É provável que a Medicina tenha surgido com a humanidade. Vítima e testemunha do sofrimento, o ser humano
deve, desde logo, ter‑se debruçado sobre os doentes, com o desejo de curá‑los. É possível que encarasse a doença como
ocorrência sobrenatural, tal como os ventos, as tempestades ou as manifestações de deuses malévolos. A doença, com suas
dolorosas consequências, seria obra de algum espírito, cuja ira importaria aplacar com os sacrifícios, ou seria obra de algum
inimigo, dotado de poderes especiais, cuja animosidade haveria de ser combatida por meio de sortilégios.
Nesse quadro geral, a doença foi diversamente contemplada, ora como fruto de invasão do organismo por matéria
estranha, ora como “perda da alma”, ora em termos de corpo possuído por fantasmas, ora como decorrência do rompimento
de tabus, entre outras formas.
Povos primitivos entendiam a doença como algo que se devia à ação de projéteis: lanças, flechas, pedras atiradas
por inimigos ou, talvez, ossos e espinhos que alguém engolia sem querer, em virtude da ação de forças adversas, humanas ou
sobre‑humanas. Em alguns casos, o projétil é um organismo (um verme, por exemplo), cujos movimentos, na pessoa afetada,
explicariam dores agudas ou o mal‑estar súbito. A terapia, nessas várias situações, resumir‑se‑ia à localização e à remoção do
invasor, sem excluir, muitas vezes, a possibilidade de devolvê‑lo ao remetente.
A alma, para povos primitivos, não seria entendida em fundamentos teológicos ou metafísicos, mas como sombra
ou duplo da pessoa. Esse duplo teria condições, às vezes, de separar‑se do corpo, graças à ação mágica dos deuses ou de
eventuais inimigos humanos. A terapia aconselhável consistia em reencontrar a alma para devolvê‑la ao proprietário. No
caso de invasão por demônio, a pessoa adoecia porque era possuída por espíritos ou almas estranhas, cuja terapia consistia
em tratamentos psicológicos (exorcismo), em extrações mecânicas (alcançada por ingestão de substâncias ou por aspiração
de vapores presumivelmente não apreciados pelo invasor) ou em transferências (procurando‑se enviar a alma estranha para
outro corpo – animal ou objeto capaz de retê‑la).
Quando se alude à quebra de tabus, entendia‑se a doença como punição: o doente era castigado por haver‑se
rebelado contra imperativos religiosos ou sociais. Deuses e almas de antepassados puniam os homens que não se curvavam
diante dos mandamentos vigentes.
Em certas circunstâncias, era preciso distinguir a culpa individual da coletiva: males que afligiam a tribo eram
associados a uma culpa coletiva, um erro ou uma desobediência generalizada, que dava origem aos males e às epidemias. Em
qualquer caso, a terapia envolvia interrogatório e confissão de culpa. Confessada a culpa, as pessoas castigadas, prometendo
fidelidade aos mandamentos em vigor, adquiriam condições de curar‑se.
HEGENBERG, Leonidas. Evolução histórica do conceito de doença.
In: L. Hegenberg (org.). Doença: um estudo filosófico.
Rio de Janeiro: Fiocruz, 1998 (com adaptações).
No que se refere às ideias do texto, julgue o item a seguir.
Segundo o texto, a medicina teria surgido da necessidade humana de se afastar e curar, a partir de rituais e crenças mágicas, o sofrimento causado por enfermidades e por ferimentos.