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INSTRUÇÃO: leia o texto abaixo e responda à questão.
Saudades da secretária eletrônica
Antonio Prata
20 nov 2021
Meu velho pai sabe das coisas. Eu o chamo de “velho pai” não porque seja realmente velho: é
como ele se chama ao falar comigo. Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como quem põe
um cachimbo na boca pra uma foto. Outras vezes é mais a sério — acende o cachimbo. Na semana
passada, por exemplo, me escreveu uma e meia da manhã pedindo para lhe mandar um x-salada:
“Alimente seu velho pai”. Meu velho pai não usa Uber Eats, iFood, Rappi ou qualquer uma “dessas
coisas”.
Meu velho pai tá de saco cheio “dessas coisas”. Outro dia ele me ligou. “Recebeu minha mensagem?”.
“Por onde?”. Silêncio. “PQP! Não aguento mais essas coisas” — e começou a reclamar da dificuldade
de nos comunicarmos por tantos canais: “É WhatsApp, SMS, e-mail, DM no Facebook, no Instagram,
no Twitter...”. “Qual era a mensagem, pai?”. “Aí é que tá. Eu tive uma ideia muito boa no meio da noite
e te escrevi pra não esquecer, agora não lembro nem da ideia e nem por onde escrevi”.
Segundo meu velho pai, a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados é “dessas coisas”:
aplicativos e plataformas e dispositivos jorrando uma quantidade infinita de informação que de bom
grado entuchamos retina abaixo, cada tela um daqueles funis de milho pra transformar fígado de ganso
em patê. (Talvez o plano do Zuckerberg e seus comparsas seja esse: transformar nossos cérebros em
patê para depois comê-los com cream-crackers-low-carb-glúten-free-ESG-sem-pegadas-de-carbono. A
hipótese é absurda, mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo).
Meu velho pai tá injuriado com o furdunço global que estamos vivendo e tem uma proposta bem
razoável para minorá-lo. “Cinco anos sem inventarem nada. Nada. Todo mundo fica com o celular que
tem, com o Android que tem, o IOS que tem, com os aplicativos que tem e os canais de televisão que
tem. Quando a gente aprender a usar tudo, assistir a todas as séries, ler todos os livros, ouvir todos os
podcasts, vê se precisa inventar mais alguma coisa ou para por aí mesmo”.
Concordo. A humanidade precisa de um novo Adobe Reader a cada semana pra quê, exatamente?!
De que forma PhDs em física podem “otimizar” um troço que é basicamente um xerox eletrônico?
Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de “a infraestrutura
produz a superestrutura”. Mais tarde entendi e era simples e verdadeiro. A nossa maneira de agir molda
a nossa maneira de pensar. Um pescador no século 19 se relaciona com o tempo, a comida, o sexo e
as unhas dos pés de formas completamente diferentes do que um programador de vinte e dois anos,
hoje, no Vale do Silício. É evidente que existe uma ligação direta entre a placa do meu celular e a minha
placa para bruxismo. Quando meus dedos aflitos param de digitar, passam o turno pros dentes.
O supracitado alemão resumiu o que parecia ser o fim dos tempos com a frase “tudo o que é sólido
desmancha no ar”. O que diria sobre nossa época em que o próprio ar se desmancha, inundado por
dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e sei lá mais o quê?
[...]
“Tinha que ser geral”, sugere meu velho pai, “com Biden, Merkel, China, ONU, com tudo: cinco anos
sem inventarem nada. Nada. PQP: que saudades da secretária eletrônica.”
(PRATA, Antonio. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2021/11/
saudades-da-secretaria-eletronica.shtml. Acesso em: 30 mar. 2022. Adapt.)
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Saudades da secretária eletrônica
Antonio Prata
20 nov 2021
Meu velho pai sabe das coisas. Eu o chamo de “velho pai” não porque seja realmente velho: é
como ele se chama ao falar comigo. Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como quem põe
um cachimbo na boca pra uma foto. Outras vezes é mais a sério — acende o cachimbo. Na semana
passada, por exemplo, me escreveu uma e meia da manhã pedindo para lhe mandar um x-salada:
“Alimente seu velho pai”. Meu velho pai não usa Uber Eats, iFood, Rappi ou qualquer uma “dessas
coisas”.
Meu velho pai tá de saco cheio “dessas coisas”. Outro dia ele me ligou. “Recebeu minha mensagem?”.
“Por onde?”. Silêncio. “PQP! Não aguento mais essas coisas” — e começou a reclamar da dificuldade
de nos comunicarmos por tantos canais: “É WhatsApp, SMS, e-mail, DM no Facebook, no Instagram,
no Twitter...”. “Qual era a mensagem, pai?”. “Aí é que tá. Eu tive uma ideia muito boa no meio da noite
e te escrevi pra não esquecer, agora não lembro nem da ideia e nem por onde escrevi”.
Segundo meu velho pai, a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados é “dessas coisas”:
aplicativos e plataformas e dispositivos jorrando uma quantidade infinita de informação que de bom
grado entuchamos retina abaixo, cada tela um daqueles funis de milho pra transformar fígado de ganso
em patê. (Talvez o plano do Zuckerberg e seus comparsas seja esse: transformar nossos cérebros em
patê para depois comê-los com cream-crackers-low-carb-glúten-free-ESG-sem-pegadas-de-carbono. A
hipótese é absurda, mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo).
Meu velho pai tá injuriado com o furdunço global que estamos vivendo e tem uma proposta bem
razoável para minorá-lo. “Cinco anos sem inventarem nada. Nada. Todo mundo fica com o celular que
tem, com o Android que tem, o IOS que tem, com os aplicativos que tem e os canais de televisão que
tem. Quando a gente aprender a usar tudo, assistir a todas as séries, ler todos os livros, ouvir todos os
podcasts, vê se precisa inventar mais alguma coisa ou para por aí mesmo”.
Concordo. A humanidade precisa de um novo Adobe Reader a cada semana pra quê, exatamente?!
De que forma PhDs em física podem “otimizar” um troço que é basicamente um xerox eletrônico?
Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de “a infraestrutura
produz a superestrutura”. Mais tarde entendi e era simples e verdadeiro. A nossa maneira de agir molda
a nossa maneira de pensar. Um pescador no século 19 se relaciona com o tempo, a comida, o sexo e
as unhas dos pés de formas completamente diferentes do que um programador de vinte e dois anos,
hoje, no Vale do Silício. É evidente que existe uma ligação direta entre a placa do meu celular e a minha
placa para bruxismo. Quando meus dedos aflitos param de digitar, passam o turno pros dentes.
O supracitado alemão resumiu o que parecia ser o fim dos tempos com a frase “tudo o que é sólido
desmancha no ar”. O que diria sobre nossa época em que o próprio ar se desmancha, inundado por
dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e sei lá mais o quê?
[...]
“Tinha que ser geral”, sugere meu velho pai, “com Biden, Merkel, China, ONU, com tudo: cinco anos
sem inventarem nada. Nada. PQP: que saudades da secretária eletrônica.”
(PRATA, Antonio. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2021/11/
saudades-da-secretaria-eletronica.shtml. Acesso em: 30 mar. 2022. Adapt.)
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Antonio Prata
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Meu velho pai sabe das coisas. Eu o chamo de “velho pai” não porque seja realmente velho: é
como ele se chama ao falar comigo. Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como quem põe
um cachimbo na boca pra uma foto. Outras vezes é mais a sério — acende o cachimbo. Na semana
passada, por exemplo, me escreveu uma e meia da manhã pedindo para lhe mandar um x-salada:
“Alimente seu velho pai”. Meu velho pai não usa Uber Eats, iFood, Rappi ou qualquer uma “dessas
coisas”.
Meu velho pai tá de saco cheio “dessas coisas”. Outro dia ele me ligou. “Recebeu minha mensagem?”.
“Por onde?”. Silêncio. “PQP! Não aguento mais essas coisas” — e começou a reclamar da dificuldade
de nos comunicarmos por tantos canais: “É WhatsApp, SMS, e-mail, DM no Facebook, no Instagram,
no Twitter...”. “Qual era a mensagem, pai?”. “Aí é que tá. Eu tive uma ideia muito boa no meio da noite
e te escrevi pra não esquecer, agora não lembro nem da ideia e nem por onde escrevi”.
Segundo meu velho pai, a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados é “dessas coisas”:
aplicativos e plataformas e dispositivos jorrando uma quantidade infinita de informação que de bom
grado entuchamos retina abaixo, cada tela um daqueles funis de milho pra transformar fígado de ganso
em patê. (Talvez o plano do Zuckerberg e seus comparsas seja esse: transformar nossos cérebros em
patê para depois comê-los com cream-crackers-low-carb-glúten-free-ESG-sem-pegadas-de-carbono. A
hipótese é absurda, mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo).
Meu velho pai tá injuriado com o furdunço global que estamos vivendo e tem uma proposta bem
razoável para minorá-lo. “Cinco anos sem inventarem nada. Nada. Todo mundo fica com o celular que
tem, com o Android que tem, o IOS que tem, com os aplicativos que tem e os canais de televisão que
tem. Quando a gente aprender a usar tudo, assistir a todas as séries, ler todos os livros, ouvir todos os
podcasts, vê se precisa inventar mais alguma coisa ou para por aí mesmo”.
Concordo. A humanidade precisa de um novo Adobe Reader a cada semana pra quê, exatamente?!
De que forma PhDs em física podem “otimizar” um troço que é basicamente um xerox eletrônico?
Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de “a infraestrutura
produz a superestrutura”. Mais tarde entendi e era simples e verdadeiro. A nossa maneira de agir molda
a nossa maneira de pensar. Um pescador no século 19 se relaciona com o tempo, a comida, o sexo e
as unhas dos pés de formas completamente diferentes do que um programador de vinte e dois anos,
hoje, no Vale do Silício. É evidente que existe uma ligação direta entre a placa do meu celular e a minha
placa para bruxismo. Quando meus dedos aflitos param de digitar, passam o turno pros dentes.
O supracitado alemão resumiu o que parecia ser o fim dos tempos com a frase “tudo o que é sólido
desmancha no ar”. O que diria sobre nossa época em que o próprio ar se desmancha, inundado por
dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e sei lá mais o quê?
[...]
“Tinha que ser geral”, sugere meu velho pai, “com Biden, Merkel, China, ONU, com tudo: cinco anos
sem inventarem nada. Nada. PQP: que saudades da secretária eletrônica.”
(PRATA, Antonio. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2021/11/
saudades-da-secretaria-eletronica.shtml. Acesso em: 30 mar. 2022. Adapt.)
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20 nov 2021
Meu velho pai sabe das coisas. Eu o chamo de “velho pai” não porque seja realmente velho: é
como ele se chama ao falar comigo. Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como quem põe
um cachimbo na boca pra uma foto. Outras vezes é mais a sério — acende o cachimbo. Na semana
passada, por exemplo, me escreveu uma e meia da manhã pedindo para lhe mandar um x-salada:
“Alimente seu velho pai”. Meu velho pai não usa Uber Eats, iFood, Rappi ou qualquer uma “dessas
coisas”.
Meu velho pai tá de saco cheio “dessas coisas”. Outro dia ele me ligou. “Recebeu minha mensagem?”.
“Por onde?”. Silêncio. “PQP! Não aguento mais essas coisas” — e começou a reclamar da dificuldade
de nos comunicarmos por tantos canais: “É WhatsApp, SMS, e-mail, DM no Facebook, no Instagram,
no Twitter...”. “Qual era a mensagem, pai?”. “Aí é que tá. Eu tive uma ideia muito boa no meio da noite
e te escrevi pra não esquecer, agora não lembro nem da ideia e nem por onde escrevi”.
Segundo meu velho pai, a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados é “dessas coisas”:
aplicativos e plataformas e dispositivos jorrando uma quantidade infinita de informação que de bom
grado entuchamos retina abaixo, cada tela um daqueles funis de milho pra transformar fígado de ganso
em patê. (Talvez o plano do Zuckerberg e seus comparsas seja esse: transformar nossos cérebros em
patê para depois comê-los com cream-crackers-low-carb-glúten-free-ESG-sem-pegadas-de-carbono. A
hipótese é absurda, mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo).
Meu velho pai tá injuriado com o furdunço global que estamos vivendo e tem uma proposta bem
razoável para minorá-lo. “Cinco anos sem inventarem nada. Nada. Todo mundo fica com o celular que
tem, com o Android que tem, o IOS que tem, com os aplicativos que tem e os canais de televisão que
tem. Quando a gente aprender a usar tudo, assistir a todas as séries, ler todos os livros, ouvir todos os
podcasts, vê se precisa inventar mais alguma coisa ou para por aí mesmo”.
Concordo. A humanidade precisa de um novo Adobe Reader a cada semana pra quê, exatamente?!
De que forma PhDs em física podem “otimizar” um troço que é basicamente um xerox eletrônico?
Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de “a infraestrutura
produz a superestrutura”. Mais tarde entendi e era simples e verdadeiro. A nossa maneira de agir molda
a nossa maneira de pensar. Um pescador no século 19 se relaciona com o tempo, a comida, o sexo e
as unhas dos pés de formas completamente diferentes do que um programador de vinte e dois anos,
hoje, no Vale do Silício. É evidente que existe uma ligação direta entre a placa do meu celular e a minha
placa para bruxismo. Quando meus dedos aflitos param de digitar, passam o turno pros dentes.
O supracitado alemão resumiu o que parecia ser o fim dos tempos com a frase “tudo o que é sólido
desmancha no ar”. O que diria sobre nossa época em que o próprio ar se desmancha, inundado por
dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e sei lá mais o quê?
[...]
“Tinha que ser geral”, sugere meu velho pai, “com Biden, Merkel, China, ONU, com tudo: cinco anos
sem inventarem nada. Nada. PQP: que saudades da secretária eletrônica.”
(PRATA, Antonio. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2021/11/
saudades-da-secretaria-eletronica.shtml. Acesso em: 30 mar. 2022. Adapt.)
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Meu velho pai sabe das coisas. Eu o chamo de “velho pai” não porque seja realmente velho: é
como ele se chama ao falar comigo. Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como quem põe
um cachimbo na boca pra uma foto. Outras vezes é mais a sério — acende o cachimbo. Na semana
passada, por exemplo, me escreveu uma e meia da manhã pedindo para lhe mandar um x-salada:
“Alimente seu velho pai”. Meu velho pai não usa Uber Eats, iFood, Rappi ou qualquer uma “dessas
coisas”.
Meu velho pai tá de saco cheio “dessas coisas”. Outro dia ele me ligou. “Recebeu minha mensagem?”.
“Por onde?”. Silêncio. “PQP! Não aguento mais essas coisas” — e começou a reclamar da dificuldade
de nos comunicarmos por tantos canais: “É WhatsApp, SMS, e-mail, DM no Facebook, no Instagram,
no Twitter...”. “Qual era a mensagem, pai?”. “Aí é que tá. Eu tive uma ideia muito boa no meio da noite
e te escrevi pra não esquecer, agora não lembro nem da ideia e nem por onde escrevi”.
Segundo meu velho pai, a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados é “dessas coisas”:
aplicativos e plataformas e dispositivos jorrando uma quantidade infinita de informação que de bom
grado entuchamos retina abaixo, cada tela um daqueles funis de milho pra transformar fígado de ganso
em patê. (Talvez o plano do Zuckerberg e seus comparsas seja esse: transformar nossos cérebros em
patê para depois comê-los com cream-crackers-low-carb-glúten-free-ESG-sem-pegadas-de-carbono. A
hipótese é absurda, mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo).
Meu velho pai tá injuriado com o furdunço global que estamos vivendo e tem uma proposta bem
razoável para minorá-lo. “Cinco anos sem inventarem nada. Nada. Todo mundo fica com o celular que
tem, com o Android que tem, o IOS que tem, com os aplicativos que tem e os canais de televisão que
tem. Quando a gente aprender a usar tudo, assistir a todas as séries, ler todos os livros, ouvir todos os
podcasts, vê se precisa inventar mais alguma coisa ou para por aí mesmo”.
Concordo. A humanidade precisa de um novo Adobe Reader a cada semana pra quê, exatamente?!
De que forma PhDs em física podem “otimizar” um troço que é basicamente um xerox eletrônico?
Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de “a infraestrutura
produz a superestrutura”. Mais tarde entendi e era simples e verdadeiro. A nossa maneira de agir molda
a nossa maneira de pensar. Um pescador no século 19 se relaciona com o tempo, a comida, o sexo e
as unhas dos pés de formas completamente diferentes do que um programador de vinte e dois anos,
hoje, no Vale do Silício. É evidente que existe uma ligação direta entre a placa do meu celular e a minha
placa para bruxismo. Quando meus dedos aflitos param de digitar, passam o turno pros dentes.
O supracitado alemão resumiu o que parecia ser o fim dos tempos com a frase “tudo o que é sólido
desmancha no ar”. O que diria sobre nossa época em que o próprio ar se desmancha, inundado por
dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e sei lá mais o quê?
[...]
“Tinha que ser geral”, sugere meu velho pai, “com Biden, Merkel, China, ONU, com tudo: cinco anos
sem inventarem nada. Nada. PQP: que saudades da secretária eletrônica.”
(PRATA, Antonio. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2021/11/
saudades-da-secretaria-eletronica.shtml. Acesso em: 30 mar. 2022. Adapt.)
Localize, nas alternativas seguintes, a ocorrência de crase que se dá pela MESMA regra de “às vezes”.
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Meu velho pai sabe das coisas. Eu o chamo de “velho pai” não porque seja realmente velho: é
como ele se chama ao falar comigo. Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como quem põe
um cachimbo na boca pra uma foto. Outras vezes é mais a sério — acende o cachimbo. Na semana
passada, por exemplo, me escreveu uma e meia da manhã pedindo para lhe mandar um x-salada:
“Alimente seu velho pai”. Meu velho pai não usa Uber Eats, iFood, Rappi ou qualquer uma “dessas
coisas”.
Meu velho pai tá de saco cheio “dessas coisas”. Outro dia ele me ligou. “Recebeu minha mensagem?”.
“Por onde?”. Silêncio. “PQP! Não aguento mais essas coisas” — e começou a reclamar da dificuldade
de nos comunicarmos por tantos canais: “É WhatsApp, SMS, e-mail, DM no Facebook, no Instagram,
no Twitter...”. “Qual era a mensagem, pai?”. “Aí é que tá. Eu tive uma ideia muito boa no meio da noite
e te escrevi pra não esquecer, agora não lembro nem da ideia e nem por onde escrevi”.
Segundo meu velho pai, a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados é “dessas coisas”:
aplicativos e plataformas e dispositivos jorrando uma quantidade infinita de informação que de bom
grado entuchamos retina abaixo, cada tela um daqueles funis de milho pra transformar fígado de ganso
em patê. (Talvez o plano do Zuckerberg e seus comparsas seja esse: transformar nossos cérebros em
patê para depois comê-los com cream-crackers-low-carb-glúten-free-ESG-sem-pegadas-de-carbono. A
hipótese é absurda, mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo).
Meu velho pai tá injuriado com o furdunço global que estamos vivendo e tem uma proposta bem
razoável para minorá-lo. “Cinco anos sem inventarem nada. Nada. Todo mundo fica com o celular que
tem, com o Android que tem, o IOS que tem, com os aplicativos que tem e os canais de televisão que
tem. Quando a gente aprender a usar tudo, assistir a todas as séries, ler todos os livros, ouvir todos os
podcasts, vê se precisa inventar mais alguma coisa ou para por aí mesmo”.
Concordo. A humanidade precisa de um novo Adobe Reader a cada semana pra quê, exatamente?!
De que forma PhDs em física podem “otimizar” um troço que é basicamente um xerox eletrônico?
Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de “a infraestrutura
produz a superestrutura”. Mais tarde entendi e era simples e verdadeiro. A nossa maneira de agir molda
a nossa maneira de pensar. Um pescador no século 19 se relaciona com o tempo, a comida, o sexo e
as unhas dos pés de formas completamente diferentes do que um programador de vinte e dois anos,
hoje, no Vale do Silício. É evidente que existe uma ligação direta entre a placa do meu celular e a minha
placa para bruxismo. Quando meus dedos aflitos param de digitar, passam o turno pros dentes.
O supracitado alemão resumiu o que parecia ser o fim dos tempos com a frase “tudo o que é sólido
desmancha no ar”. O que diria sobre nossa época em que o próprio ar se desmancha, inundado por
dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e sei lá mais o quê?
[...]
“Tinha que ser geral”, sugere meu velho pai, “com Biden, Merkel, China, ONU, com tudo: cinco anos
sem inventarem nada. Nada. PQP: que saudades da secretária eletrônica.”
(PRATA, Antonio. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2021/11/
saudades-da-secretaria-eletronica.shtml. Acesso em: 30 mar. 2022. Adapt.)
Nos fragmentos abaixo, retirados do texto desta prova, estão em negrito os elementos frasais que se relacionam à presença das vírgulas sob análise.
Assinale a alternativa em que a correspondência entre esse sinal de pontuação e a regra adiante, que justifica seu uso, está INCORRETA.
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Levando em consideração as regras atuais do uso do hífen em Língua Portuguesa, assinale a alternativa
em que a palavra está INCORRETAMENTE grafada.
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A normatização dos procedimentos contábeis aplicáveis à receita de transação sem contraprestação,
como os tributos, está embasada na Norma Brasileira de Contabilidade (NBC TSP) 01 – Receita de
Transação sem Contraprestação.
Nesse sentido, assinale a alternativa que descreve o registro contábil referente ao reconhecimento do crédito a receber de tributos pela informação de natureza patrimonial.
Nesse sentido, assinale a alternativa que descreve o registro contábil referente ao reconhecimento do crédito a receber de tributos pela informação de natureza patrimonial.
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No que tange às Demonstrações Contábeis Aplicadas ao Setor Público, analise as afirmativas a seguir
e assinale com (V) as verdadeiras e com (F) as falsas.
( ) As Demonstrações Contábeis Aplicadas ao Setor Público devem proporcionar informação útil para subsidiar a tomada de decisão e a prestação de contas e responsabilização (accountability) da entidade quanto aos recursos que lhe foram confiados.
( ) As Demonstrações Contábeis Aplicadas ao Setor Público não podem ter a função preditiva ou prospectiva, proporcionando informações úteis para prever o nível de recursos necessários para a continuidade de suas operações.
( ) Compete ao Conselho Federal de Contabilidade definir a responsabilidade pela elaboração e apresentação das demonstrações contábeis do governo e das entidades do setor público.
( ) As Demonstrações Contábeis Aplicadas ao Setor Público devem representar apropriadamente a situação patrimonial, o desempenho e os fluxos de caixa da entidade.
Assinale a sequência CORRETA.
( ) As Demonstrações Contábeis Aplicadas ao Setor Público devem proporcionar informação útil para subsidiar a tomada de decisão e a prestação de contas e responsabilização (accountability) da entidade quanto aos recursos que lhe foram confiados.
( ) As Demonstrações Contábeis Aplicadas ao Setor Público não podem ter a função preditiva ou prospectiva, proporcionando informações úteis para prever o nível de recursos necessários para a continuidade de suas operações.
( ) Compete ao Conselho Federal de Contabilidade definir a responsabilidade pela elaboração e apresentação das demonstrações contábeis do governo e das entidades do setor público.
( ) As Demonstrações Contábeis Aplicadas ao Setor Público devem representar apropriadamente a situação patrimonial, o desempenho e os fluxos de caixa da entidade.
Assinale a sequência CORRETA.
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De acordo com a Lei nº 10.520, de 17 de julho de 2002, para aquisição de bens e serviços comuns,
poderá ser adotada a licitação na modalidade de pregão.
Com relação ao que rege essa Lei, assinale a alternativa CORRETA.
Com relação ao que rege essa Lei, assinale a alternativa CORRETA.
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