Os atropelos da pressa
Há um frenesi de velocidade no ar e muita gente já está ficando sufocada com esse novo tipo de poluição. Ser cada vez mais rápido se tornou uma obsessão quase que neurótica na sociedade consumista atual. É o nosso computador que tem de ser mais veloz e, portanto, mais potente. É o celular que tem de ser trocado por ofertas mais tentadoras. Plantas que começam a produzir frutos em questão de semanas. Milhares de hectares de florestas são desmatados em apenas alguns dias pelos correntões dos tratores de esteira. Eficiência hoje é mais produção no menor tempo possível, para mais consumo e mais lucro. Até o nosso presidente, diante dessa crise financeira atual, está-nos aconselhando a consumir mais, já que isso significa mais emprego.
Sabemos que os sentimentos não podem conviver com o efêmero, nem com o fugidio. As nossas amizades, valores, crenças e os prazeres da alma são construídos de modo necessariamente lento. Por outro lado é sabido que todos nós gostamos de consumir, mas esse consumismo desbragado liberou, de modo tão exagerado, as amarras do desejo, esse sujeito ansioso, eternamente insatisfeito, que só se fala em busca, desapego e troca-troca interminável. Essas coisas passam longe do amor que é encontro, cuidado e merecimento. É certo que desejo e amor são partes constitutivas do humano, mas só o equilíbrio, que é a sábia opção do meio termo, poderia tornar a vida mais dignificante.
O mundo da pressa desgasta nossos valores maiores e dilacera o paciente e delicado tecido amoroso, que é feito com muita persistência, alegria, renúncia e doações. O mundo dos afetos não passa pela regulagem dos megabits, nem pelas trocas periódicas, ele é sabiamente vagaroso no seu desenvolver. Ele se sustenta nos pilares das coisas que não mudam assim tão facilmente. Estas coisas são os valores que nós perenizamos através das memórias e que comemoramos com o prazer da alma. É em homenagem a eles que fazemos as festas e algumas são muito especiais. A festa natalina, por exemplo, significa o nascimento da esperança em Jesus e o Ano Novo exprime a morte do velho e o nascimento de um novo tempo. Um tempo que se perpetua, porque não destrói, não muda e nem mata.
Portanto, fujamos dessa pressa incentivadora maior da ansiedade que penaliza a nossa capacidade de contemplar, de observar e de degustar com prazer o sabor do instante. Não podemos esquecer que um pouco de vagareza em nossas atitudes é um sinal positivo de que estamos tendo mais sabedoria, paz e serenidade em nosso bem viver. E assim, pronunciaremos mais raramente essa neurótica sentença: não tenho tempo!
TRANCOSO, Alfeu, JB Ecológico, dez. 2008. (Adaptado)
O autor se expressa através de uma linguagem figurada na seguinte passagem: