Leia o TEXTO III e resolva as questões 9 a 11.
TEXTO III
NOTÍCIA DE JORNAL

1 Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca,
trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da
cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de
fome.
5 Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos de comerciantes, uma ambulância do Pronto
Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que
acabou morrendo de fome.
Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso
(morrer de fome) era alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem
10 de fome. E o homem morreu de fome.
O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser
identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena
rua, entre centenas de passantes.
Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, [...] um
15 pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa — não é homem. E os outros homens
cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas, todos passam
ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo
piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido
entre os homens, sem socorro e sem perdão.
20 Não é da alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de
ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.
E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de
fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome,
pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o
25 corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada
mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.
E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição em plena rua, no centro mais
movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome.
Morreu de fome.
SABINO, Fernando. A mulher do vizinho. 17 ed, Rio de Janeiro: Record, 1997. (Adaptado para fins didáticos)
No trecho "Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade [...]" (linhas I a 3), a palavra sublinhada poderia ser substituída sem prejuízo de sentido pelo termo: