Leia o fragmento a seguir.
A grade entreabriu-se e eu saí, o carcereiro foi me segurando no braço pelo corredor, escutei o burburinho da sala do delegado, quando cheguei na porta quase todos silenciaram, dois flashes explodiram, notei num canto uma chacrinha de repórteres tomando notas, e de súbito aquela chacrinha se abriu e se calou também, e apareceu no meio dos repórteres a expressão assustada de Mariana, ela parecia em pânico, arrependida de ter me denunciado, e pelo visto se pudesse me pediria socorro, era novinha e estava flagrantemente assustada, ali, no meio daqueles repórteres a lhe fazer perguntas, eu ia me aproximando dela, e ao chegar bem perto vários braços me barraram. Mariana deu três passos na minha direção, levantou um pouco o braço como se quisesse me alcançar, quem sabe desfazer a denúncia, mas ela sabia, já era tarde demais.
Aí se afastaram, e entraram com ela por uma porta que ficava ao lado da mesa do delegado. Estranhei, não vi o delegado. Senti um toque no meu ombro, olhei para trás, era um homem de chapéu, um sobretudo preto, o homem me fez lembrar de uma foto que eu conhecia de uma rua de Viena lá dos anos 30, e ele não tirou a mão do meu ombro, e me falou que eu ia agora com ele, que eu ia sair dali, ia para uma clínica em São Leopoldo, e ele me passou um pacote, disse que ali havia livros de poesia e umas folhas para eu escrever.
Oba, suspirei comigo, a minha vida tudo indica que vai mudar. Explodiram outros flashes, e eu disse que, por mim, a gente podia ir. [...]
João Gilberto Noll. O quieto animal da esquina. São Paulo: Francis, 2003. p. 20-1.
No trecho, observa-se que
I. o uso da ‘visão com’, de Jean Pouillon, permite apresentar os eventos sob a ótica do personagem-narrador.
II. a ‘visão com’ também deixa transparecer, para o leitor, que a percepção do personagem-narrador sobre os fatos não é a única possível.
III. a escolha da ‘visão com’ é útil para construir um personagem-narrador alienado de sua condição social.
Estão corretas as afirmativas