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3424546 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: ETHOS
Orgão: Pref. Ouro Branco-MG
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Capítulo LXVIII

O vergalho

Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo* fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: -- «Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão! » Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.

-- Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!

-- Meu senhor! gemia o outro.

-- Cala a boca, besta! replicava o vergalho.

Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, -- o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediume a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.

-- É, sim, nhonhô.

-- Fez-te alguma cousa?

-- É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, em quanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber

-- Está bom, perdoa-lhe, disse eu.

-- Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!

Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjecturas. Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, -- transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!

(MACHADO DE ASSIS. Capítulo LXVIII. O vergalho. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. p. 78. Disponível em: http://www.ibiblio.org/ml/libri/a/AssisJMM_MemoriasPostumas/node 71.html. Acesso: 28/08/2021)

*Valongo - no Brasil escravagista, local utilizado para venda de escravos.

No trecho “Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo.”, ocorre uma figura de linguagem conhecida como

 

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