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1504826 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: Col.Mil. Belo Horizonte
Orgão: Col.Mil. Belo Horizonte
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TEXTO 1


Glória


1__ — Meu filho é artista de televisão, contando o senhor não acredita. Eu mesmo às vezes penso que é

ilusão. Com oito anos, imagine. Estava brincando na pracinha lá da vila quando passaram uns homens e

olharam muito pra ele. Meu filho, não é pra me gabar, mas é uma lindeza de Menino-Jesus, aí um dos

homens falou assim pra ele: Quer fazer um teste, ó garoto? O que é teste? ele respondeu. Aí o homem

5 explicou, não sei bem qual é a explicação, levaram ele pra um edifício na cidade, tiraram um bocado de

retratos dele, depois falaram assim: Você foi aprovado. Aí ele se espantou: Mas eu não fiz exame, que

troço é esse? Não é nada de exame não, eles responderam, você foi aprovado pra fazer um comercial, tá

bem? Ele neca de saber o que é um comercial, nem eu, mas agora eu fiquei sabendo, é uma coisa à toa, a

pessoa nem precisa falar, fica só fazendo uma coisa, comendo doce de leite, devagarinho, com uma

10 carinha alegre, quando acaba passa a língua nos beiços, assim, olha, e pisca o olho, ele é tão engraçado,

antes de acabar de comer ele já estava fazendo isso, um negócio. Aí mandaram ele de volta pra casa, não,

antes falaram assim pra ele: Manda seu pai aqui na agência receber o cachet. Ele ficou espantado, falou

assim: Que troço é esse? Eles responderam: É Tutu. Aí ele baixou a cabeça e respondeu baixinho: Eu não

tenho pai. E mãe você tem? Ele respondeu que mãe ele tinha, e levantou a cabeça. Então manda ela aqui,

15 mas o garoto é esperto, deu uma de sabido: Eu mesmo não posso receber? Se fui eu que fiz tudo sozinho.

Não, você não pode, tem que ser sua mãe, diz a ela que venha das 2 às 4, trazendo carteira de identidade.

Bonito, e eu que nunca tive carteira, já pelejei pra tirar uma, dei duro, pedi pro compadre Julião me

quebrar esse galho, compadre explicou que carece antes tirar certidão de nascimento, essa é muito boa,

então a gente tem que provar que nasceu, eu não estou viva com a graça de Deus e forte e trabalhando? O

20 pior é que nem sei se fui registrada lá em Pilão dos Palmares, chão do meu nascimento, não tenho parentes

neste mundo, só tenho no outro, e nem a poder de oração consegui até hoje tirar o papel da tal certidão,

afinal eu falei assim pro compadre: Deixa para lá, sem carteira vivi até hoje, sem ela vou viver até Nosso

Senhor me fechar os olhos. Vou lá na agência assim mesmo. Larguei meu serviço. Fui. Tinha um mundão

de gente, eu não sabia quem é que podia me atender, andei rodando de uma sala pra outra, até que afinal

25 um cara de bigodão, atrás da parede de vidro com um óculo no meio, falou assim: É comigo, trouxe a

carteira? Eu expliquei que carteira eu não tinha, mas sou lavadeira muito acreditada na Zona Norte, muitas

madamas da Rua Conde de Bonfim podem atestar que eu sou eu mesma e mãe de meu filho, há 25 anos

que trabalho de lavar roupa. Ele abanou a cabeça, falou assim: Nada feito, não tenho ordem de pagar sem

identidade. Mas o meu filho trabalhou, moço, eles ficaram satisfeitos com o trabalho dele, tanto que

30 prometeram pagar um tal de cachet, como é que pra pagar a ele é preciso a carteira de outra pessoa, o

senhor acha isso direito? Ele não respondeu nada, tornou a abanar a cabeça e eu fiquei matutando: O que

tu vai fazer pra sair dessa, Clementina da Anunciação? E comecei a chorar. Aí eles me viram chorando,

ficaram com pena de mim, um barbudo que passava disse pro bigodão: Paga ela, Reginaldo. O bigodão

resmungou: Tá legal, e me deu um papel passado em três folhas iguais, pra eu assinar nelas todas. Aí eu

35 disse: O senhor me desculpe, mas eu não sei escrever, a cabeça não dá. Então nada feito outra vez, o

bigodão respondeu. Aí eu não tinha mais vontade de chorar e disse assim pra ele: Escuta aqui, moço,

quanto é que meu filho tem pra receber? Ele respondeu: 50 cruzeiros. Ah, é isso? respondi. Pode ficar pra

agência. Perdi meu dia de trabalho, gastei trem, gastei ônibus, andei a pé nesse solão, não vou me chatear

por causa dessa micharia. Um cara que estava escutando falou assim: A senhora vai jogar fora esses 50

40 mangos? E daí? respondi pra ele. Meu filho vale muito mais, a gente não fica mais pobre por causa disso,

ele agora é artista, amanhã, se Deus e a Virgem Maria ajudar, vai ganhar milhões. Nem precisa ganhar, só o

orgulho que eu sinto por ele ter passado no teste! Saí de lá com esse orgulho bonito no coração, meu

filho é artista, meu filho é artista, ia repetindo sozinha, na rua me olhavam admirados, mas eu nem dei

bola, fui pra casa e ligo a televisão o dia inteiro, trabalho vendo ela, até chegar a hora de meu filho

45 aparecer no comercial comendo doce de leite. Pobre tem televisão, na vila todos têm, vai ser um estouro

quando meu boneco aparecer e piscar o olho, então isso não vale mais que 50, que 500, ou cinco mil

cruzeiros, ou todos os cruzeiros do mundo?

E seu rosto enrugado cintilava de glória.


DRUMMOND, Carlos. In: De notícias & não-notícias faz-se a crônica. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1975.

A crônica “Glória” foi organizada quase completamente após um sinal gráfico, o travessão, que significa, no texto narrativo, a introdução de uma fala de personagem. Pode-se afirmar, então, que há o predomínio de:

 

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