Texto 1
Nas ruas onde hoje à noite homens brigarão rixas simples de porta de bar, nestas mesmas ruas, escondidos nos desvãos das pedras, ainda persistem dessa forma sons antigos. Mas para ouvi-los há que se ignorar os primeiros deles, os evidentes: ignorar os sons mais jovens, recém-nascidos, de superfície e relevo espessos – gritos e copos que se enchem; pois numa camada logo abaixo destes e quase inaudível ainda existe o som remoto em sua origem – o dos tiros sobre um soldado debaixo de fogo nas trincheiras; o das mãos do centurião de Roma escavando o solo, estourando torrões de terra, forma única de se esquecer a dor dos ferimentos. Aquele capaz de captar em sua plenitude os sons veria assim se dissolver o tempo. É como se os passos que durante anos contribuíram para desgastar degraus de mármore ressoassem no mesmo instante aqui agora. Curioso, porém, que todos estes sons carreguem um mesmo signo: o da lembrança que lateja e dói, propagando- se pelo ar como herança de anéis concêntricos. Os sons têm vida própria.
MONTEIRO, Krishna. O mal de Lázaro. São Paulo: Tordesilhas, 2018. p. 68.
Da relação estabelecida no texto, pressupõe-se que os sons