TEXTO
O que desolava Vicente, o que enchia seu coração enérgico de um infinito desânimo, era a triste certeza da inutilidade do seu esforço.
Em vão, mal amanhecia, iniciava a labuta sem descanso, e atravessava o dia todo no duro vaivém do serviço sem tréguas, cavando aqui uma cacimba, consumindo partidas de caroço de algodão, levantando, com suas próprias mãos, que o labor corajoso endurecia, as reses caídas de fraqueza e de sede.
Parecia, entretanto, que o sol trazia dissolvido na sua luz algum veneno misterioso que vencia os cuidados mais pacientes, ressequia a frescura das irrigações, esterilizava o poder nutritivo do caroço, com tanto custo obtido.
As reses secavam como se um parasita interior lhes absorvesse o sangue e lhes devorasse os músculos, deixando apenas a dura armação dos ossos sob o disfarce miserável do couro puído e sujo.
Apenas um desejo as animava: beber sem interrupção a água salobra das cacimbas, como se aqueles goles salgados, mornos, densos, lhes restituíssem saúde e vida.
As ovelhas se reduziam agora a dez cabeças lamentáveis que marravam e gemiam, sacudindo a lã imunda pela aspereza dos caminhos, roendo famintamente alguma dura casca de marmeleiro que as cabras desprezavam.
Morria tudo.
Em vão se desdobrava o moço em cuidados, em trabalhos que só ele, na sua tenacidade de maníaco, empreendia e suportava...
Já o couro da Fidalga, seco e dobrado, estava a um canto do armazém; e junto dele o da Mimosa, o da Asa Branca, o da Andorinha, quantos mais, quantos mais!
Agora mesmo, já outra vez caíra a novilha raceada que fora de Chico Bento.
Lembrando-se dela, de um pulo, Vicente levantou-se da rede do alpendre, onde se deitara, fumando um cigarro pensativo.
João Marreca, sentado no seu eterno banco, o cachimbo no queixo, um dos pés na borda do assento, voltou-se admirado, com o brusco movimento do moço.
– Compadre João, já tornaram a levantar a novilha?
– Já, inhor sim. Indagorinha. Quando o compadre estava jantando.
– Foi? Admira, eu não vi. Botaram uma raminha verde pra ela?
– Rama verde de onde?
– Pois é possível que na vazante não tenha mais um galho de rama?
– Tem o quê, compadre!
E o João Marreca abanava o pescoço esguio – onde o pomo-de-adão escorregava e subia – a sua grande cabeça de pele amarela, de olhos agudos, de cabelinhos ásperos semeados ao acaso na face e no queixo:
– Tem o quê! Vazante, só pra verão curto... Aquilo carece do salzinho da chuva mode dar alguma coisa... Nem que agoe como aguar...
Vicente passeava, assobiando, desesperado e furioso:
– E o que é que se faz?
– É esperar... Ter fé nos poderes de Deus e esperar. Pode ser que Nossa Senhora ajude...
[Extraído de “O Quinze”, de Rachel de Queiroz – Obra Reunida – José Olympio Editora, Rio de Janeiro / 1989]
Aponte a alternativa na qual o acento indicativo da crase deverá ser empregado: