Eleitor
Por esta época, mas há já bastante tempo, numa cidade perdida no sertão maranhense, Severino, um homem que ganha a vida plantando algodão e cebola branca, está na varanda da casa de um dos dois donos de seu município. Os dois donos – desnecessário dizer – são inimigos e Severino tem que ficar com um deles. Ficou com esse que agora, entre superior e brincalhão, pergunta-lhe:
– Está pronto para votar no dia 3(b)?
– Disposto estou, coronel, pronto... (baixa os olhos para o chapéu(a) velho de palha de carnaúba(a) que segura entre os joelhos) pronto, a bem dizer, não estou não.
– Não tem(c) problema. Na véspera vai um caminhão buscar você(c) e o pessoal do Buriti.
– Mas não tenho chapéu, coronel. O chapéu que tenho é este aqui, de trabalho, velho como o senhor vê.
– Que chapéu, homem! Não é preciso chapéu pra votar. É preciso o título. Já tem o título?
– Já.
– E então!
– Então é que sem chapéu novo eu não voto não, coronel. E depois não tenho beca nem sapato.
– Está bem. Antes de sair mando buscar no armazém um chapéu pra você.
– E a beca, coronel? O pessoal do governo vai votar todo mundo de beca nova. O Joca Bonfim vai votar com o Dr. Teotônio. Eu disse pra ele que o senhor também tinha fortuna, que...
– Aquele Teotônio é um canalha! Gasta o dinheiro do Estado! Não tenho meios de vestir todos vocês, que diabo! Todo mundo vem aqui com essa conversa. Então votem no Teotônio(b) (d), que dá roupa e chapéu!
– Coronel, estamos com o senhor. Mas como é que vou trazer a mulher e as crianças pra cá? Ninguém tem roupa, anda tudo de trapo. O senhor sabe, mulher é tudo bicho vaidoso...
O coronel entrega os pontos, o caboclo sai para receber no armazém (do coronel) o chapéu, a fazenda, os sapatos.
– A que ponto chegou a corrupção! – exclama ele à mulher, que borda na poltrona em frente.
Ela nem sequer ergue a vista. Sabe de tudo.
Ferreira Gullar. A estranha vida banal. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
No que concerne aos aspectos linguísticos do texto, assinale a alternativa correta.