Magna Concursos
2716254 Ano: 2008
Disciplina: Português
Banca: UFF
Orgão: IMBEL

OS TUMULTOS DA PAZ

Hélio Pellegrino

Costuma-se confundir paz com imobilismo quietista ou, o que é pior: costuma-se desfigurá-la a ponto de enxergar nela um sinônimo de conformismo submisso, onde a ausência de conflito é valorizada como virtude, e a tibieza celebrada como valor. Na realidade, paz nunca é pasmaceira. Nem turbulência coagulada pela força do arbítrio. Nem muito menos silêncio das tumbas. Ao contrário, paz é tensão criadora, e implica agonia ativa e apaixonada vigília. Não há paz sem contradição e contraditação dialéticas. Paz é, portanto, possibilidade de comunicação autêntica, de diálogo, de palavra plena. Nada em si mesmo é completo, acima e além da contingência, do movimento, da transformação. Todas as coisas – mergulhadas no rio heraclítico – trazem em si os seus contrários e, nesta medida, nascem, vivem e morrem, para dar lugar a novos nascimentos, novas vidas, novas mortes(e). É do embate de opostos que surge o desvendamento da verdade, através do ballet célebre: tese, antítese, síntese.(d)

Para que se possa chegar à síntese – ponto de partida para novas contradições, que irão dividi-la – é preciso que a tese e a antítese tenham garantido o seu direito à palavra, ao debate sem medo e sem coação. Não há paz sem liberdade. Não há progresso sem liberdade. Não há nada de verdadeiramente humano, sem liberdade. Para que exista paz, é necessário que haja humildade, transparência, paciente busca da justiça. Se quero construir a paz com os outros seres humanos, tenho que saber que não sou nem onipotente, nem perfeito. Paz é virtude coletiva, política, edificada com os outros. Ela implica, portanto, e de maneira radical, respeito ao Próximo, escuta atenta, modéstia.

Ao postular a necessidade do amor ao Próximo, nem por isto me exponho ao mundo de artérias abertas, nem abro mão do investimento narcísico fundamental que constitui a base de minha coesão psíquica(b). O amor ao Próximo está longe de representar um devaneio beato e piedoso, conto da carochinha para embair crianças, desavisados e inquilinos da sacristia.

Amar ao Próximo como a si mesmo é, por excelência, a regra de ouro, cânon fundador da única prática pela qual poderemos chegar a um pleno amor por nós próprios. Sou o primeiro e mais íntimo Próximo de mim, e esta relação de mim para comigo passa, inevitavelmente, pela existência do Outro. Este é o termo terceiro, a referência transcendente por cuja mediação passo a construir a minha auto-estima(c).

Eis aí o modelo da paz. Minha abertura ao Outro constitui – sem nenhum pieguismo! – um ato de gratidão por ele existir, dando-me a possibilidade de minha própria existência(a). Ao defender o direito que tem o Outro de ser, afirmo – e confirmo – o meu direito de existir. O contrário da paz é o ódio ao Próximo ou a si mesmo, seja em nome do que for. O ódio me destrói sempre, na medida em que visa a destruir meu irmão, meu vizinho, meu contendor – meu inimigo.

Paz, finalmente, é a assunção – mais do que dolorosa, porque crucificadora – de que nós, os humanos, somos carcaças feitas de tempo, marcados pela finitude, que constitui nossa dimensão mais radical. Paz é a possibilidade de nos sabermos sem rancor excessivo, falíveis, finitos, limitados, necessariamente ultrapassáveis. Ela exige, portanto, aceitação – e reverência – do que é novo e dessemelhante, pela consciência que devemos ter de que jamais possuiremos, a respeito de coisa alguma, a última palavra. Paz é coragem de pôr-se de acordo com a verdade, a justiça, a liberdade. E como a verdade, a justiça e a liberdade implicam a existência dos outros, paz é coragem de con-sentir na existência deles, inferno muitas vezes, escândalo quase sempre, mas porto e destino de tudo o que é humano.

02/04/87

VOCABULÁRIO:

HERACLÍTICO relativo a Heráclito, filósofo grego pré-socrático (540-480 a.C.), ou próprio de sua cosmologia, segundo a qual a matéria-prima essencial de um universo ordenado é o fogo.

CONTRADITAÇÃO contestação, impugnação, contradição.

DIALÉTICA em sentido bastante genérico, oposição, conflito originado pela contradição entre princípios teóricos ou fenômenos empíricos.

CONTINGÊNCIA ato imprevisível ou fortuito que escapa ao controle; eventualidade.

EMBAIR induzir deliberadamente em erro; lograr, iludir, seduzir.

TIBIEZA estado de fraqueza, de frouxidão, de debilidade.

CÂNON- CÂNONE maneira de agir; modelo, padrão.

ASSUNÇÃO ato ou efeito de assumir.

Assinale a opção em que a palavra grifada estabelece a coesão textual, retomando uma idéia expressa em parágrafo anterior:

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas

Advogado

40 Questões

Analista Administrativo

40 Questões

Analista Contábil

40 Questões

Analista de Custos

40 Questões

Analista de Sistemas

40 Questões

Assistente Social

40 Questões

Comprador Técnico

40 Questões

Engenheiro - Gerenciamento de Projetos

40 Questões

Engenheiro - Metalúrgico

40 Questões

Engenheiro - Processamento Digital de Sinais

40 Questões

Engenheiro - Processo

40 Questões

Engenheiro - Produção Eletrônica

40 Questões

Engenheiro - Produção Mecânica

40 Questões

Engenheiro - Qualidade

40 Questões

Engenheiro - Rádio Frequência

40 Questões

Engenheiro Civil

40 Questões

Engenheiro de Produção

40 Questões

Engenheiro de Segurança do Trabalho

40 Questões

Engenheiro Eletrônico ou Telecomunicações

40 Questões

Engenheiro Mecânico I

40 Questões

Engenheiro Mecânico II

40 Questões

Engenheiro Químico I

40 Questões

Engenheiro Químico II

40 Questões

Médico do Trabalho

40 Questões

Supervisor - Auditor

40 Questões

Supervisor - Compras

40 Questões

Supervisor - Contador

40 Questões

Supervisor - Custos

40 Questões

Supervisor - Informática

40 Questões

Supervisor - Manutenção

40 Questões

Supervisor - Materiais

40 Questões

Supervisor - Projetos

40 Questões

Supervisor - Qualidade e Normas

38 Questões

Supervisor - Química

40 Questões

Supervisor - Recursos Humanos

40 Questões

Supervisor - Tratamento Superficial

40 Questões

Supervisor Administrativo

40 Questões