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Texto para responder à questão.
Caro Rubem Braga,
Escrevo-lhe estas mal traçadas linhas para comemorar seu aniversário de 100 anos. Sei que me condenaria por este começo de artigo, pois você lutava contra os lugares-comuns da imprensa. Uma vez me disse que demitiria qualquer redator que usasse “O comboio ficou reduzido a um montão de ferros retorcidos”. Sei que, odiando lugares-comuns, você estaria rindo das homenagens que lhe prestam — velhinho com 100 anos sendo tratado como um ser especial, logo você que sempre quis ser um homem comum, sem lugar claro na vida. Você não tinha nada de ‘especial’, nenhum brilho ostensivo; você não falava muito e tinha a melancolia que lhe dava o posto de observação privilegiado para ver a vida correndo à sua volta ‘aos borbotões, a vida ávida e passageira’ (perdoe-me de novo.).
Vi você vendo o outono chegar a Botafogo dentro de um bonde, vi você vendo as estações do ano voando sobre Ipanema (desculpe as aliterações...), vi que você via a cidade por baixo das casas e edifícios, a praia dos tatuís hoje sumidos, o vento terral soprando nas praças, senti que você tinha uma saudade não sei de quê, uma nostalgia repassava suas crônicas, como em Tom Jobim, em Vinicius, numa época em que a literatura era importante, em que o Rio tinha a placidez baldia de uma paisagem vista de dentro.
Vi você em sua casa, numa festa pequena para amigos onde eu entrei sem ar (quem me levou?). Ali na varanda em frente de Ipanema estavam homens que eu temia — ídolos de minha juventude angustiada. Ali estavam tomando uísque o Vinicius de Moraes, você, Fernando Sabino e minha paixão literária máxima: João Cabral de Mello Neto, o gênio da poesia. Danuza Leão também estava. Todo mundo meio de porre, principalmente o João Cabral, que bebia mal e implicava com o Vinicius numa agridoce provocação, criticando-o por ter abandonado a poesia pela música popular. João Cabral odiava música, que lhe doía na cabeça como um barulho, estragando seu pensamento obsessivo, piorando suas horrendas dores de cabeça. João Cabral sacaneava: “Que negócio de ‘garota de Ipanema’, Vina, você é poeta!”. O Vinicius ficava puto, mas respondia conciliatório: “Para com isso, Joãozinho; deixa isso pra lá!”. O Cabral insistia: “Que tonga da milonga do caburetê que nada...”, a ponto de Danuza ralhar com ele: “Deixa de ser chato, João Cabral!”. Lembra disso, Rubem? Imagine minha emoção de jovem tiete ao assistir àquela briguinha íntima e mixa entre minhas estrelas. A honraria me sufocava.
Que pena que não lhes conheci mais intimamente, pois tinha medo de vocês — não me achava digno. Naquela época (início dos 70), havia tempo e energia para se discutir literatura. Hoje, neste tempo digital e veloz, ou temos o derrame de besteiras nas redes sociais ou porcarias de autoajuda nas listas de best-sellers.
Grande abraço e parabéns pelos 100 anos.
A.J.
Arnaldo Jabor. Internet: <www.estadao.com.br> (com adaptações). Acesso em 15/1/2013.
Considerando o trecho: “Você não tinha nada de ‘especial’, nenhum brilho ostensivo; você não falava muito e tinha a melancolia que lhe dava o posto de observação privilegiado para ver a vida correndo à sua volta ‘aos borbotões, a vida ávida e passageira’ (perdoe-me de novo.)” (linhas de 6 a 7), assinale a alternativa correta.
 

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