Magna Concursos
1927686 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: UNIVASF
Orgão: UNIVASF

TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 1 A 9.

Homo Sedens

_____Tratar o ato de sentar como uma questão culturalmente relevante pode soar como mera

__brincadeira. Quem, começando a levá-la a sério, se perguntar “quanto tempo de nossas vidas

__passamos sentados?” ou “quantas cadeiras há no mundo?”, por mais que consiga respostas

__estatisticamente impressionantes, não terá, contudo, atingido o cerne da questão inusitada que

5 _nos faz pensar nas formas assumidas pelo sedentarismo como caráter da cultura. Na contramão

__do nomadismo, o sedentarismo faz parte da história de nossa civilização. Mais do que parte da

__história, é uma postura que caracteriza nosso tempo presente. A maior parte de nossos gestos

__corporais acaba no assento; passamos muitas horas do dia sentados, tudo, em nossas vidas,

__convida-nos a sentar. Mas esse convite agradável ao descanso tem significados mais complexos:

10_sentamos em casa, na rua, nas escolas, sentamo-nos diante de máquinas; sobretudo, hoje em

__dia, sentamo-nos diante de telas.

_____Norval Baitello Junior, professor da PUC de São Paulo, escreveu, em seu livro O

__pensamento sentado (Unisinos, 2012), sobre o lugar do “assento” em uma cultura sedentária. Sua

__crítica vai na direção de um pensamento sentado que, para ele, seria o pensamento acomodado.

15_Recuperando a expressão alemã usada por Nietzsche para falar da “vida sedentária” – Sitzfleisch

__– ele explora a tradução por “carne de assento” que, literalmente, leva à usual “bunda”. Bunda

__tem um vasto alcance no Brasil. Mesmo que soe deselegante, não seria um erro considerar a

__atualidade de um “pensamento-bunda”, aquele pensamento cansado que, no extremo, expressa o

__que entendemos no cotidiano, no âmbito da irresponsabilidade do “bundão”.

20_____O caráter “assentado” é o da “discursividade previsível e acomodada”, a que reduz o ato

__de pensar em nossa época, contra sua natureza mais íntima. O “decréscimo da mobilidade” do

__corpo é, segundo ele, também do pensar, cuja imprevisibilidade e capacidade de surpreender

__estariam em baixa. Conhecemos essa acomodação, sabemos que ela é necessária ao poder, ao

__sistema econômico e político, que esperam corpos dóceis e mentes paradas, repetindo

25_acomodadamente mais do mesmo que mantém tudo no mesmo lugar: sentado.

_____Pensar na reflexão aos saltos do livro de Baitello é uma atitude dinâmica, como seria o

__movimento de nosso corpo, inquieto e propenso a caminhar, pular, correr e saltar. A capacidade

__humana, que está ligada a todo o nosso processo de aprendizagem em relação à vida, de

__explorar o entorno, é diminuída quando tudo se reduz a “assento”. O primata que somos se

30_ressente de não poder mover-se

_____Baitello nos lembra que sentar e sedar têm a mesma origem etimológica: sedere. Assim,

__comentando que somos “Homo sedens”, a atrofia dos músculos e dos movimentos surge como

__uma espécie de regra da cultura. Quando observamos o nosso dia a dia, sentados por todos os

__lados, diante de computadores, da televisão, dentro de carros, temos certeza que a mobilidade

35_corporal que nos caracterizaria, e que ainda se coloca como nossa potência, cede lugar à

__estranha mobilidade incorporal da máquina. As máquinas se movem em nosso lugar, tornamo-nos

__imóveis: esperamos sentados a máquina que nos substitui. De certo modo, participamos

__passivamente de um “devir” imóvel, que não nos leva a lugar nenhum, senão àquele onde já

__fomos previamente postos.

40_____Por fim, forçados a sentar, vivendo o elogio da disciplina, resistimos enquanto seres

__sentados em nome de um esforço. Valorizamos aquele que consegue aguentar a sala de aula, a

__cadeira no trabalho burocrático.

_____Somos, por fim, vítimas do que Baitello apontou como uma “conjunção perversa”, em que

__o sedentarismo de nossos corpos alia-se à hiperatividade visual. Anestesiados diante das

45__máquinas, vivemos na direção contrária de nossa própria capacidade nômade.

_____Talvez fugir desse mundo seja um desejo soterrado por cadeiras numa avalanche mole

__ao qual nosso corpo se adequa por ter medo de seus próprias potências. Bom lembrar que fugir é

__sempre um direito.

TÍBURI, Márcia. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2013/11/homo-sedens/.

Acesso em 3 de março de 2014.

No período “De certo modo, participamos passivamente de um ‘devir’ imóvel, que não nos leva a lugar nenhum, senão àquele onde já fomos previamente postos.” (l. 37-39), a palavra destacada é:

 

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