Quando a Ciência e as religiões pretendem salvar o
planeta.
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Em tempos de profecias cinzentas sobre mudanças globais e o futuro do planeta, a questão do "fim do mundo" e da sua salvação está na pauta. Como sempre, o mundo está mudando. Para os profetas de hipóteses inverificáveis, o planeta está se transformando num local ameaçador e até vingativo. Nesses discursos, a natureza aparece como sujeito dotado de consciência e arbítrio, para não dizer morada de deuses. Está se vingando dos males que afligiram os humanos.
Se as afirmações sobre a iminência do "fim do mundo" fossem feitas apenas por líderes religiosos, seriam tratadas de messianismo, milenarismo e até fanatismo. Mas isso é colocado com naturalidade pela mídia e até por parte de uma comunidade científica, que se diz ateia, quando evocam as questões ambientais do planeta. Nessa batalha midiática, o discurso religioso e o científico interpenetram-se de forma inédita e parecem falar a mesma língua.
Um linguajar religioso reveste o discurso dos portavozes das mudanças climáticas e globais e de suas consequências. As falas do ex-Vice-Presidente dos Estados Unidos AI Gore e do atual Presidente Barak Obama são exemplos eloquentes. Os termos utilizados por parte da comunidade científica no tratamento das questões ambientais planetárias evocam com frequência o "apocalipse". Comparam os pretensos castigos climáticos com as pragas do Egito ou do Livro da Revelação. Apresentam o fim do mundo como algo iminente e irreversível. Ameaçam com aquecimentos infernais e dilúvios arrasadores. Os humanos são pecadores castigados por seus atos, como nos tempos míticos de Noé. Empregam o termo "pecado original" para criticar o modo de vida ocidental.
Num antropocentrismo onipotente e disfarçado, esses discursos creditam aos humanos a responsabilidade do aquecimento do planeta e também a possibilidade de salvá-lo. A Terra depende de nós. Parte do campo eclesial adotou essas teses e o discurso passou da salvação pessoal e comunitária ao de salvar o planeta.
Fonte: MIRANDA, Evaristo Eduardo de Miranda. Religião, Ciência e Tecnologia. 2009, p.143e144.