Magna Concursos
1652669 Ano: 2018
Disciplina: Português
Banca: QUADRIX
Orgão: Hemocentro-SP

Antes do grande salto da medicina e da cirurgia, o

hospital atendia pobres: era uma obra de assistência pública.

Com a crescente sofisticação dos exames e dos tratamentos,

o hospital se tornou o templo da medicina, o único lugar em

que é realmente possível cuidar dos doentes de maneira

científica, pondo a seu serviço todos os recursos terapêuticos

modernos. Assim, os doentes emigram de suas casas para o

hospital: é para lá que a pessoa precisa ir para ser bem

atendida, caso esteja verdadeiramente doente. É para lá

também que ela precisa ir quando não quer correr o risco de

nenhuma complicação, por exemplo, no parto: antes de

1940, a imensa maioria das mulheres fazia o parto em casa;

hoje, quase todos os partos são realizados na maternidade.

Dessa forma, o cuidado com o corpo ameaçado escapa à

esfera privada: instituições públicas se encarregam

literalmente dele, no sentido não só financeiro, mas também

material e afetivo.

Pela primeira vez na história da humanidade, agora as

pessoas nascem e morrem em um hospital. A preocupação

com a eficiência, somada às dificuldades das famílias em se

encarregar desses fatos, faz com que os momentos

fundamentais da existência, os mais profundamente ligados

à vida e à identidade, sejam retirados do âmbito familiar, do

quadro doméstico, embora espaçoso, e transferidos para o

cenário asséptico e funcional, mas anônimo, do hospital.

Subitamente, a enfermaria comum parece cruel e

insuportável; boa para indivíduos recolhidos por caridade,

que nem sempre tinham um teto, ela constitui para nossos

contemporâneos, acostumados a ter seu próprio quarto e

que se sentem angustiados com a doença, uma espécie de

arcaísmo bárbaro e desumano. De uns vinte anos para cá,

vastos canteiros de obras vêm reformando os antigos centros

hospitalares, substituindo as enfermarias coletivas por

quartos individuais ou, pelo menos, por quartos de poucos

leitos.

Assim, a reivindicação do direito individual à própria

vida privada, para além da vida familiar, encontra sua

derradeira consumação nesses hospitais modernos,

compostos de um mosaico de quartos individuais, onde

pessoas solitárias deslizam discretamente para a morte,

fazendo de conta que ignoram o fato para não perturbar seus

parentes...

Antoine Prost. As políticas públicas de Saúde. In: História da Vida Privada, 5: Da Primeira Guerra a nossos dias / organização Antoine Prost, Gérard Vincent; tradução Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2009 (com adaptações)

Considerando os aspectos linguísticos do texto e as ideias nele expressas, julgue os itens de 1 a 10.

No último período do primeiro parágrafo, o emprego de “literalmente” permite entender que as instituições públicas de saúde passaram a cuidar dos doentes de modo completo, não apenas assumindo despesas, mas também determinando o tipo de tratamento a que serão submetidos e a manutenção de seu bem-estar emocional no decorrer das internações.
 

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