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2399515 Ano: 2010
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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Textos V

As turmas povoadoras que para lá [Acre] seguiam deparavam com um estado social que ainda mais lhes engravecia a instabilidade e a fraqueza. Aguardava-as, e ainda as aguarda, a mais imperfeita organização do trabalho que ainda engenhou o egoísmo humano.

Repitamos: o sertanejo emigrante realiza, ali, uma anomalia sobre a qual nunca é demasiado insistir: é o homem que trabalha para escravizar-se. Ele efetua, à sua custa e de todo em todo desamparado, uma viagem difícil, em que os adiantamentos feitos pelos contratadores insaciáveis, inçados de parcelas fantásticas e de preços inauditos, o transformam as mais das vezes em devedor para sempre insolvente.

A sua atividade, desde o primeiro golpe de machadinha, constringe-se para logo num círculo vicioso inaturável: o debater-se exaustivo para saldar uma dívida que se avoluma, ameaçadoramente, acompanhando-lhe os esforços e as fadigas para saldá-la.

E vê-se completamente só na faina dolorosa. A exploração da seringa, neste ponto pior que a do caucho, impõe o isolamento. Há um laivo siberiano naquele trabalho. Dostoiévski sombrearia as suas páginas mais lúgubres com esta tortura: a do homem constrangido a calcar durante a vida inteira a mesma “estrada”, de que ele é o único transeunte, trilha obscurecida, estreitíssima e circulante, ao mesmo ponto de partida. Nesta empresa de Sísifo a rolar em vez de um bloco o seu próprio corpo — partindo, chegando e partindo — nas voltas constritoras de um círculo demoníaco, no seu eterno giro de encarcerado numa prisão sem muros, agravada por um ofício rudimentar que ele aprende em uma hora para exercê-lo toda a vida, automaticamente, por simples movimentos reflexos — se não o enrija uma sólida estrutura moral, vão-se-lhe, com a inteligência atrofiada, todas as esperanças, e as ilusões ingênuas, e a tonificante alacridade que o arrebataram àquele ance, à ventura, em busca da fortuna.

Euclides da Cunha, 1866-1909. Um clima caluniado (fragmento). In: Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. Seleção e coordenação de Hildon Rocha. Petrópolis: Vozes, Brasília, INL (coleção Dimensões do Brasil, v.1), 1976, p. 131-2 (com adaptações).

Texto VI

Sobretudo naturalista e positivista, Euclides foi rejeitado pelo Modernismo. A retórica do excesso, o registro grandíloquo, o tom altíssono só poderiam ser avessos ao espírito modernista. Acrescente-se a isso sua preocupação com o uso de uma língua portuguesa castiça e até arcaizante, ao tempo em que Mário de Andrade ameaçava todo mundo com seu projeto de escrever uma Gramatiquinha da fala brasileira.

No entanto, mal sabiam os modernistas que, em Euclides, contavam com um abridor de caminhos. As numerosas emendas a que submeteu as sucessivas edições de Os Sertões, enquanto viveu, apontam para um progressivo abrasileiramento do discurso. No longo processo de emendar seu próprio texto, a prosódia ia, aos poucos, sobrepujando a ortoepia, esta, sim, portuguesa, mostrando que o ouvido do autor ia desautorizando sua sintaxe e, principalmente, sua colocação de pronomes anterior.

Ainda mais, o Modernismo daria continuidade a algumas das preocupações de Euclides com os interiores do país e com a repulsa à macaqueação europeia nos focos populacionais litorâneos. Partilharia igualmente com ele a reflexão sobre a especificidade das condições históricas do país, na medida em que, já em Os Sertões, Euclides realizara um mapeamento de temas que se tornariam centrais na produção intelectual e artística do século XX, ao analisar o negro, o índio, os pobres, os sertanejos, a condição colonizada, a religiosidade popular, as insurreições, o subdesenvolvimento e a dependência. Aí fincaram suas raízes não só o Modernismo, mas também o romance regionalista de 1930 e o nascimento das ciências sociais no país na década de 40 do século passado. Muitas dessas preocupações não ram, evidentemente, exclusivas de Euclides, mas comuns às elites ilustradas nas quais ele se integrava e das quais se destacou ao escrever Os Sertões.

Walnice Nogueira Galvão. Polifonia e paixão (fragmento). In: Euclidiana: ensaios sobre Euclides da Cunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 28-9 (com adaptações).

Com relação aos textos V e VI, julgue C ou E.

Por serem trechos de ensaios, os textos V e VI apresentam-se em linguagem desprovida de informalidade, predominando, no texto V, a função poética da linguagem e, no texto VI, a função conativa.

 

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