Leia o fragmento de texto abaixo e responda à questão:
Nariz, consciência sem remorsos, tu me valeste muito na vida... Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação do Doutor Pangloss é que o nariz foi criado para uso dos óculos, — e tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas veio um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de filosofia, atinei com a única, verdadeira e definitiva explicação.
Com efeito, bastou-me atentar no costume do faquir. Sabe o leitor que o faquir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim único de ver a luz celeste. Quando ele finca os olhos na ponta do nariz, perde o sentimento das coisas externas, embeleza-se no invisível, aprende o impalpável, desvincula-se da terra, dissolve-se, eteriza-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito, e a faculdade de a obter não pertence ao faquir somente: é universal. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu próprio nariz, para o fim de ver a luz celeste, e tal contemplação, cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente, constitui o equilíbrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o gênero humano não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.
Disponível em <http://memoriaspostumasbrascubas.com.br/PT/Silveira/Livro/Machado-de-Assis/Memorias-Postumas-de-Bras-Cubas-049> Acesso em 31 out.2016
A obra "Memórias Póstumas de Brás Cubas", publicada em 1881, inaugura o Realismo no Brasil. Machado de Assis inova ao usar a linguagem inscrevendo seu interlocutor no texto. Do excerto acima, pode-se exemplificar uma visão de leitura, defendida por Koch e Elias (2006) focada