Estou tão perdida. Mas é assim mesmo que se vive: perdida no tempo e no espaço.
Morro de medo de comparecer diante de um Juiz. Emeretíssimo, dá licença de eu fumar? Dou, sim senhora, eu mesmo fumo cachimbo. Obrigada, Vossa Eminência. Trato bem o Juiz, Juiz é Brasília. Mas não vou abrir processo contra Brasília. Ela não me ofendeu. (...)
Eu sei morrer. Morri desde pequena. E dói, mas a gente finge que não dói. Estou com tanta saudade de Deus.
E agora vou morrer um pouquinho. Estou tão precisada.
Sim. Aceito, my Lord. Sob protesto.
Mas Brasília é esplendor.
Estou assustadíssima.
Clarice Lispector. Para não esquecer. São Paulo: Círculo do Livro, 1981, p. 106-7.
No que concerne a aspectos gramaticais do texto acima, julgue (C ou E) o item a seguir.
Na frase “Dou, sim senhora, eu mesmo fumo cachimbo.” (linha 2), a escolha vocabular e o emprego do advérbio de afirmação seguido, sem pausa, do vocativo “senhora” caracterizam a fala formal de um juiz, a qual contrasta com o conteúdo intimista e o coloquialismo, predominantes no texto.