Ter uma família não é nada ruim para quem tem espírito de aventura.
Mas, para quem não lida bem com o imponderável, o melhor é deixar pra lá. Você está na dúvida se quer ter filhos, então resolve visitar um casal de amigos que tem duas crianças. É a oportunidade de observar a rotina de uma família bem constituída e descobrir se é um modelo de vida que você e seu marido gostariam de O reproduzir. A grande noite chega. O menino tem 6 anos, e a menina, 3. A casa está um circo há um pano amarelado aparecendo por baixo do sofá e na televisão está passando o DVD do Shrek. "Ninguém mais ouve música aqui em casa, só trilha sonora infantil", comenta sua amiga com um sorriso perturbado. Aliás, sua amiga não senta, está sempre em pé, de um lado para o outro. A menina não quer comer nada. O menino diz que está sem sono, apesar de tropeçar nas próprias pernas. A menina abre sua bolsa (não a dela: a sua!), tira de dentro o celular e aperta em todas as teclas. O menino chora porque não quer ir pra cama: não quer, não quer, não quer. A menina lança no meio da sala e não deixa ninguém conversar, exige a atenção todinha pra ela. O garoto passa voando por um copo e o quebra. A menina pede para você emprestar a pulseira que você está usando, aquela feita de delicadíssimos cristais que podem arrebentar por qualquer coisinha Ao sair do Jantar. você e seu marido olham um para o outro, se beijam no elevador e, sorrindo, decidem: claro que vamos ter os nossos! Vai ser totalmente diferente.
(Zero Hora, 30 de março de 2008. r·4º 155õ6)
A palavra mas, que inicia o segundo parágrafo do texto