TEORIA GERAL DO XINGAMENTO
Marcia Tiburi 17 de maio de 2018
Talvez seja necessário fundar uma nova ciência para dar conta de um fenômeno que tem se tornado crucial em nossa cultura comunicacional na era das tecnologias digitais e das redes sociais. O objeto dessa ciência seria o fenômeno do xingamento: a conspurcação do outro em forma verbal, que surge em profusão nas redes, por meio de palavras, emoticons e outros sinais gráficos.
Nossa nova ciência, na base de uma antropologia e uma sociologia, deve habitar o intervalo entre o mundo da pesquisa e o mundo da vida simples. Geografia e estatística nos revelariam o estado da linguagem de ódio que sustenta o ato generalizado de xingar. A antropologia digital e a psicanálise poderiam auxiliar com a análise da cultura atual que surge na internet, mas também com a compreensão do tipo subjetivo do xingador.
O xingamento generalizado merecia uma historiografia e uma semiologia. E até uma teoria estética. E, se o ataque verbal a alguém – esse ato que sempre teve todo tipo de função, da catarse ao escracho, do vilipêndio à humilhação, da vontade de destruir ao ato de dominar – é um fenômeno do poder, seria necessária também uma teoria política. O ato de xingar até hoje é um ato político, por trás do qual se esconde todo tipo de moralismo. Então, precisaríamos de uma ética.
Toda ciência tem um drama humano em seu fundo. Mais do que uma curiosidade, a ciência visa resolver algum problema. Estudam-se astronomia e cosmologia para entender os fenômenos cósmicos, a geologia visa entender os fenômenos físicos e químicos do planeta, a sociologia quer tornar compreensível o modo de ser das sociedades, enquanto a história é a ciência que estuda o que já passou. A questão antropológica fundamental diz respeito ao “ser humano”. Como vive, como age, como habita, como sente, como trabalha, como produz, como se organiza e se movimenta, como cria arte, religião ou qualquer forma de linguagem, como se expressa e se comunica.
Por mais que as questões tratadas pelas ciências humanas sejam de altíssimo nível de complexidade, há nas mais variadas investigações científicas um problema comum que pode se apresentar como uma questão popular. Podemos, por isso, tentar responder de modo direto à interpelação: “diz-me como xingas e dir-te-ei quem és”.
Fato é que o xingamento fala mais de quem xinga do que de quem é xingado. Por mais violento que seja, todo xingamento esconde um desejo. Por trás da violência está uma impotência específica que visa ser sanada na ação. Quem não consegue falar, pode sempre começar a xingar. No gesto violento surge uma palavra mágica que concentra e resume o ódio. Ela dá um poder ao xingador. Ele se sente superior por um instante fugaz.
Mas há algo ainda mais profundo. Todo ato de fala visa tocar ou atingir o outro. Seja por que caminho for, aquele que fala deseja estar perto, deseja tocar. Por meio do xingamento o agente visa machucar. Mas por outro lado, deseja também ser reconhecido pelo objeto do xingamento. Só xingamos aqueles por quem nos sentimos de algum modo atraídos. Nesse sentido, o xingamento é bem diferente da crítica. Enquanto a crítica visa desconstruir ou desmontar seu objeto para mostrar sua verdade, por meio do xingamento se visa alcançá-lo.
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A cultura do xingamento é herdeira dos piores hábitos culturais que podemos imaginar. Em sua base a impotência para o reconhecimento dos outros e uma vontade de fazer justiça com as palavras reduzidas à matéria não reciclável.
Adaptado de: https://revistacult.uol.com.br/home/teoria-geral-do-xingamento/. Acesso em: 16 nov. 2020.
Sobre a pontuação empregada no texto, assinale a alternativa correta.