A maioridade do povo*
Sem mudanças, a voz das ruas voltará a ecoar
Por Mauricio Dias
Não houve na imprensa brasileira foco mais acertado sobre a reação da presidenta em atenção à voz das ruas. Ele se expressou no diário carioca O Dia, na terça-feira 25. No caminho inverso da motivação que levou à formação de passeatas, o jornal, de viés popular, ilustrou sua primeira página com a manchete: ”Dilma vai às ruas”. Os dias seguintes confirmaram esse caminho inicial, mas no meio do caminho havia pedras. Muitas pedras. Assim, a presidenta Dilma Rousseff se movimentou nos limites do cargo e limitada à tese liberal gráfico:Revista Veja de que é preciso haver ruptura para a criação de uma Constituinte. De qualquer forma, essa mudança no comportamento popular criou uma situação inédita no País. O povo não foi mobilizado por líderes ou partidos políticos. Rompeu amarras e decidiu influir. Nesse ponto atingiu a maioridade. Os governantes, de alto a baixo, temeram. A polícia, fiel à origem de surrar o povo inquieto, baixou o pau. Foi forçada, porém, a recuar e aposentar até mesmo as balas de borracha. Oficialmente, no saldo do conflito, foram presas, em todo o País, quase mil pessoas. Seriam todos arruaceiros? No calor dos acontecimentos, Dilma, tocada pelas cenas transmitidas para o Brasil e para o mundo, “juntou-se” ao movimento. Anunciou decisões e propôs a formação de uma Constituinte restrita, no entanto, à tarefa de fazer a reforma política. A presidenta foi freada. Recuou e não avançou. (...) “Sem a plenitude da participação do povo, o governo não será nunca um governo constitucional, mas governo de fato, dissimulado em aparências constitucionais ou sem essas aparências”, diz o jurista e historiador Raymundo Faoro, em Assembleia Constituinte – A legitimidade recuperada. (...) No movimento das ruas não se projeta uma revolução. Há uma aspiração por mudanças profundas descoladas do processo político fraudulento e viciado. Esse sentimento guia o barulho das multidões nas ruas e o silêncio dos que ainda não se manifestam. Por ora, talvez possam sufocar os anseios. Sem mudanças profundas, no entanto, haverá uma próxima vez. Eles voltarão.
Carta Capital, pág.16, ANO XVII Nº 755, 3 de julho de 2013.
*Paragrafação original do texto alterada para esta prova
O discurso de Mauricio Dias apresenta várias marcas de recursos retóricos, do início ao fim do texto em tela. Dada essa informação, analise as afirmações que se seguem:
I. Assim como a entoação no discurso oral é uma marca de eloquência, o discurso do texto escrito, por sua vez, vem assinalado com
outras de igual valor. Considerando o veículo de comunicação em que o texto do articulista foi publicado originalmente, dir-se-ia que a marcação de algumas palavras ora em itálico, ora com tamanhos variados, exemplifica o recurso retórico de diferenciação.
II. A palavra “maioridade”, cuja ocorrência se dá em dois momentos no texto, é usada tanto como um resultado positivo da ação do povo brasileiro de ir às ruas, quanto como um marcador inicial de uma nova idade desse mesmo povo. O emprego daquele vocábulo, portanto, pode ser compreendido no discurso do articulista como um recurso retórico lexical.
III. Em certo momento de seu discurso, o autor se apropria de modo irônico, ainda que modificados, dos versos do poeta Carlos Drummond de Andrade. Esse tipo de relação intertextual, no qual se reproduz um texto ou parte dele explicitamente, com outras palavras, sem prejuízo da ideia original, é o que chamamos de paráfrase ou trocadilho de intenção crítica.
IV. De modo geral, a citação, seja ela direta ou indireta, visa conferir credibilidade ao discurso de quem a emprega e, dessa forma, contribuir com a argumentação. Pode-se dizer que, seguindo esse raciocínio, o uso da citação direta no texto de Mauricio Dias encaixa-se harmonicamente em sua redação e, por isso, tem mais intenção estilística autoral que persuasiva argumentativa.
Assinale a alternativa correta: