, uma alegria doida encheu-a. Sentiu-se feliz e necessitou desabafar com alguém. Cruzou a sala. Espalhou as revistas e as bonecas, pôs-se a dançar em cima delas. Regressou, muito leve, boiando naquela claridade que a envolvia e penetrava.

– Esta menina sabe onde o diabo dorme.

Tio Severino tinha feito uma revelação extraordinária, e Luciana devia comportar-se como pessoa que sabe onde o diabo dorme. Voltou a caminhar nas pontas dos pés, de uma parede a outra, simulando não ver o sofá e a poltrona. Estava sendo observada, notavam nela sinais esquisitos, sem dúvida.

– Foi tio Severino quem disse.

– Ah!

Papai e mamãe, silenciosos, refletindo na opinião rouca do parente grande, com certeza diziam “Ah!” por dentro e orgulhavam-se da filha sabida.

A cena da véspera atravessou-lhe o espírito e importunou-a. Sentada numa poça de água suja, gritara, enlameara-se toda. Naquele despropósito não era D. Henriqueta da Boa Vista – Que vergonha!

A culpada era a mamãe, que tivera a infeliz ideia de levá-la a lugares diferentes da calçada tranquila, do quintal sombrio. Na esquina do quarteirão principiava o mistério: barulho de carros, gritos, cores, movimentos, prédios altos demais. Talvez o diabo dormisse num deles. Em qual? Desanimada, confessou, interiormente, a sua ignorância. E, relativamente ao diabo só podia garantir baseada nas informações da cozinheira, que ele era preto, possuía chifres e rabo. Para quê? Admirou-se dessa extravagância. Que precisão tinha ele de chifres e rabo? Preto estava certo. No bairro moravam alguns pretos, sem chifres nem rabo. E se a cozinheira estivesse enganada? No espírito de Luciana, pouco inclinado a dúvidas, a pergunta esmoreceu, mas a indecisão momentânea descontentou-a: se privassem o diabo daqueles apêndices, ele ficaria reduzido a um brinquedo ordinário. Estremeceu maravilhada, num susto que encerrava prazer, uma visão patenteou-lhe a figura monstruosa. Certamente o diabo tinha gênio ruim, em horas de zanga batia nas pessoas com o rabo, espetava-as com os chifres. E retinto, da cor de Seu Adão carroceiro...

– Esta menina tem parte com o diabo.

E puxava as orelhas de Luciana. Por quê? Certamente o diabo também fugia de casa. Lisonjeada e medrosa com a terrível associação, Luciana persistia na desobediência.

Seu Adão, apesar de negro, não tinha parte com o diabo, provavelmente um sujeito sisudo, triste, como tio Severino. O beiço franzido e o olho duro de tio Severino.

– Esta menina tem parte com o diabo.

A fala ranzinza feria-lhe os ouvidos. Dedos finos e nervosos agarravam-na. Um susto, a impressão de ter perdido qualquer coisa e achar-se em risco. Findo o sobressalto, imaginara-se protegida por entidades vigorosas e imortais. Agora a frase de tio Severino firmava-lhe a convicção. Com certeza possuía as qualidades necessárias para instruir-se e confirmar o juízo de tio Severino. Dona Henriqueta da Boa-Vista era um azougue: tinha jeito de quem sabe onde o diabo dorme. Ainda não sabia, mas haveria de saber. Descobriria o lugar onde o diabo dorme. Dona Henriqueta da Boa-Vista se largaria pelo mundo, importante, os calcanhares erguidos, em companhia de seres enigmáticos que lhe ensinariam a residência do diabo. Mais tarde seu Adão a embarcaria na carroça: – “Foi um dia uma princesa bonita que tinha uma estrela na testa”. Luciana recusava as princesas e as estrelas. Seu Adão coçaria o pixaim, encolheria os ombros. Levá-la-ia para a gaiola. Mamãe recebê-la-ia zangadíssima. E daria, quando seu Adão se retirasse, várias chineladas em Dona Henriqueta da Boa-Vista. Sem dúvida. Mas isso ainda estava muito longe – e Luciana aborrecia tristezas.

(Graciliano Ramos. Luciana. In: Insônia. Record 14ª Ed. Rio, São Paulo: 1978. p. 61-68. Texto adaptado.)

Assinale a opção que descreve corretamente quem era D. Henriqueta da Boa-Vista e o que ela representava para Luciana.

 

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