Magna Concursos
3430104 Ano: 2023
Disciplina: Português
Banca: Instituto Access
Orgão: SAS Barbacena
Provas:

Leia atentamente o texto a seguir para responder às questões de 1 a 10.

Bacalhau: de comida de pobre ao luxo na Semana Santa

"Para quem é, bacalhau basta." Esse é um ditado que

meu pai aprendeu na infância e gostava de repetir para a família

no afã de causar espanto – como se a mesma piada contada mil

vezes ainda tivesse alguma graça.

5 O provérbio diz respeito a uma pessoa tão reles que,

para ela, qualquer coisa está de bom tamanho. Até mesmo

bacalhau.

Uma completa baboseira quando se sabe que o

bacalhau é um alimento caro, reservado para ocasiões especiais

10 como a Semana Santa. Era essa a dissonância que meu velho

pretendia jogar no ar para os filhos.

Tínhamos uma situação bem diferente quando o pai

crescia, nos anos 1930.

A refrigeração de alimentos ainda era coisa para

15 poucos. A carne que se encontrava no mercado era charque,

porco salgado, linguiça defumada, camarão seco. Não havia

como se entregar peixe oceânico fresco em Lençóis Paulista, a

370 km de Santos (pelas rodovias que só seriam construídas

décadas depois).

20 O drama da conservação da comida se repetia nas

cidades maiores. Gelo era precioso, um luxo. Carne e peixe

frescos, só para quem podia pagar muito. Para os pobres,

bacalhau.

É fácil entender por que bacalhau era comida de gente

25 pobre. Se você o observar com um olhar desapaixonado, verá

um naco de peixe seco e fedorento, nada apetitoso.

Requer muito trabalho e algum talento converter o

bacalhau numa refeição digna. Os portugueses nos

transmitiram esse savoir-faire. Um bacalhau bem-feito é algo

30 absurdamente bom.

Tão bom que a demanda pelo peixe cresceu até

ameaçar a existência do Gadus morhua, nome científico do dito-

cujo. Escasso, tornou-se caro; caro, tornou-se cobiçado: é nesse

ponto que começa a girar o moto-perpétuo da indústria do luxo.

35 Meu pai assistiu ao vivo à ascensão social do bacalhau.

Para ele, não tinha sentido o valor que o peixe seco e fedido

adquiriu ao longo do século 20.

Aos olhos de um ateu (eu), o aburguesamento do

bacalhau expõe uma curiosa incoerência no hábito de comê-lo

40 na Semana Santa.

As restrições alimentares impostas na Quaresma têm

por finalidade a penitência. O ideal seria praticar períodos de

jejum, mas logo o clero percebeu que era baixíssima a adesão a

dieta tão radical.

45 Assim, foram sendo liberadas algumas categorias de

alimentos: pão, vegetais e, por fim, peixe – sempre fortíssimo

na simbologia cristã.

Permaneceu o veto às outras carnes, pois remetem à

abundância e à celebração. O festim do cordeiro e do porco

50 ficava reservado para a Páscoa, quando a vida retomava o

compasso normal.

O bacalhau se encaixou perfeitamente no ritual de

expiação dos tempos passados. Um humilde pedaço de peixe

seco para sustentar o corpo enquanto o espírito sofria.

55 Agora sofre o bolso de quem, para manter uma

tradição desviada do sentido original, faz questão de bacalhau

na Semana Santa. O bacalhau virou a abundância, a ostentação

e a alegria que os padres se esforçaram para proibir enquanto o

Cristo está morto na cruz.

60 Eu, que espio pelo lado de fora, acho até divertido.

(Marcos Nogueira. https://www1.folha.uol.com.br/blogs/cozinha-bruta/2023/04/bacalhau-de-comida-de-pobre-ao-luxo-na-semana-santa.shtml. 7.abr.2023)

Assim, foram sendo liberadas algumas categorias de alimentos: pão, vegetais e, por fim, peixe – sempre fortíssimo na simbologia cristã. (L.45-48)

A expressão sublinhada no período acima se refere a

 

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