Trabalho e tempo livre
A partir dos anos 80, a imprensa difundiu demasiadamente a imagem dos yuppies¹ e outros apaixonados pela competição: o imaginário social dos lutadores impôs-se. No entanto até que ponto esse modelo é interiorizado e é partilhado pelas massas? Obsessão pela performance²? Febre por agir? Não é exatamente essa imagem que refletem a paixão coletiva pelas férias, a expectativa dos fins de semana, o desejo de encontrar um melhor equilíbrio entre trabalho e vida privada, a ânsia pela reforma. Um dos epitáfios mais apreciados no século XIX era: “o trabalho foi a sua vida”. Hoje, o sentimento que domina é sobretudo: “A vida não é só trabalho”. (...) Na sociedade de hiperconsumo, as pessoas tendem a situar os seus interesses e os seus prazeres, em primeiro lugar, na vida familiar e sentimental, no repouso, nas férias e viagens, atividades de lazer e outras atividades associativas. Com efeito, é o tempo livre que se impõe como o mais atrativo, o mais carregado de valores essenciais. A liturgia dos desafios pode inflamar os adeptos incondicionais do trabalhoa, mas, ao que tudo indica, não é o que se verifica para a maioria das pessoas, que encontra sua realização pessoal, principalmente nos prazeres do tempo livre e da vida relacional, e não tanto no ativismo profissional.
Essas observações não pretendem, de modo algum, dar crédito às teses que analisam o trabalho como um valor em vias de extinção. Nas sociedades meritocráticas e de consumo, os indivíduos continuam, em larga medida, a definir-se por meio da sua função profissional, que constitui uma referência de importância maior, um vetor central de estruturação da vida pessoal e social. Embora a felicidade privada polarize cada vez mais as aspirações dos indivíduos, o trabalho continua a ser um incontornável mediador de autoestima, o primeiro produtor da identidade social. Fim da “religião do trabalho” pode significar qualquer coisa, exceto o desaparecimento da importância que lhe conferimos. O desânimo e a humilhação vividos pelos desempregados de longa data atestam isto: a identidade e o status social continuam a ser dominados pelo trabalho assalariado. Simplesmente, este deixou de ser o centro de gravidade da vida; ao seu lado, afirmam-se agora os ideais da vida privada, as exigências do lazer e do desenvolvimento íntimo.
Se o papel do trabalho nas nossas sociedades é insubstituível, tal se deve, também, paradoxalmente, à própria sociedade de consumo como sistema estruturado pela mercantilização quase total dos modos de vida e das experiências individuais. Nessas circunstâncias, como alcançar o bem-estar e os prazeres do lazer sem um trabalho remunerado? Dado que o número crescente de atividades humanas se encontra sob a alçada da relação comercial e que o hedonismo consumista se impõe como sistema de valor onipresente,d e tudo leva a crer que a corrida ao aumento das receitas tende, inevitavelmente, a prosseguir.
(...) Quando os trabalhadores se declaram favoráveis à ideia de poder trabalhar mais, isso não traduz um maior apego à norma da performance, mas uma formidável expansão do consumo e da necessidade de dinheiro que esta determina. Na sociedade de hiperconsumo, a principal preocupação do indivíduo não é superar-se, mas poder usufruir de um rendimento confortável para participar plenamente no universo das satisfações proporcionadas pelo mercado. Se alguns intelectuais e alguns grupos utópicos exaltam um modo de vida menos dependente do dinheiro e dos produtosb, é pouco provável que essa sabedoria frugal triunfe ao poder sedutor das felicidades “fáceis” repetidamente anunciadas pelo universo consumista.c
LIPOVETSKY, Gilles. “Trabalho e tempo livre”_In: A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo. Lisboa: Edições 70, 2010. p. 227-229 – fragmento de texto adaptado.
Vocabulário de apoio: 1 yuppie: é uma derivação da sigla “YUP”, expressão inglesa que significa “Young Urban Professional”, ou seja, Jovem Profissional Urbano. É usado para referir-se a jovens profissionais entre os 20 e os 40 anos de idade, geralmente de situação financeira intermediária entre a classe média e a classe alta.
2 performance: é um substantivo feminino com origem na língua inglesa (verbo to perform) que significa realização, feito, façanha ou desempenho. No contexto profissional, geralmente, os termos ‘polivalência’, ‘autonomia’, ‘qualidade’ são referenciais de performance.
A palavra sublinhada, interpretada entre colchetes, condiz com seu significado no texto 1, EXCETO em: