Observou-se, ao longo da história, não uma condenação, mas uma espécie de cortina de silêncio iniciada com Platão, cujo veto ao riso atingiu indiretamente o legado de Demócrito (nascido em 460 a.C.), chamado de “o filósofo que ri”. Infelizmente, da lavra de Demócrito pouco restou. O rastilho daquele lampejo que fez o cérebro do filósofo brilhar após a gargalhada apagou-se no mundo medieval. A valorização cristã do sofrimento levou a um desprezo geral pelo riso. Por conta desse renitente veto ao riso, figuras pouco conhecidas foram desaparecendo da sisuda história da filosofia. Com algumas exceções, filósofos sisudos e sérios se esquecem de que os mecanismos de compreensão e recompensa tanto dos conceitos filosóficos quanto das piadas são construídos da mesma matéria. Em uma explanação filosófica ou em uma anedota, o que o ouvinte mais teme é ser enganado. Neste caso, o “quem ri por último ri melhor” é apenas outra versão da frase que diz: “Quem ri por último não entendeu a piada”. A revelação que as piadas ou frases de duplo sentido proporcionam é um dos insights de maior efeito entre as pessoas. O que os filósofos chamam de “iluminação”, os humoristas intitulam “solavanco mental” da anedota.
A capacidade de rir surge inerente ao homem, mas o sentimento do humor é raro, pois envolve a capacidade de a pessoa se distanciar de si mesma. “Eu sempre rio de todo mundo que não riu de si também.” Esse foi o dístico que Friedrich Nietzsche sugeriu escrever em sua porta, em A Gaia Ciência. Frase típica de um filósofo gaiato. Literalmente.
Elias Thomé Saliba. Na cortina de silêncio. In: CartaCapital. Ano XII, n.º 673, 23/11/2011, p. 82-3, (com adaptações).
A respeito das ideias e das estruturas do texto acima, julgue o item subsequente.
Os termos ‘iluminação' e ‘solavanco mental’ exercem a mesma função sintática.