Na idade da pedra lascada
Outro dia um leitor me dizia que me considerava muito moderna. Escrever em jornal tem dessas coisas, acabamos passando uma imagem que nem sempre corresponde ao que a gente é de fato.
Naturalmente que não sou uma cabeça dura, fechada. E me considero até bem aberta para as novidades e as possibilidades que a vida coloca em nosso caminho. Mas para merecer o título de moderna, pra valer, eu já deveria ao menos ter-me rendido à tecnologia.
E, neste quesito, eu sigo na idade da pedra lascada.
Por exemplo, tenho a maior dificuldade em mandar mensagem pelo celular. (...) Outro dia recebi uma mensagem de uma amiga, fui tentar responder e perdi meu sábado inteiro.
Computador? Estou em frente a um no momento.
Além de escrever, sei abrir e-mails e responder a eles.
Arquivos eu só abro de quem conheço e mesmo assim torcendo para que não seja algum famigerado power point.
Entro no Google para algumas pesquisas. Confiro a previsão do tempo. Orkut? MSN? Passo ao largo. Não tenho tempo, nem vontade, nem curiosidade. Ainda sinto saudades das cartas enviadas pelo correio normal, escritas à mão. Tá bom, podiam ser datilografadas. Não sou tãããão antiga.
Hoje, toda mulher descolada leva na bolsa um iPod.
Acho chique à beça. Um dia vou descobrir o que é isto e ter um. Mas a prova irrefutável do meu atraso mental são as máquinas fotográficas digitais. Comprei uma bem bacana e nunca usei, está mofando numa gaveta. Fotografar é um ritual, exige dedicação, sensibilidade, afeto e ajuste de foco. Assim era, ao menos. Agora todo mundo sai clicando histericamente, em qualquer lugar, sem a menor reverência ao ato. Se a foto ficou ruim, apaga-se; se ficou boa, arquiva-se no micro. Brrrrrr. Gélido.
Ah, temos em casa uma filmadora também. Dei de Natal, anos atrás, para o meu marido. Assim que ele a retirou da caixa, foi para a sacada testá-la. A primeira coisa que ele viu foi uma briga em frente ao nosso prédio.
Foi sua primeira e última experiência como cinegrafista amador: acabou filmando um garoto recebendo uma garrafada na cabeça, o sangue jorrando, a polícia chegando, tudo num perfeito espírito natalino. No dia seguinte as crianças ainda brincaram um pouco com a câmera e depois, adeus! Foi pra gaveta dos objetos inúteis. Ela e a máquina fotográfica digital dividem a mesma cela.
CD eu gosto. DVD também. Já existe algo mais revolucionário que isso? Não me informe, não me informe.
Que decepção devo estar causando àquele leitor que me julgava uma mulher à frente do meu tempo. Logo eu que acho microondas uma invenção desprezível. Que só entro num helicóptero em caso de resgate. Que desconfio de carro hidramático. Que prefiro relógio com ponteiros. Não sinto orgulho algum por esta minha falta de encanto pelo high tech, mas culpa, tampouco. Sentir culpa é coisa de mulher careta – e em alguma coisa tinha que ser moderna.
MEDEIROS, Martha. Revista O Globo. 30 out. 2005 (com adaptações)
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