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2563380 Ano: 2018
Disciplina: Português
Banca: URI
Orgão: Pref. Santo Ângelo-RS
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Sobre peixes e linguagem
Marcos Bagno

Me ocorre frequentemente a ideia de que nós nos relacionamos com a linguagem assim como os peixes se relacionam com a água. Fora da água, o peixe não existe, toda a sua natureza, seu desenho, seu organismo, seu modo de ser estão indissociavelmente vinculados à água. Outros animais até conseguem sobreviver na água ou se adaptar a ela, como focas, pinguins, sapos e salamandras, que levam uma existência anfíbia. Mas os peixes não: ser peixe é ser na água. Com os seres humanos é a mesma coisa: não existimos fora da linguagem, não conseguimos sequer imaginar o que é não ter linguagem – nosso acesso à realidade é mediado por ela de forma tão absoluta que podemos dizer que para nós a realidade não existe, o que existe é a tradução que dela nos faz a linguagem, implantada em nós de forma tão intrínseca e essencial quanto nossas células e nosso código genético. Ser humano é ser linguagem.

Mas a comparação com o peixe também pode se aplicar a uma outra dimensão da linguagem, que é a única forma como a linguagem realmente adquire existências: a dimensão textual. Abrir a boca para falar, empunhar um instrumento para grafar o que quer que seja, ativar a memória, raciocinar, sonhar, esquecer... todas essas atividades humanas só se realizam como textos. Só tem linguagem onde tem texto. No entanto, por alguma misteriosa razão, os estudos linguísticos durante quase dois milênios desprezaram esse caráter essencialmente textual da linguagem humana. Talvez justamente por ele ser tão íntimo e inevitável quanto respirar, algo que fazemos tão intuitivamente que nunca nos detemos para refletir sobre isso, é que o caráter textual de toda manifestação da linguagem tenha sofrido esse soberano desprezo. E as consequências desse desprezo, para a educação, configuram a tragédia pedagógica que tão bem conhecemos: a redução do estudo da língua, na escola, à palavra solta e à frase isolada.

Uma palavra solta, uma frase isolada são um peixe fora d’água. O texto é o ambiente natural para qualquer palavra, qualquer frase. Fora do texto, a palavra sufoca, a frase estrebucha e morre. E como pode o peixe vivo viver fora da água fria?

A ideia de que uma frase se sustenta sozinha é uma das inúmeras heranças que recebemos da Antiguidade clássica. Mas sabemos que os primeiros estudos sobre a linguagem tinham um caráter eminentemente filosófico, metafísico mesmo, pois os filósofos gregos não tinham preocupações linguísticas propriamente ditas, muito menos preocupações didáticas: o que interessava a eles era descobrir de que maneira (e se é que) a linguagem refletia o funcionamento da alma, que por sua vez (e se é que) refletia o funcionamento do mundo natural, que por sua vez (e se é que) refletia a organização do universo. Para isso, bastava a frase, a sentença isolada, o auto telos logos, ou seja, o enunciado completo em si mesmo, porque sua estrutura mínima servia aos propósitos da investigação metafísica. O desastre se opera quando essa autossuficiência (suposta) da frase isolada é transferida para os estudos da língua em si mesma e, pior ainda, para o ensino da língua. O peixe morto, que pode ser aberto e estripado para se saber o que tem lá dentro, se tornou o objeto do ensino de línguas, quando esse objeto deveria ser o peixe vivo e bulindo, em cardume, dentro de seu ambiente natural, líquido, aquoso: lago, lagoa, riacho, rio, praia, alto-mar – a água-texto.

Irandé Antunes, incansável defensora dos peixes vivos, prossegue aqui em sua luta contra o uso do peixe morto, estripado e malcheiroso, que ainda infecta o nosso ensino de línguas, em pleno século XXI. É com ela que aprendemos o que deveria ser óbvio: que ensinar línguas não é pescar, mas mergulhar na água do texto e nadar entre os peixes. Deveria ser óbvio, mas não é. Por isso, só podemos comemorar, aplaudir e agradecer mais esse manifesto em defesa da linguagem, da língua e do texto que, na água vivificada pelo espírito humano, são uma coisa só!

Marcos Bagno
Análise de Textos: fundamentos e práticas.
São Paulo: Parábola Editorial, 2010. p. 11 e 12.

Analise as afirmações a seguir, atribuindo 100 pontos para cada afirmação correta e 50 pontos para cada afirmação incorreta. Na sequência, assinale a alternativa que contém a soma correspondente a todos os pontos.

( ) O aparelho fonador é constituído por três sistemas: o sistema respiratório, o sistema fonatório e o sistema articulatório. As partes do corpo humano utilizadas para a produção da fala, como os pulmões, alvéolos pulmonares, úvula, dentes, língua, cavidade glotal, entre outros, têm outras funções primárias, sendo a produção da fala uma função secundária desses órgãos.

( ) O som produzido com algum tipo de obstrução nas cavidades supraglotais, de maneira que haja obstrução total ou parcial da passagem da corrente de ar, podendo ou não haver fricção, denomina-se segmento consonantal. Na produção de um segmento vocálico, não há obstrução ou fricção no trato vocal. As vogais são, portanto, sons resultantes da livre passagem do ar no aparelho fonador.

( ) As vogais do alfabeto fonético do português brasileiro totalizam doze possibilidades de ocorrência, incluindo a nasalização dos fonemas /a/, /e/, /i/, /o/ e /u/. Para esses doze fonemas vocálicos, existe um sistema gráfico correspondente, constituído de 5 símbolos (letras).

( ) A gagueira é uma disfluência (= não fluência) em que o fluir normal da fala é interrompido por repetições involuntárias e/ou prolongamentos de sons, sílabas, palavras ou frases, bem como por pausas silenciosas involuntárias. Esse transtorno decorre na maioria dos casos de sérias patologias, como câncer de garganta ou de pulmão, ou de fissuras palatinas, além de sérios transtornos emocionais e psicológicos.

( ) A dislexia é um distúrbio ou transtorno de aprendizagem na área da leitura, escrita (disgrafia) e soletração. É o distúrbio de maior incidência nas salas de aula e está associada a fatores como: má alfabetização, desatenção, desmotivação, condição sócio-econômica ou baixa inteligência. Por esses múltiplos fatores é que a dislexia deve ser diagnosticada por uma equipe multidisciplinar.

 

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