A língua não é dos falantes
Três questões devem reger o ensino de gramática. Ao lado delas, outras poderiam ser destacadas, como leitura e escrita. O conjunto formaria a “área” de português, digamos.
a) A variação e a mudança da língua;
b) O desenvolvimento da capacidade de análise;
c) O domínio da norma.
Começo pela última. Não faria sentido tratar de língua portuguesa na escola, em sociedades como a nossa, se um dos objetivos não fosse que os alunos tivessem, ao fim de dez anos de trabalho, razoável domínio da norma culta. Ou seja: que soubessem escrever textos publicáveis, resumos adequados, cartas a autoridades ou a jornais, relatos/relatórios de viagem etc.
Em seguida, a questão da variação e da mudança da língua. Não faz sentido, numa era de domínio das ciências (quando se tenta explicar tudo), que alunos não possam ter ideia razoável de por que as línguas variam conforme a região, a idade, a escolaridade, eventualmente, o sexo etc. dos falantes.
Talvez a única verdade indiscutível em relação às línguas é que não são faladas uniformemente por todos. Seria simplificador supor (e impor) uma única variedade, tratando o restante das formas da língua simplesmente como erros. Mas o resultado mais interessante da consideração da variedade da língua é que ela pode ser tratada juntamente com sua mudança.
Suponha um professor de história que parasse na queda do Muro de Berlim e considerasse que o que veio depois não é história (é erro!). Ou defendesse o correio a cavalo, pois assim D. Pedro I soube das pressões de Lisboa para sua volta a Portugal. Por que a invasão ao Iraque não seria história? E por que excluir o envio de dados pela internet?
A história do português continuou após Machado ou Graciliano. Ou Camões (que, aliás, escreveu “que outro valor mais alto se alevanta”!) e Eça. Se o latim pigritia deu “preguiça”, por *metátese, e isso não é um erro, nem por isso se deve aceitar que “estrupo” é a forma correta, mas por que não se pode aceitar o processo de formação da palavra, em vez de (por falta de saber do que se trata!) rir dela?
Em terceiro lugar, é importante aprender a analisar, a observar dados com alguma sofisticação.
Aceitar sem discutir que “Livro para mim ler” é erro porque “mim” não pode ser sujeito, sem dar-se conta de que nunca se diz “mim vou/vai”, nem “lhe vai/vem” etc., é só engolir ou decorar uma norma.
Aprender a analisar estruturas da língua ajuda a entender por que umas não devem ser usadas em certos tipos de texto: não é porque estão erradas (a história da língua mostra qual é seu lugar); é que não são bem avaliadas.
(Sírio Possenti. Revista Língua. Editora Segmento. Adaptado)
* metátese = mudança linguística que consiste na troca de lugares de fonemas ou sílabas dentro de um vocábulo.
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