Magna Concursos
2379203 Ano: 2008
Disciplina: Português
Banca: IF-ES
Orgão: IF-ES

GENTE DEMAIS, CIVILIDADE DE MENOS!

A palavra civilidade deriva da palavra civil, atribuída às relações de direitos e obrigações dos cidadãos entre si, reguladas por normas do Direito Civil.

Pensando em cortesia, delicadeza, respeito mútuo e consideração, é possível concluir que a humanidade está carente destas virtudes sociais. A busca desenfreada pelo progresso e a necessidade de garantir sua alimentação e, logicamente, sua riqueza transformam as pessoas em bombas prontas para explodirem em qualquer esquina. Nesta explosão, todos os alvos são destruídos: desde as relações sociais até o patrimônio público. E aí surge a sensação de que esta terra que alimenta o orgulho brasileiro não é capaz de fazer a civilidade vingar.

O “bom-dia!” alegre, anunciado dentro de um elevador lotado, geralmente é ignorado, massacrado pelas caras feias e isso destrói o broto das relações sociais. O “obrigado” do pedestre surpreso com a gentileza do motorista – que se permite deixá-lo atravessar a rua – é sufocado pelas buzinas daqueles incapazes de ver naquela atitude algo mais do que uma perda de tempo. Até a beleza do verde sucumbe às toneladas de lixo atiradas pela população não adepta da onda ecológica. Como se existisse uma receita de bolo para este caos, acrescenta-se ainda a tal massa a irreverência dos adolescentes que consideram “in” o descaso pelos demais. No final, a vida em sociedade vira sacrifício. Um sacrifício, segundo os especialistas em comportamento urbano, tolerado por todos.

Resignados, 78% dos moradores das grandes metrópoles julgam ser impossível levar uma vida civilizada. Acomodados, esperam algum incentivo para mudarem suas atitudes: a aplicação de multas ou o medo de não conseguirem prever a reação de outro neurótico urbano.

Estacionar em fila dupla, xingar alguém no trânsito, jogar lixo pela janela do carro, arrebentar telefones públicos, furar fila, levar o cachorro para fazer suas necessidades nas calçadas, ignorar seu vizinho ou simplesmente negar-lhe uma ajuda, não ceder lugar a pessoas mais velhas em transportes coletivos, agredir colegas de escola ou profissão são práticas comuns hoje em dia.

A cada instante, nas ruas, é possível ver cenas de desrespeito. Ninguém se conhece, mas a antipatia é mútua a partir do primeiro olhar. A rua é o campo a ser conquistado e quem chegar primeiro ganha. Não se sabe o quê. Cada um se dá um prêmio diferente. Para isso vale tudo. Assim como ocorre entre vizinhos, cuja identificação é feita pele número da porta, todos os motoristas têm a identidade resumida à marca do carro e aos dígitos da placa do veículo. Precisar de um auxílio neste século XX é preparar-se para procurar uma agulha num palheiro.

Palavras rudes e egoístas misturam-se ao som das buzinas e brecadas. Jogar pedras e rotular o próximo ganham, a cada dia, mais ibope social. Liberdade e respeito se misturam e perdem seu valor.

As pessoas, nessa busca desenfreada pelo progresso, se esquecem do mais essencial para a sua sobrevivência: o respeito, a solidariedade, a consideração pelo próximo. Nenhum dinheiro, nenhuma tecnologia devolverá ao homem a sua essência humana. E talvez ele descubra isso tarde demais.

(Adaptado de: O Estado de S. Paulo, 26/06/95, por: BOURGOGNE, Cleuza Vilas Boas; SILVA, Lilian Santos. Interação & transformação. São Paulo: Editora do Brasil, 1996, p. 96-97)

Assinale a opção que NÃO está em conformidade com as relações estabelecidas entre as idéias do texto.

 

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