TEXTO 1
Recortar uma língua e atribuir-lhe um nome não é tarefa fácil. Isso porque não há critérios exclusivamente linguísticos para tal recorte. Uma língua é, na verdade, uma construção imaginária em que se mesclam fatos linguísticos com fatores históricos, políticos, sociais e culturais. É esse complexo de elementos entrecruzados que leva os falantes a identificar suas variedades linguísticas como constitutivas de uma língua determinada. [...]
O contrário também ocorre, ou seja, variedades que, por critérios estritamente linguísticos, poderiam ser consideradas constitutivas de uma mesma língua, são assumidas por seus falantes como línguas diferentes por razões históricas, políticas e socioculturais. [...].
Uma língua é, então, um conjunto de variedades (e só assim pode ser definida) distribuídas no espaço geográfico e social e no eixo do tempo, conjunto que os falantes, por razões históricas, políticas e socioculturais, idealizam como uma realidade onde não há, efetivamente, unidade.
Muitas vezes, o imaginário social, para manter essa idealização em pé, confunde uma determinada variedade como língua. É a chamada “ideologia da norma-padrão”. Ao identificar a língua exclusivamente com as formas padronizadas, esse modelo ideológico tenta apagar ou desqualificar a heterogeneidade linguística e os processos de mudança.
A variação e a mudança, processos inerentes a qualquer realidade linguística, passam a ser consideradas como deterioração, corrupção, depreciação da “verdadeira” língua e, por isso, são alvos de rejeição, desprestígio ou estigma social.
Esse estigma pode emergir do quadro das próprias relações sociointeracionais, mas, no geral, encontram também reforço pela forma como as gramáticas normativas apresentam a língua (condenando, por exemplo, certas construções como “erro”) e como esse discurso se produz no sistema escolar e nos meios de comunicação. [...]
Adaptado de: FARACO, C. A. História do português. São Paulo: Parábola, 2019. p. 35.
TEXTO 3
"R" caipira é invenção dos brasileiros, conclui estudo linguístico
A análise de documentos antigos e de entrevistas de campo ao longo dos últimos 30 anos está mostrando que o português brasileiro já pode ser considerado único, diferente do português europeu, do mesmo modo que o inglês americano é distinto do inglês britânico. O português brasileiro ainda não é, porém, uma língua autônoma: talvez seja – na previsão de especialistas, em cerca de 200 anos – quando acumular peculiaridades que nos impeçam de entender inteiramente o que um nativo de Portugal diz.
A expansão do português no Brasil, as variações regionais com suas possíveis explicações, que fazem o urubu de São Paulo ser chamado de corvo no Sul do país, e as raízes das inovações da linguagem estão emergindo por meio do trabalho de cerca de 200 linguistas. De acordo com estudos da Universidade de São Paulo (USP), uma inovação do português brasileiro, por enquanto sem equivalente em Portugal, é o R caipira, às vezes tão intenso que parece valer por dois ou três, como em porrrta ou carrrne.
[...] Quem tiver paciência e ouvido apurado poderá encontrar também na região central do Brasil – e em cidades do litoral – o S chiado, uma característica hoje típica do falar carioca que veio com os portugueses em 1808 e era um sinal de prestígio por representar o falar da Corte. Mesmo os portugueses não eram originais: os especialistas argumentam que o S chiado, que faz da esquina uma ishquina, veio dos nobres franceses, que os portugueses admiravam.
Adaptado de: https://www.uol.com.br/tilt/ultimas-noticias/redacao/2015/04/12/em-200-anos-teremos-dificuldades-para-nos-comunicar-com-portugueses.htm. Acesso em: 14 nov. 2022.
Assinale a alternativa que NÃO está relacionada à compreensão de como se constitui uma língua, conforme abordam os Textos 1 e 3.