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660291 Ano: 2019
Disciplina: Português
Banca: UFF
Orgão: UFF

TEXTO 1

Outra pessoa em casa


Volta e meia deparo com estatísticas de

pessoas que moram sozinhas. Não lembro os

números exatos, mas sei que são elevados. Jovens

que deixaram suas cidades para estudar, idosos

5 que não moram com os filhos, homens e mulheres

que se divorciaram, que enviuvaram ou que nunca

se casaram, enfim, gente que, por escolha ou

contingência, hoje habita só. Talvez um cão ou gato

atenue a ausência de companhia, mas o fato é que

10 não há outra pessoa na casa.

O rádio acaba virando a outra pessoa na

casa.

Pincei essa frase do livro da radialista

gaúcha Kátia Suman, que acaba de lançar as

15 memórias da Ipanema FM, de Porto Alegre,

revelando os bastidores do estúdio em que

trabalhou por tantos anos e nos ajudando a

entender como uma rádio, com equipamento

precário, poucos funcionários e muito improviso

20 conseguiu, de 1984 a 1997, conquistar ouvintes

fiéis que interagiam diretamente com os locutores e

se sentiam representados por aquela bagunça

pulsante, criativa, descolada. Uma turma

independente que colocava no ar a nova cena

25 musical e cultural do extremo sul do país. Fez

história, logo merece ser contada.

O rádio, como meio de comunicação já teve

sua extinção prevista “n” vezes, mas seu obituário

continua adiado. Vieram a tevê, o computador, os

30 home theatres, os celulares inteligentes, e que fim

levou o rádio? Segue firme e forte no meio rural e

urbano, no interior e na capital, tocando música,

dando as horas, noticiando, informando,

transmitindo futebol, debates, fazendo humor,

35 promovendo encontros – sendo a outra pessoa

dentro da casa enquanto lavamos a louça ou

tomamos banho.

Sem imagem, o rádio se torna “alguém” por

meio de vozes que a gente reconhece pelo timbre.

40 É presença suficiente. Na cozinha, no pátio, na

garagem, no banheiro, no quarto e na sala, um

homem ou uma mulher invisível nos faz rir, nos faz

refletir e nos tira para dançar. É diferente da

televisão, que entretém com figurino, maquiagem e

45 texto ensaiado, entregando uma fantasia. Rádio é

emoção genuína, espontânea, de verdade. O

exemplo mais célebre é o de Orson Welles com seu

programa “A guerra dos mundos”, que 80 anos a

trás, na véspera do Halloween de 1938, fez mais

50 de um milhão de pessoas acreditar que os Estados

Unidos estavam realmente sendo invadidos por

marcianos, instaurando pânico. Por terem

sintonizado a transmissão no meio, muitos ouvintes

não escutaram a abertura avisando que se tratava

55 de radioteatro – e surtaram. Dê um Google para

recordar. O episódio sedimentou para sempre a

potência do veículo.

Como diz a Katia em seu livro, “por mais

que se avance a tecnologia, humanos continuarão

60 falando e escutando”. É o que basta. Enquanto

existir rádio, a solidão terá um adversário à altura.


(Martha Medeiros, Revista Ela, O GLOBO, 2 de dezembro de 2018, página 36

“Rádio é emoção genuína, espontânea, de verdade.” (linhas 45-46)

As formas sublinhadas no fragmento acima, são classificadas, respectivamente, em termos gramaticais, como:

 

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