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Prezado candidato, leia, com muita atenção, o texto apresentado a seguir:

Leitor sem leitura

Do muito que já se disse sobre a leitura no Brasil, a qualidade do ato de ler é talvez a mais difícil de inferir. O mercado editorial vende muito, mas aquém da população potencialmente consumidora. E o consumo de obras de qualidade se mistura nas estatísticas ao papel pintado por prosa caça-níqueis, obra religiosa ou autoajuda.

A demanda por leitura é limitada. Temos 2.200 pontos de venda no Brasil, dos quais 1.800 livrarias. Metade em São Paulo (a capital tem 200). O Rio, umas 150. Acre e Amapá são lanterninhas: três cada. Há só uma livraria para 84.500 brasileiros. Os EUA têm uma para 15 mil pessoas e os argentinos, 50 mil – o que ajudou o mito de Buenos Aires ter mais livrarias que o Brasil (lá há 400, diz o Cerlac – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe).

Pesquisa do Instituto de Economia da UFRJ (2004) concluiu que o maior repressor na venda de livros é o hábito da leitura. Mais de 60% dos entrevistados preferem veículos mais rápidos. Só 32% de adultos, no conjunto de todas as classes sociais, dizem gostar de ler. A elite, já notou a Câmara Brasileira de Livro, sustenta muito da bobagem editorial consumida no Brasil. O estímulo à leitura está hoje centrado nos programas de livros didáticos do MEC, em ações da iniciativa privada e cursos de formação. Bibliotecas – insuficientes e mal aparelhadas – e ensino básico – desigual de norte a sul do Brasil – viraram, em alguns casos, complicadores.

Pôr a culpa pela falta de leitores na desigualdade explica, não justifica. Para Ingedore Koch (Unicamp), entrevistada da edição, problemas estruturais ainda são fortes niveladores por baixo da Educação. Boa parte dos alunos de 4.ª e 8.ª, ensinados pelo Estado e avaliados pelo MEC, é incapaz de interpretar textos simples e entender mais de uma informação de parágrafo. A família, verdade, é vital ao estímulo ao prazer de ler, mas o professor, pena, não pode usar as más condições de trabalho e de formação para eximir-se da responsabilidadec. Ingedore diz que, apesar de tudo, é possível pensar mecanismos para estimular a leitura em aula. É possível pensar em perspectivas que subjazem ao ler. Bom exemplo é a perícia de linguagem de escritores como Clarice Lispector, alvo de exposição no Museu da Língua Portuguesa e desta edição.

Em entrevista exibida na exposição, Clarice fala com amargor de um sistema que estimula os alunos a ler por obrigação. O ato de leitura, quem leu os textos de Clarice o sabe, pode virar uma genuína necessidade. Como respirar. Se produzimos prosa da elegância de Clarice, é saudável criar caminhos para experimentá-la. Hoje, este é o desafio dos professores de português do país.

Luiz Costa Pereira Junior (Revista Língua Portuguesa,

São Paulo, Ano II, número 19, maio de 2007, Carta ao leitor, p.5, com adaptação)

O texto destaca mediadores da relação leitor/livro, mas apresenta, sem restrições, sem realce para a necessidade de complementação e sem questionamento de resultados, apenas a atuação deste:

 

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