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O velho espelho do meu banheiro
Ao longo dos anos nos ensinaram que o tempo é o soberano dos remédios e o melhor lenitivo para todas as dores. Ele sempre seria um bom amigo e um ótimo conselheiro. Com ele jamais nos preocupamos, mesmo porque o tínhamos como poderoso aliado, e assim caminhamos tranquilamente para a nossa juventude, nos fizemos homem e cidadão do mundo.
Os dias, contudo, foram se escoando rapidamente, mas de forma imperceptível. De repente, em uma cinzenta manhã de inverno, um atordoante despertar: o velho espelho de nosso banheiro nos deu o primeiro alerta: fios prateados invadiam sem cerimônia nosso decantado bigode negro e nossos cabelos se apresentavam rarefeitos.
É claro que nos recusamos a acreditar nas imagens refletidas. O problema certamente se devia ao nosso já velho espelho. Era preciso substituí-lo com urgência. Saímos de casa rapidamente e nos dirigimos à vidraçaria mais próxima e, sem questionar valores, compramos um novo espelho do mais puro cristal importado.
Voltamos sem demora e fomos ao banheiro para instalá- lo. Retiramos a embalagem protetora e, esperançosos, nos preparamos para nele nos mirar. Que amarga decepção! Nosso novo espelho, do mais puro cristal, simplesmente insistia em repetir a mesma imagem já mostrada pelo velho espelho, e nem o velho nem o novo estavam mentindo – ambos refletiam aquele nosso momento, sem retoques.
O tempo, não nos avisaram, era também terrível vilão, extremamente agressivo na sua permanente ação deletéria. O homem sempre tentou enfrentá-lo buscando nas panaceias farmacêuticas um medicamento seguro para derrotá-lo, mas tem fracassado. É que nossa vida é finita, e o tempo, infinito.
Assim, só venceremos o tempo, só poderemos subjugar sua voracidade quando abandonarmos a luta pela nossa própria sobrevivência, pois a morte é o único passaporte de que dispomos para chegar à eternidade. E lá, o tempo não poderá mais nos atingir, nem derrotar.
(Adail Vetorazzo, Revista Be Bem-estar, 03.03.2024. Adaptado)
O narrador da crônica conta uma experiência com o espelho como forma de