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2549727 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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Texto

Escrita em prosa e verso, a Carta Marítima é formalmente um poema sui generis, que supera as divisões convencionais do discurso. Quanto à mensagem, tem elementos de uma alegre sátira ideologicamente avançada para o acanhado meio português do tempo, na qual Sousa Caldas censura os privilégios e a vida materializada, presa a uma educação artificial e obsoleta, sugerindo a regeneração da sociedade por meio de uma transformação como a que lhe parecia estar em curso na França revolucionária. No plano cultural, satiriza a tirania da herança greco-latina e aspira a algo diferente, que não formula, sendo porém significativo que enquanto menciona Homero como exemplo de poeta desligado do real, fechado num mundo factício, louve um moderno, Cervantes, que assim privilegia como autor de obra-prima mais adequada ao tempo, e que de mais a mais reforça o seu propósito na Carta, por ser ela própria uma sátira contra costumes e convenções cediças. Portanto, já em 1790 Caldas insinuava a necessidade de mudar os padrões, e o fazia com mais força e originalidade do que faria seis anos depois o francês Joseph Berchoux, na citadíssima e medíocre Elegia sobre os Gregos e os Romanos, onde os acusa de lhe infelicitarem a vida. (...)

A mudança sugerida na Carta levaria o tempo de uma geração para acontecer. Mas mesmo sem propor novos rumos Sousa Caldas contribuiria a seu modo, ao descartar no resto da obra a imitação da Antiguidade e voltar-se para os temas religiosos, que o Romantismo consideraria mais tarde como um dos seus timbres diferenciadores. Pelo fato de ter remontado na tradução dos Salmos à poesia bíblica, embora nada tenha de pré-romântico ele foi considerado mais ou menos precursor a partir do decênio de 1830; mas é inexplicável que os românticos nunca tenham mencionado a Carta, que poderia, na perspectiva deles, ser lida como verdadeiro manifesto modernizador.

Curioso a este respeito é o caso de Gonçalves de Magalhães, que publicou em 1832 o pífio volume Poesias, encharcado da rotina mais banal daquele momento de exaustão literária, inclusive com recurso constante à mitologia clássica. Mas no ano seguinte escreveu que não queria mais saber dela, por clara influência da Carta Marítima, imitada quase ritualmente numa Carta ao Meu Amigo Dr. Cândido Borges Monteiro (datada do Havre, 1833), onde narra a sua própria viagem à França. Vistas as coisas de hoje, isto parece uma inflexão por influência de Sousa Caldas, antes da conversão estética ocorrida em Paris e manifestada na revista Niterói. Por que então nos escritos renovadores Magalhães não mencionou esta sua precoce mudança de rota, nem mesmo quando se referia a Sousa Caldas? Difícil imaginar os motivos, sobretudo quando pensamos que os primeiros românticos queriam a todo custo encontrar precursores, evocando Durão, Basílio, São Carlos e Sousa Caldas entre os principais. Talvez porque para quem tinha andado de braço com as musas clássicas, como o Magalhães de Poesias, a carga mitológica da Carta Marítima parecesse, na hora de renovar, incompatível com a nova moda. Por isso, não apenas deixou a sua própria Carta fora dos Suspiros Poéticos, mas só se animou a publicá-la em 1864, no volume Poesias Avulsas das suas obras completas, onde recolheu pecados da mocidade. No entanto, se a tivesse divulgado na altura da sua pregação renovadora ela teria sido (apesar da péssima qualidade ) um argumento de certo peso no rastreamento de sinais precursores e da sua própria antecipação. (...)

No rasto de Magalhães, os primeiros românticos também puseram de lado a Carta de Sousa Caldas, que talvez tenham mesmo treslido, sem perceberem a força renovadora que está implícita na sua brincadeira profilática e faz dela indício precursor de certos aspectos que o nosso Romantismo assumiria, sem deixar com isso de ser um documento, plantado no solo setecentista da Ilustração.

Antonio Candido. Carta Marítima. In: O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1998, p. 220-2 (com adaptações).

Com relação a aspectos linguísticos e textuais do texto, julgue o seguinte item.

Sem prejuízo das informações originais do texto e de sua correção gramatical, o trecho “No rasto de Magalhães, (...) sua brincadeira profilática” poderia ser reescrito da seguinte forma: Os primeiros românticos também ignoraram a Carta de Sousa Caldas; assim como Magalhães, não perceberam a força subjacente em sua brincadeira preventiva, e talvez eles mesmos a tenham lido às avessas.

 

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