Disciplina: Português
Banca: Col.Mil. Belo Horizonte
Orgão: Col.Mil. Belo Horizonte
TEXTO 1
Victor Vasconcelos é jornalista profissional desde 2000, editor-chefe do Sem Barreiras, que é uma consultoria de inclusão da Pessoa com Deficiência (PcD) no mercado de trabalho e na sociedade. Victor assina as colunas “Vamos falar de deficiência?” e “Nossos ossos de cristal” e é autor da reportagem “Turma da Mônica possui personagens com deficiência”, cujo texto adaptado encontra-se a seguir.
TURMA DA MÔNICA POSSUI PERSONAGENS COM DEFICIÊNCIA
1 ___“Baixinha, golducha e dentuça”. Essas palavras remetem imediatamente a uma menininha de
vestidinho vermelho, empunhando um coelhinho azul de pelúcia, encaldido, correndo atrás de alguns
garotos para lhes acertar várias coelhadas, principalmente, em um de cabelo espetado e com roupa verde
(ou melhor, velde) e em outro todo sujinho. Esses são Mônica, Cebolinha e Cascão, personagens da
5 famosa Turma da Mônica.
___Eles foram criados pelo jornalista e cartunista Maurício de Sousa, mais famoso e premiado autor
brasileiro de histórias em quadrinhos. Tudo começou em 1959, quando ele era repórter policial do jornal
Folha da Manhã (atual Folha de São Paulo), em forma de tirinhas, com o personagem Franjinha e seu
cachorro Bidu. Vários outros personagens surgiram: a comilona Magali, o negro Jeremias, o dentuço Titi
10 e sua namorada Aninha. Maurício expandiu as histórias, todas conectadas com a Turma original,
surgindo a Turma do Chico Bento, da adolescente Tina, do Penadinho, do Horácio e do Piteco. Há,
ainda, a Turma da Mônica Jovem com a versão dos personagens adolescentes e não mais com oito anos.
___As histórias da turma da Mônica se passam no fictício bairro do Limoeiro e falam, acima de
qualquer coisa, da amizade entre os personagens. Apesar das provocações e das brigas que a Mônica
15 enfrenta com os meninos, são todos muito amigos e companheiros.
___Em 2012, Maurício de Sousa lançou a edição especial dos quadrinhos da Turma da Mônica sobre
acessibilidade. Sabe-se que eles sempre abordaram temas atuais, com mensagens educacionais de
respeito ao meio ambiente e à natureza, além de campanhas de saúde. O tema “deficiência”, portanto,
não poderia ficar de fora. “Todos nós temos amigos com algum tipo de deficiência e convivemos com
20 eles harmônica e dinamicamente. Aprendemos as regras de inclusão aí. Consequentemente, não
poderíamos deixar de apresentar amiguinhos da turma que também tivessem algum tipo de deficiência”,
afirmou Maurício.
____Entre os personagens originais, criados na década de 60, já havia um deficiente auditivo, o
Humberto, que se comunica com os coleguinhas através de linguagem gestual. Em 2004, foram criados
25 dois novos personagens com algum tipo de deficiência: o Luca e a Dorinha. Ela é deficiente visual e foi
chamada assim em homenagem à Dorina Nowill, criadora de uma Fundação que, há mais de 60 anos,
atua na inclusão de pessoas com deficiência visual. A personagem possui um cão guia chamado Radar e
usa uma bengala. Dorinha tem sete anos, é bastante extrovertida, bonita, fashion, com um corte de
cabelo moderno, óculos escuros e faz amizade com facilidade; brinca, normalmente, como qualquer
30 criança, surpreendendo os amiguinhos com suas habilidades e sentidos aguçados como o olfato, o tato e
a audição. Já o Luca é cadeirante e amante dos esportes, principalmente, do basquete. Ele foi apelidado
pelos amiguinhos de “Da roda”. “Para criar o Luca, conversei com os atletas paralímpicos, o que foi,
para mim, uma descoberta e uma alegria. Eles são muito bem resolvidos, entusiasmados, alegres,
espertos, inteligentes e com o moral lá em cima. Foi fácil transpor esse clima para o personagem”,
35 afirma Maurício de Sousa. Nas histórias de Luca, são mostradas algumas situações nas quais ele
encontra dificuldade para se locomover nas calçadas esburacadas, nos prédios e casas sem rampas de
acesso, em veículos coletivos que não oferecem condições para receber uma pessoa cadeirante;
obstáculos também encontrados pelos deficientes na vida real.
____O outro personagem é o André: autista e o mais novinho entre eles, ele tem quatro anos e foi
40 muito bem recebido pela Turma; tem uma curiosidade incrível pelas coisas e quase não fala. Isso fez
com que o Cebolinha o achasse meio estranho no início. Maurício de Sousa explica que “O André
nasceu de um estudo que fizemos para uma campanha. Saiu uma revistinha muito gostosa que serviu e
serve para muita gente entender um pouco melhor o autismo e suas diversas manifestações”. Seu nome
verdadeiro é André Khoury Correia Sampaio Júnior.
45___E, finalmente, surge a Tatiana, ou simplesmente Tati, uma garotinha de oito anos com Síndrome de
Down; seus olhos são dois pontinhos e a cor do seu cabelo varia entre ruivo e castanho. Maurício admite
que a personagem Tati é pouco conhecida e ainda não muito utilizada nas histórias. “Ela ainda está em fase
de estudos, devido à variação de graduações que o Down apresenta, estou buscando em que nível está a
menina”, disse. Ela aparece sempre, na escola, com Luca e Dorinha, combatendo o preconceito.
50___ A professora Gabriela Lopes de Sousa, pedagoga, formada pela Universidade Federal do Ceará
(UFC), diz que utilizou bastante os vídeos da Turma da Mônica, quando trabalhou no Instituto da
Primeira Infância (Iprede), e que as crianças adoraram as histórias - “criança é muito observadora e
sempre questiona tudo. As histórias se tornam um portal para conversarmos sobre todos os assuntos”.
___A psicóloga Ana Beatriz Thé Praxedes acredita que as personagens criadas por Maurício de
55 Sousa têm a importância de fazer os alunos compreenderem que existem pessoas com deficiência e
outras sem. “Pedagogicamente falando, as personagens ajudam a preparar as crianças para conviver com
as diferenças significativas”, disse Ana Beatriz, que é cadeirante.
Disponível em: www.sembarreiras.jor.br/2014/07/03/turma-da-monica-possui-personagens-com-deficiencias/victor vasconcelos.
Acesso em 09 ago. 2019. (Texto adaptado.)
R.J. Palacio foi diretora de arte e designer gráfica de uma grande editora por mais de vinte anos, até estrear na literatura, com Extraordinário. Os TEXTOS 2 e 3 compõem a parte I do livro de estreia da autora e foram transcritos a seguir.
TEXTO 2
COMUM
1___Sei que não sou um garoto de dez anos comum. Quer dizer, é claro que faço coisas comuns.
Tomo sorvete. Ando de bicicleta. Jogo bola. Tenho um Xbox. Essas coisas me fazem ser comum. Por
dentro. Mas sei que as crianças comuns não fazem outras crianças comuns saírem correndo e gritando
do parquinho. Sei que os outros não ficam encarando as crianças comuns aonde quer que elas vão.
5___Se eu encontrasse uma lâmpada mágica e pudesse fazer um desejo, pediria para ter um rosto
comum, em que ninguém nunca prestasse atenção. Pediria para poder andar na rua sem que as pessoas
me vissem e depois fingissem olhar para o outro lado. Sabe o que eu acho? A única razão de eu não ser
comum é que ninguém além de mim me enxerga dessa forma.
Mas agora meio que já me acostumei com minha aparência. Sei fingir que não vejo as caretas que
10 as pessoas fazem. Nós todos ficamos muito bons nisso: eu, mamãe e papai, a Via. Na verdade, retiro o
que disse: a Via não é tão boa. s vezes ela fica muito irritada quando fazem algo grosseiro. Por
exemplo, naquela vez no parquinho, quando uns garotos mais velhos fizeram alguns barulhos. Nem sei
que barulhos eram, porque eu mesmo não ouvi, mas a Via escutou e simplesmente começou a gritar com
eles. Esse é o jeito dela. Eu não sou assim.
15___Ela não acha que eu seja comum. Diz que acha, mas, se eu fosse comum, ela não precisaria me
proteger tanto. Mamãe e papai também não me acham comum. Eles me acham extraordinário. Talvez a
única pessoa no mundo que percebe o quanto sou comum seja eu.
Aliás, meu nome é August. Não vou descrever minha aparência. Não importa o que você esteja
pensando, porque provavelmente é pior.
PALACIO, R. J. Extraordinário. Tradução de Rachel Agavino. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013. p. 11.
TEXTO 3
POR QUE EU NÃO IA ESCOLA
1___Na semana que vem vou começar o quinto ano. Como nunca estudei em um colégio de verdade,
meio que estou total e completamente apavorado. As pessoas acham que nunca fui à escola por causa de
minha aparência, mas não foi isso. Foi por causa de todas as vezes que fui operado. Vinte e sete vezes
desde que nasci. As mais importantes aconteceram antes de eu ter quatro anos, por isso não lembro. Mas
5 desde então passei por duas ou três cirurgias a cada ano (algumas grandes, outras menores), e, como sou
pequeno para a minha idade e tenho outros problemas misteriosos que os médicos nunca conseguiram
entender, eu ficava doente o tempo todo. Foi por isso que meus pais decidiram que seria melhor eu não
ir para a escola. Mas estou bem mais forte agora. Minha última cirurgia foi oito meses atrás e
provavelmente não precisarei de outra pelos próximos anos.
10___ A mamãe me dá aulas em casa. Ela era ilustradora de livros infantis e desenha fadas e sereias
lindas. Uma vez tentou desenhar um Darth Vader para mim, mas ficou parecendo um robô estranho com
formato de cogumelo. Há muito tempo não a vejo desenhar nada. Acho que está ocupada demais
cuidando de mim e da Via.
___Não posso dizer que eu sempre quis ir à escola, porque isso não seria exatamente verdade. Eu
15 queria ir, mas só se pudesse ser como todas as outras crianças. Ter muitos amigos, sair depois da aula,
coisas desse tipo.
___Tenho alguns amigos de verdade agora. O Christopher é meu melhor amigo, e depois vêm o
Zachary e o Alex. A gente se conhece desde bebês. E, como eles já me conheceram como sou, estão
acostumados. Quando a gente era pequeno, brincava junto o tempo todo, mas depois o Christopher se
20 mudou para Bridgeport, em Connecticut. Fica a mais de uma hora de onde eu moro, em North River
Heights, na ponta de cima de Manhattan. E o Zachary e o Alex começaram a ir à escola. É estranho:
embora o Christopher tenha se mudado para longe, ainda o vejo mais do que vejo o Zachary e o Alex.
Eles têm um monte de amigos novos agora. Mas quando nos esbarramos na rua eles ainda são legais
comigo e sempre dizem oi.
25___ Tenho outros amigos também, mas não tão legais quanto o Christopher, o Zach e o Alex. Por
exemplo, o Zach e o Alex sempre me convidavam para as festas de aniversário deles quando a gente era
pequeno, mas o Joel, o Eamonn e o Gabe nunca fizeram isso. A Emma me convidou uma vez, mas não a
vejo há muito tempo. E, é claro, sempre vou nas festas do Christopher. Talvez eu esteja exagerando
com esse negócio de festas de aniversário.
PALACIO, R. J. Extraordinário. Tradução de Rachel Agavino. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013. p. 12-13.
Releia o trecho: “Mamãe e papai também não me acham comum. Eles me acham extraordinário.” (TEXTO 2, linha16).
Dentre os verbetes abaixo, extraídos do minidicionário Houaiss (2015, p.437), assinale o único significado que, de acordo com o sentimento dos pais em relação à criança, NÃO pode ser utilizado como sinônimo para a palavra EXTRAORDINÁRIO: