Magna Concursos
1324228 Ano: 2011
Disciplina: Português
Banca: IBFC
Orgão: Pref. Campinas-SP
Provas:
Para a questão, leia o artigo abaixo, de Maria Rita Kehl.
Falcões de asas quebradas
Maria Rita Kehl*
“Falcão - meninos do tráfico”, de MV Bill e Celso Athayde, mostrou a milhões de telespectadores da TV Globo, domingo passado, recortes da vida de algumas crianças incapazes de alçar voo; aos três anos, a força arrasadora Real já lhes cortou asas da imaginação. Aos seis, brincam de vender maconha e cocaína, de torturar e executar os alcagetes queimados dentro de um pneu ou executados a bala na sarjeta. De mentirinha? Brincam para tentar exorcizar o medo: treino de sobrevivência na barbárie. O que você quer ser quando crescer? “Bandido”.
O que sobra a estas crianças para fantasiar se a onipotência, motor da fantasia infantil, se realiza todos os dias na forma da tirania praticada por seus irmãos mais velhos, por tios e pais adolescentes destinados a morrer antes dos vinte anos? Do ponto de vista da constituição psíquica, a fantasia é o suporte do desejo. Fundamenta a experiência da interioridade, de um "si mesmo" que mede sua diferença em relação ao mundo real. Uma subjetividade sem fantasia é uma terra devastada, sujeita a servir ao gozo do Outro.
Assim, de pequenino, se torce o pepino. O discurso único do tráfico se instala, totalitário, impedindo a imaginação das crianças, não apenas (como gostaríamos de acreditar) nas favelas cariocas, mas em várias cidades do Brasil. Na falta de espaço para outras fantasias, não há um ponto de fuga onde ancorar outro desejo senão o desejo de morte projetado na droga, na licença para matar, no poder irresistível do terror sem lei. Um tal desejo está fadado a se realizar, sem demora. Desde os primeiros minutos do documentário, esse terror produziu seus efeitos sobre mim. Flagrei-me acalentando ideias de extermínio. Quantos espectadores do Fantástico não terão se envergonhado ao pensar que a morte desses garotos até que poderia ser bem vinda? Depois, compreendi que estava contaminada pela única fantasia (ou profecia?) deles. Destes que se pensam sem futuro e se engajam no tráfico por um salário mínimo (!) e dois ou três anos de "fama" antes da morte certa. Na voz chapada do menino de dez anos, o jargão da crítica social se transforma em ideologia conformista: "faço isto porque ninguém me deu nada". No lugar desse nada, a droga instala um vazio mais suportável: " não fico triste, tô sempre se drogando" diz a criança que já sabe que sua existência não conta: "se eu morrer, vem outro como eu". Mas não deixa de lamentar sua desesperança: "é muito esculacho nessa vida".
O tráfico de drogas não é antagônico às economias de mercado: é sua extensão selvagem. As sociedades ditas liberais convivem com ele por uma afinidade lógica: os lucros astronômicos formados com base em trabalho escravo (voluntário) falam a mesma língua de outras formas de acumulação acelerada de capital. O capital financeiro, por exemplo, cuja lógica dispensa a negociação política, também nos esteriliza para sonhar com um mundo mais justo. O tráfico, como o capitalismo, produz os sujeitos dos quais se alimenta. De um lado, no asfalto, estão os consumidores do único meio de gozo tão potente que dispensa a publicidade. Do outro lado, na linha de montagem e na distribuição, está um exército de servidores voluntários. São escravos: quem entrou, só sai morto. As crianças sabem disso, mas entram. Não há poder mais eficiente do que aquele que se sustenta sobre o desejo dos dominados.
Entre os consumidores que vivem no asfalto, há quem se sirva da droga para sonhar. Mas na ponta de cá, quem se droga não sonha. A droga é a hiper-realidade cotidiana, aliada ao medo e ao poder dos fuzis: quem vacilar sabe que vai morrer. O que equivale a uma condenação sumária: impossível viver sem, vez ou outra, vacilar. Por isso, para as crianças aliciadas desde que deixam a barra das saias da mãe, nenhum sonho é possível. Quem sonha, mais cedo ou mais tarde vacila. Assim se fecha o circuito do gozo mortífero contra o qual as crianças são indefesas. Indefesas porque lhes falta pai, dizem os pequenos entrevistados por MV Bill. Mas sobretudo lhes falta, na favela excluída do poder público, qualquer outra referência que sustente a Lei simbólica - a que interdita o gozo e possibilita o investimento das pulsões de vida em objetos possíveis, não absolutos. A lei da droga é absoluta. Não há nada que interdite o discurso do gozo que gira em torno dela. Ou quase nada além, do desejo quase impotente de algumas jovens mães. Os psicanalistas costumam desconfiar do poder das mães; é um mal entendido a respeito da função paterna. A falta do pai, por morte ou abandono, fere e desampara o filho. Mas se a mãe está "na lei", a função paterna opera através de seu discurso. Uma delas, aparentemente muito jovem, diz que seu filho de anos "sabe tudo" sobre o tráfico. Mas acrescenta: " eu quero que ele saiba que não o que não é o mundo, inclua a favela e introduza, na vida dos candidatos a falcão, outras perspectivas.
Outra mãe conseguiu legar ao filho um fragmento de sonho: prometeu levá-lo ao circo. Morreu, deixando o menino marcado por um desejo - e uma falta - que a droga não podia satisfazer. Desejo de infância e de magia, riso, brincadeira. Levado pela equipe de filmagem ao circo, o jovem operário da indústria da droga ainda teve tempo de desejar outra vida. Pensou ser palhaço: a face benigna do nonsense. Quem sabe, esculachar o esculacho. Foi o único que conseguiu deixar o tráfico e não morreu, como outros 15 entre os 16 entrevistados antes do documentário do mano Bill ficar pronto.
* Colaborou: Maria Marta Assolini.
Considere o período transcrito abaixo e as afirmações que seguem.
Mas na ponta de cá, quem se droga não sonha.
I. A conjunção que introduz o período estabelece relação de adição.
II. A expressão " na ponta de cá" refere-se aos que não vivem na favela.
III. A oração encontra-se na voz ativa.
Está correto o que se afirma em:
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas

Procurador

200 Questões