Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo do seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo o meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu queria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Fernando Sabino. In: Antonio Candido. Recortes.
Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004, p. 31.
Com relação ao fragmento de texto de Fernando Sabino, apresentado acima, julgue o item seguinte.
É possível inferir do fragmento de texto que, para o autor, uma das diferenças entre o poeta e o cronista está no fato de os assuntos da poesia frequentemente surgirem do mundo interno do poeta, ao passo que os da crônica exigem que o escritor olhe para o mundo fora dele.