Leia o texto para responder às questões de números 01 a 06.
Deitar e rolar
Seis meses depois de uma fratura no ombro e de uma cirurgia que durou cinco horas, o braço esquerdo de Ruy reaprende a fazer movimentos de cuja complexidade ele nunca suspeitara. Já tem condições para, por exemplo, bater palmas no teatro, usar garfo e faca para cortar o bife, repuxar o queixo para fazer a barba e espremer o finzinho do tubo de pasta de dente. Mas coçar as costas, calçar as meias, dar nó nos cadarços do sapato, cortar as unhas dos pés ou devolver ao lugar as calças que ameaçam cair já é outra história – são práticas que exigem preparação psicológica e imensa vontade de vencer.
Certos gestos que, no começo, eram quase impossíveis têm gosto de vitória quando voltam a ser executados. Como abrir e dobrar o jornal, ensaboar a axila direita ou puxar e afixar o cinto de segurança num automóvel. Claro que levará tempo para que o dono do braço consiga realizar uma das grandes proezas do ser humano: levantar a mala sobre a cabeça e acomodá-la naquele compartimento do ônibus ou avião.
Enquanto isso, nada supera a felicidade de poder voltar a dormir apoiado sobre o ombro esquerdo. Equivale a recuperar 33,33% de posições na cama, até então limitadas a dormir de barriga para cima ou sobre o ombro direito. A felicidade só será completa, no entanto, quando Ruy puder fazer isso com a antiga agilidade e destreza, no dia em que, com todo o respeito, voltar a deitar e rolar. Enfim, quando ele próprio recuperar tal liberdade de movimentos que o faça esquecer de como, um dia, apesar de tão simples, pareceram-lhe inalcançáveis e maravilhosos.
(Ruy Castro. A arte de bem querer. Rio de Janeiro:
Estação Brasil, 2018. Adaptado)
No trecho do 1º parágrafo – ... o braço esquerdo de Ruy reaprende a fazer movimentos de cuja complexidade ele nunca suspeitara. – as palavras destacadas podem ser substituídas, sem alteração de sentido e na ordem em que se apresentam, por