A QUESTÃO REFERE-SE AO TEXTO A SEGUIR.
Ninguém mais
Algumas coisas precisam continuar como sempre foram, para não percebermos as mudanças ao redor
Ruy Castro
Meu amigo, Bernardo, me convidou para seu casamento numa igreja tricentenária da cidade. “A recepção vai ser na Colombo*”, anunciou. Não tenho muita paciência para casamentos, próprios e alheios, por causa do excesso de seriedade do oficiante, civil ou religioso. Mas gosto das recepções depois da cerimônia. Com seu profano à vontade, elas são um bom augúrio para as duas pessoinhas que decidiram encarar o futuro juntos. Para isso, a Colombo é ideal. Aos 125 anos, ela passa uma sensação de eternidade. É como se Olavo Bilac, seu mais querido frequentador, morto em 1918, fosse aparecer de repente, de bigode encerado, colarinho e pince-nez, e pedir um prato de empadinhas.
A eternidade da Colombo é importante. Algumas coisas precisam continuar como sempre foram para não percebermos que outras à nossa volta desapareceram. Exemplo: Bilac cheirava rapé. Mas, há muito, ninguém mais cheira rapé – cheiram outras coisas. Ninguém mais anda pela rua chutando tampinhas – nem há mais tampinhas para chutar. Ninguém mais anda com as mãos nos bolsos – todo mundo usa jeans, e os bolsos dos jeans são muito apertados. E ninguém mais faz fiu-fiu para uma moça – pode até fazer, mas será o último fiu-fiu que ele fará na vida.
Ninguém mais diz coisas como “Arre!”, “Com a breca!” e “Macacos me mordam!” – pode crer, as pessoas soltavam essas exclamações. Ninguém mais é obrigado pela mãe a estudar acordeão. E ninguém mais é registrado com nomes como Ananias, Viriato, Heráclito ou Eustórgio – aliás, quase ninguém mais se chama Ruy.
Bernardo nunca andará de braços dados com sua mulher – andarão de mãos dadas. Seu enxoval de casamento não deve ter previsto um carrinho de chá para a sala. E ela não tomará cerveja preta se ficar grávida.
Mas a Colombo é eterna e, enquanto ela existir, as pessoas continuarão se casando.
*Famosa confeitaria do Rio de Janeiro.
Folha de S. Paulo. Caderno Opinião, p. A2, 20 mai. 2019. Adaptado.
Leia os textos.
Texto I
“Para se comunicar, os brasileiros se utilizam de um código comum, que é a língua portuguesa. As palavras são organizadas para formar frases, que se tornam períodos e, por fim, um discurso a ser pronunciado ou um texto a ser escrito ou lido. Cada palavra desse conjunto textual adquire uma função no momento da comunicação verbal ou escrita. Para definir essa função, organizou-se uma classificação que obedece a certos critérios semânticos, sintáticos e formais.” (SILVEIRA BUENO, 2014, p. 106).
Texto II
“Ninguém mais diz coisas como “Arre!”, “Com a breca!” e “Macacos me mordam!” – pode crer, as pessoas soltavam essas exclamações. Ninguém mais é obrigado pela mãe a estudar acordeão. E ninguém mais é registrado com nomes como Ananias, Viriato, Heráclito ou Eustórgio – aliás, quase ninguém mais se chama Ruy.”
Leia a passagem transcrita do primeiro parágrafo do texto.
“Não tenho muita paciência para casamentos, próprios e alheios, por causa do excesso de seriedade do oficiante, civil ou religioso. Mas gosto das recepções depois da cerimônia. Com seu profano à vontade, elas são um bom augúrio para as duas pessoinhas que decidiram encarar o futuro juntos. Para isso, a Colombo é ideal. Aos 125 anos, ela passa uma sensação de eternidade."
O trecho possui elementos coesivos que promovem sua manutenção temática. A partir dessa perspectiva, conclui-se que
I- o pronome pessoal ELAS remete a “duas pessoinhas”.
II- o articulador POR CAUSA DE(O) introduz uma generalização.
III- a palavra MAS inicia uma oração que exprime ideia de ressalva.
IV- a expressão SEU PROFANO À VONTADE retoma coesivamente “casamento”.
Está correto apenas o que se afirma em